O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2012/08/31

POR QUE SERRA VAI PERDER AS ELEIÇÕES

Arquivado em: Matutando — trezende @ 09:45

De um dia para o outro as pesquisas mostram uma triste realidade para quem gostaria que a experiência vencesse o populismo.
Russomano segue como líder isolado do campeonato, mas Fernando Haddad está encostando cada vez mais em Serra na disputa pelo segundo lugar à prefeitura de São Paulo.
O que acontece agora com Serra é um déja-vù da campanha de 2008, cujos primeiros colocados eram Marta Suplicy, Alckmin e Kassab.
Enquanto Marta fazia coral com os favelados cantando o jingle “Carrega na catraca”, Alckmin aparecia com os cabelos penteados como se tivesse acabado de sair do banho. Sentado numa poltrona de couro e cercado por retratos de família, discorria, em tom professoral, sobre a importância de Medicina em sua vida e a experiência como jovem prefeito de Pindamonhangaba. E Marta lá na periferia, no meio do povo, com o salto na lama e as veias do pescoço estufadas cantando: “Pra gastar menos tempo, pra gastar menos dinheiro. Pega o bilhete e… Carrega na catraca! Carrega na catraca! Carrega na catraca!”.
Resultado: Alckmin não foi nem para o segundo turno.
Se restava alguma dúvida para os marqueteiros, o recado da população foi bem claro. Ao eleitor brasileiro não interessa se o candidato tem uma família feliz, é casado, divorciado ou escorrega no quiabo – aliás, a insinuação de Marta sobre a orientação sexual de Kassab custou-lhe a derrota no segundo turno.
O eleitor só quer saber de soluções práticas para sua vidinha casa-trabalho-casa.
Desta vez a história se repete – ao que parece, os marqueteiros do PSDB ainda não captaram a mensagem.
Com o mesmo tom de voz de Alckmin e com o mesmo (resto de) cabelo engomado, Serra promete um curso de cuidadores de idosos.
Avisa lá, avisa lá, avisa lá que o povo quer que o idoso se exploda. No ônibus, após carregar na catraca, o cidadão toma seu lugar no “Assento Preferencial” e não há idoso que o retire de lá.
Infelizmente, apesar de ser um candidato sério e de ter deixado saudades como Ministro da Saúde, Serra não chegará nem ao segundo turno. Falta-lhe discurso populista, veia do pescoço estufada e, claro, um bom marketing político.
Até Haddad – ainda pouco conhecido pelo povão – vem com uma promessa que está fazendo os olhos do povão brilharem: o bilhete único mensal. “Com o mesmo cartão vai poder fazer quantas viagens quiser durante o mês inteiro”, diz ele. E Dilma ainda nem entrou na campanha.
Enquanto isso, Russomano segue com a fórmula que deu certo até hoje: a carreira como defensor dos direitos do consumidor. Será praticamente impossível tirarem essa dele.
Aguardem e confiem.

2012/08/09

NAS ONDAS DO RÁDIO

Arquivado em: Matutando — trezende @ 10:26

“Isso é um absurdo! Não vamos questionar o direito deles à greve. Mas o que o motorista que está na Dutra agora tem a ver com isso? Eles estão atrapalhando a vida das pessoas erradas. Eles deveriam ir encher o saco de quem anda de carro blindado, de helicóptero… Por que eles não vão protestar na porta do ministro? Descobrir onde a mulher do ministro faz chapinha, ir lá e jogar água?”.
O comentário acima, sobre a greve dos policiais rodoviários que travou a Dutra e outras estradas do país, é uma das inúmeras opiniões pertinentes e lúcidas do jornalista Ricardo Boechat na “Band News FM”.
Diariamente fico indignada, dou risada, faço questionamentos e formo opiniões com a ajuda de Boechat. Ele é, sem dúvida, um dos cinco grandes jornalistas do país.
Ele é o diferencial na programação matutina da “Band News FM”.
Entre uma manchete e outra faz valer sua independência editorial dando opiniões polêmicas e pagando o preço por isso – ele tem inúmeros processos de políticos nas costas.
Além disso – e principalmente – Boechat humaniza o noticiário contando, sem querer até, muito sobre sua vida pessoal. Num dia fala sobre a família e no outro sobre seu Twingo velho. Há pouco tempo não sabia onde havia estacionado o carro.
A mãe, Mercedes, e as filhas pequenas Catarina e Valentina – de seu terceiro casamento com a “doce Veruska” – são sempre citadas pelo jornalista.
Pai aos 50 anos, ele é um corujaço. Outro dia chegou para trabalhar com as unhas azuis e foi motivo de gozação. Defendeu-se dizendo que estava brincando com as filhas e permitiu que elas pintassem suas unhas de azul.
Em certos dias é perceptível a impaciência de seus companheiros de bancada. É comum Boechat empolgar-se com suas observações e avançar alguns bons minutos no horário.
Sem contar que vira e mexe ele chega atrasado. Dia desses, apareceu bem depois das oito da manhã (seu horário de entrada é às sete). Quando alcançou o microfone, esbaforido e sem cerimônia, disse que havia perdido a hora. A “doce Veruska” tinha viajado e ele se esquecera de que precisava por o relógio para despertar.
A coluna de José Simão não tem a mesma graça sem ele, que realmente se diverte com as piadas do colunista. Na ausência de Boechat, os outros dois apresentadores riem forçadamente e conseguem deixar o risível sem riso.
Boechat é também o único a não demonstrar irritação e tensão com as provocações de Milton Neves. Trata-o com a ironia que ele merece.
Enquanto os dois outros apresentadores – bitolados e cumpridores de horário – leem notas, Boechat questiona. Outro dia um de seus parceiros informou que, com dois anos de atraso, o aeroporto de Congonhas ganharia uma nova torre de controle. Entre as melhorias, a obra acabaria com os pontos cegos da torre. E Boechat, interrompendo: “Para, para, para. Peraí, você tá querendo me dizer que a torre de controle do aeroporto mais movimentado do país tem pontos cegos? E até hoje a gente não sabia disso? Ah, que ótimo! Gente, isso é um absurdo”.
O mais interessante é que ficou muito claro que o jornalista que havia lido a nota não tinha se dado conta disso. Simplesmente ligou o piloto automático e leu a nota que lhe passaram.
Mas, como jornalista, temos sempre de ouvir os dois lados. Portanto, é preciso dizer que Boechat não é santo. Em 2001 ele foi demitido do jornal “O Globo” e da TV Globo (onde tinha uma coluna no “Bom Dia Brasil”) por comportamento antiético.
Boechat teve seu telefone grampeado e descobriu-se que ele havia lido o texto que seria publicado no dia seguinte para Paulo Marinho (assessor de Nelson Tanure, jornalista e principal acionista do “Jornal do Brasil”) sobre a disputa no setor de telefonia. Boechat também explicava detalhes dos procedimentos internos do jornal.
Ops.

2012/07/20

AFINAL, O QUE É PORNOGRAFIA?

Arquivado em: Matutando — trezende @ 09:56

Com a CPI do Cachoeira tão fria quanto um defunto e tão ineficiente quanto manda a tradição de investigações e punições em nossas casas legislativas, um assunto dominou as atenções na semana: o vídeo pornô de Denise Leitão Rocha, assessora do senador Ciro Nogueira.
No Brasil, é assim: pode roubar, pode colocar dinheiro na cueca, pode ser “amigo” do Cachoeira, pode meter a mão no dinheiro público, pode violar painel de votação, pode receber o Mensalão, pode tudo. A única maneira de um funcionário do Senado ser exonerado é ser pego num vídeo de sexo. Isso sim “é contra a moral e os bons costumes”.
Pelamordedeus.
O senador diz que “está avaliando” a permanência da funcionária porque não quer “um tipo de assessora que apareça mais do que o trabalho que faz”.
Das duas, uma: ou Ciro acredita em Papai Noel ou é – com o perdão da palavra, ó nobre senador – burro.
Denise já era conhecida entre seus colegas pelas roupas justas e corpo bombado de academia. Amiga de Romário, já teve fotos de biquíni divulgadas por um jornal carioca popular. O que Ciro e todo o Senado esperavam dela? Que enviasse projetos de lei para aprovação? Que soubesse recitar a Constituição de cor? Que fosse phD em Ciências Políticas e Econômicas?
Claro que não. Denise é uma cansada de guerra.
Se tem alguém que tem de ficar constrangido é o próprio Ciro Nogueira, que se encontrou com o empresário Fernando Cavendish numa viagem a Paris quando já se sabia que o dono da Delta seria investigado pela CPI.
Uma coisa é Renan ser pego com Mônica Veloso no sofá azul ou o presidente dos Estados Unidos “fumar um charuto” com a estagiária. Outra, bem diferente, é uma funcionária do Senado protagonizar um vídeo com teor sexual. Se há uma vítima, é a própria. Afinal, o filme não foi feito nas dependências do Senado, Denise é assessora de parlamentar – e não freira – e sacanagem por sacanagem essa é, pelo menos, a original.

2012/06/29

DEMOCRATAS CRISTÃOS

Arquivado em: Matutando — trezende @ 09:59

Quando Luiza Erundina foi a candidata do PT à prefeitura de São Paulo, em 1988, eu tinha 12 anos e uma incrível capacidade para decorar os jingles das propagandas eleitorais gratuitas.
Além de “Ey, Ey, Eymael, um democrata cristão, para prefeito em 15 de novembro é Eymael!”, o de Luiza Erundina era um de meus preferidos: “Quando todos souberem bem do carinho e coragem que você tem. Como naquela canção se deram as mãos homem e mulher. É, aí você bota ordem na casa como tem que serrrrr! Com carinho e coragem Luiza, São Paulo tem você! Luiza, Luiza, só sendo mulher pra acabar com esse tipo de gente!”.
Pois foram necessários quase 25 anos para Luiza mostrar toda sua coragem. E nem precisou muito. Só uma foto. “A” foto: o candidato do PT à prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, Maluf e Lula dando tapinhas nas costas num belo jardim.
Foi demais para Luiza, que jogou a toalha e deixou o caminho aberto para a primeira vice Campeão da história.
Se alguém tivesse sido enviado à Lua ou congelado numa cápsula em 1988 e acordasse hoje talvez não entendesse a composição da imagem, mas para quem vem acompanhando a trajetória de Lula e de seu PT não foi surpresa.
Praticamente todos os jornalistas, cientistas políticos, colunistas e afins classificaram a foto como chocante e disseram o óbvio: que o vale-tudo para as eleições já começou.
Foi dito também que nenhum deles estava ali unido por projeto político ou ideologia. Ora, e existe ideologia entre políticos? E projeto?
Na verdade não houve surpresa nem do lado lulista e nem do malufista – eles também são democratas cristãos.
Maluf sempre sai bem na foto. Quem geralmente tem de dar explicações é quem está do lado.
Mas Lula disse que não se arrependeu “nem um pouco” e ainda garantiu que participará da campanha nas ruas e na TV. “Se for necessário, vou morder a canela dos adversários”, declarou.
Maluf é o verdadeiro político com “P” maiúsculo. Nunca perde a calma, nunca deixa de falar com os jornalistas, nunca morde a canela dos adversários e principalmente nunca se esquiva de tirar fotos com quem lhe pede. Liso como um lambari ensaboado, ele toca sua vida com um sorriso no rosto e muita acusação nas costas.
Maluf tem uma longa carreira de negociatas, ligações mal explicadas com políticos, empresários e empreiteiras, envolvimento em obras superfaturadas, relações perigosas com militares e contas bancárias em paraísos fiscais. Detalhe: nada disso comprovado.
Em São Paulo é muito comum pizzarias tradicionais ou cantinas forrarem a parede da entrada com um mural de fotos. Nelas, o proprietário aparece sorridente ao lado de artistas e “celebridades” de todos os naipes.
Pois Maluf já tem material suficiente para abrir uma pizzaria. Além das fotos com seus colegas de ocasião, pizzas não lhe faltam.
Quanto à Erudina, os marqueteiros podem tranquilamente ressuscitar o jingle de sua campanha de 1988. Ele está mais atual do que nunca.
Com carinho e coragem Luiza, São Paulo tem você!

2012/06/10

SALVE A SELEÇÃO!

Arquivado em: Matutando — trezende @ 09:14

Bom mesmo de assistir futebol é durante a Copa do Mundo. Durante os dias da competição até o menos orgulhoso de ser brasileiro canta o hino nacional, usa a bandeira como capa, aprende a tocar corneta e literalmente veste a camisa.
Mas enquanto a grande festa da bola não chega, vamos espantando o frio com os amistosos.
É nessa hora que quem não acompanha os “jogos da rodada” do Brasileirão, do Paulistão ou de qualquer outro “ão” toma conhecimento da existência de certos jogadores. Hulk? Marcelo? (ou é o D2 disfarçado?). Cadê o Robinho? O Ronaldinho? Será que o filho do Dentinho já nasceu?
Acreditem, é por aí que vagam os pensamentos do torcedor ocasional. Nada escapa ao olhar do leigo. É a descoberta de um novo mundo.
Os comentaristas, por exemplo. Como diz o nome, deveriam comentar o desempenho dos jogadores com imparcialidade, mas fazem tudo ao contrário. Torcem, reclamam do juiz, ignoram faltas alheias, brigam entre si, ficam cegos diante de um soco que favorece a equipe alheia e conversam como comadres durante o chá da tarde.
Aliás, um deles não comenta exatamente. Repete durante os 90 minutos que está se divertindo com a partida, que estamos diante de um “jogaço espetacular”, um legítimo Brasil e Argentina.
E então descobrimos que Hulk está em campo. Um Hulk bem brasileiro, diga-se. Alguém reparou no traseiro do nosso representante da categoria dos heróis? Hulk estava mais para Viúva Negra – sua bunda parecia muito a de uma tanajura. Bastava um rodeio de quadril para derrubar o adversário.
A cada gol de Messi (o homem que não ri) quem fica verde é o nosso goleiro.
A imagem é cortada para o banco de reservas do Brasil e lá está ele: Valderrama (ou um jogador muito semelhante).
Pausa no jogo. É o momento dos “tira-teimas” – que não tiram e nem teimam nada.
A informação mais interessante do intervalo é que se algum torcedor se comportar mal alguém pode mandar um SMS para a polícia. #ficaadica
No retorno das seleções ao gramado, surge o primeiro grande mistério da humanidade: os manos voltam com a mesma escalação. Preferem deixar as substituições dos atletas para os cinco minutos finais. Por quê?
No segundo tempo, Hulk dá sinais de que se sente ameaçado pela entrada do vocalista do grupo Gengis Khan (“Comer, comer,comer, comer, é o melhor para poder crescer!”): Guiñazu. Esse, apesar da aparência, não exige que Hulk mande um SMS para ninguém.
Entram também Pato e Aguero (“genro do Maradona”, como fofoca um dos repórteres de campo).
Aí o que era para ser um jogo “sangue nos óio” vira praticamente uma pelada familiar. De um lado o genro de Maradona; do outro, o genro de Berlusconi.
O páreo é duro, mas sobra pouco tempo para Pato aqui, Pato acolá. Afinal, após as substituições, o jogo sempre chega ao fim. Não sem antes um barraco básico envolvendo Marcelo (o D2).
Vou mandar um SMS já.

2012/06/02

REFEIÇÃO INDIGESTA

Arquivado em: Matutando — trezende @ 10:12

Observar um almoço do pessoal da firrrma é a melhor maneira de comprovar o quanto a intimidade pode se tornar invasiva.
É fácil e óbvio identificar o grupo: eles chegam em bando, falando alto e escolhendo – até com uma certa polêmica – o local em que vão se instalar. Uma vez selecionado o ponto, deixam os crachás – e nunca seus smartphones – sobre a mesa para “guardar lugar”.
Enquanto se servem, aproveitam para papear em cima das travessas de comida. Quando um enche o prato com ovos de codorna, os outros gritam: “Aêê! É hojee!”. Na tentativa de disfarçar ou fingir que não entendeu a piada, o fanático dos ovos de codorna comenta: “É hoje que eu gasto todo o meu VR (vale refeição)”.
Graças à indecisão da maioria que cerca o bufê, a fila anda devagar. Nesta hora as clássicas piadinhas de almoço entram em ação: “Deixa um pouco do estrogonofe pra mim, hein”? ou “Pepino é bom pra memória”.
Enquanto aguardam para pesar o prato, começam os questionamentos e as cobranças: “Ué, não vai pegar arroz hoje?”; “Vai comer sobremesa hoje de novo?”; “Cê não gosta de salada?”; “Nossa, cê vai aguentar tudo isso?”; “Não vai por azeite no tomate?”; “Cê não põe o feijão em cima do arroz?”; “Nossa, cê vai comer tudo isso de alho? Não chega perto de mim hoje na reunião, hein?”.
Já outros – talvez para evitarem as perguntas – se antecipam nas justificativas: “Vou comer só um pouquinho porque ontem peguei pesado. Comi pizza à noite”.
Finalmente sentados, começam a sessão do descarrego. Entre conferidas no celular a cada cinco minutos, falam mal do chefe e dos colegas ausentes, contam vantagens, relatam planos para o final de semana, comentam sobre o amigo do amigo do amigo que fez MBA e que hoje trabalha no “Google” e eventualmente experimentam um pedaço do que quer que seja do prato alheio.
Almoçados, cometem a intimidade das intimidades: perguntar ao outro se está com uma folhinha de agrião ou uma casca de feijão entre os dentes.
Sim, a intimidade pode ser muito cruel.

P.S.: a clássica foto acima, de Charles C. Ebbets, chama-se “Lunchtime Atop a Skyscraper” (algo como “Almoço no Alto de um Arranha-Céu”) e foi tirada em 1932 durante a construção do Rockfeller Center.
Já imaginaram se cai o garfo?

2012/05/25

ENTRE A BALBÚRDIA E O SILÊNCIO

Arquivado em: Matutando — trezende @ 07:29

O que é uma CPI senão um grande circo? A comissão recebe os poderes de investigar, de ouvir testemunhas e investigados, de requisitar documentos sigilosos e até de quebrar os sigilos bancário e fiscal dos acusados. Ao final de seis meses entrega suas conclusões ao Ministério Público e aí… só Deus sabe. Raramente o desprendimento de dinheiro público e a energia da imprensa e da população que acompanha as investigações são recompensados. Quando muito, um paga o pato e pronto. Vamos pedir uma pizza.
No caso desta CPMI, ela tem até outubro para produzir seus resultados. Chegam as eleições, chega novembro, chega o Natal e aí já era. Em março de 2013 ninguém mais se lembra quem é Carlinhos Cachoeira – principalmente porque até lá já teremos um novo escândalo.
A CPI é o palco que todo político (gaiato ou não) sonha. É o melhor momento para proferir frases de efeito, de bater boca por bobagem, de dar murros na mesa, de se posicionar numa bancada bem ao alcance das câmeras de TV, de portar uma cara de inteligente ou de formular uma pergunta para colocar o acusado contra a parede mesmo sabendo que ele não a responderá.
Como estamos em ano de eleição, os componentes acima podem ser multiplicados por três.
Na ânsia em não desperdiçar os holofotes, quase todos perdem a linha. Infelizmente a imprensa embarca no circo e publica tudo em forma de “galeria de personagens da CPI”.
Uma pena. Um evento que deveria ser tratado de maneira séria tem seu foco desviado para amenidades e fofocas. Saber se a mulher de Cachoeira vai posar para a “Playboy” passa a ser assunto de interesse nacional. E Demóstenes, por onde anda?
Nada disso é novidade para quem acompanha as CPIs – que desde 2005 têm se mostrado muito mais eficazes como propaganda política do que o próprio horário eleitoral gratuito.
Não é surpresa o acusado ser convocado para um depoimento e permanecer calado, como fez Carlinhos Cachoeira nesta semana devidamente resguardado pela lei e pelos seus advogados.
Enquanto Cachoeira fazia cara de paisagem, nos bastidores é possível imaginar o batalhão de gente contratada para fazer sumir – também silenciosamente – documentos secretos.  
Em meio a toda a palhaçada, o senador Álvaro Dias foi o único que se demonstrou sensato: “O que estamos a fazer aqui, diante de um marginal que sai da [penitenciária] da Papuda e mantém-se com a arrogância dos livres?”.
Boa pergunta. É justamente esta questão que nos fazemos a cada CPI instalada.
A surpresa ficou por conta da atuação de Márcio Thomaz Bastos na defesa de Carlinhos Cachoeira. O advogado foi ministro da Justiça do governo Lula por quatro anos e era considerado, pelo menos até este acontecimento, um homem sério e cheio de credenciais.
Mas depois dessa, com que cara olhar para Thomaz Bastos?
Das duas, uma: ou ele está passando por imensas dificuldades financeiras e precisa de clientes para pagar suas contas ou perdeu o juízo. Melhor não acreditar na terceira hipótese: a de que ele receberá milhões de dólares para defender o indefensável.

P.S.: No final de semana estarei offline. Até segunda!

2012/05/18

MEIAS VERDADES

Arquivado em: Matutando — trezende @ 06:33

Ano de eleição é dose. Vale tudo. Desde beijar criancinhas catarrentas até falar com o dedo em riste num dia para, na manhã seguinte, se esvair em lágrimas.
Foi o que aconteceu com a nossa presidenta nesta semana ao instalar a Comissão da Verdade.
O nome é pomposo, mas ninguém sabe explicar muito bem atrás de qual verdade essa comissão está. Das violações aos Direitos Humanos cometidas pela Ditadura ou dos excessos da guerilha que a combateu? Ou de ambas? Ou a comissão busca uma verdade unilateral?
Se forem investigados os atos cometidos pela esquerda armada chegarão à participação de Dilma e de diversas pessoas que fazem parte do cenário político atual. E se descobrirem que Stela apagou 2, 3, 5 pais de família (Stela era o codinome de Dilma na época)?
Ok, esse é o tipo de informação que jamais será “descoberta”. Entra na categoria documentos que se queimaram junto com os estúdios da TV Tupi ou do Joelma.
Nasce, assim, a comissão da Meia Verdade.
Para dar ao teatro o caráter de ato de Estado e não dar o mérito ao seu governo, Dilma convidou os ex-presidentes dos últimos 28 anos de História. Na plateia, além de Lula e FHC estavam Collor e Sarney. Quanta verdade reunida.
Após a cerimônia, a presidenta recebeu seus antecessores para um almoço no Palácio da Alvorada. No cardápio, massa, filé e peixe. De sobremesa, Collor pedindo o autógrafo de Dilma. Durante a “siesta” evitaram brincar de “Verdade ou Consequência?”.
A comissão não prevê condenações. Seu objetivo é apenas encontrar respostas.
Mas alguém realmente acha que serão dadas explicações convincentes para o que aconteceu, por exemplo, a Vladimir Herzog, ao deputado Rubens Paiva e a Stuart Angel, filho de Zuzu? Ou serão respostas fabricadas?
Se não conseguem provar nem a relação entre governadores e Carlinhos Cachoeira, o que esperar de fatos que aconteceram há quase 40 anos? Temos a memória curta, esqueceram?
Mas a pergunta mais importante é: que crédito tem um uma Comissão da Verdade no Brasil? Mais ou menos o mesmo que a Comissão do Bem Estar na Somália ou a Comissão Antipirataria no Paraguai…

2012/04/12

PARA A NOSSA TRISTEZA

Arquivado em: Matutando — trezende @ 07:40

Alguém arrisca um palpite sobre quem seria a Scarlett Johansson do Brasil?
a) Ângela Bismarchi
b) Loira do Tchan
c) Joelma
d) Geisy Arruda
e) a ex-BBB Renateenha
Nenhuma das anteriores. A resposta é surpreendente: Sônia Abrão.
Nesta semana fomos agraciados com uma pérola: a apresentadora vestida apenas com um maiô preto posando de frente para o espelho. A foto, tirada pela própria Sônia, foi feita com o seu celular.
Mas ao contrário de Scarlett – cuja imagem comprometedora vazou na Internet em circunstâncias não esclarecidas – a própria apresentadora “flagrou-se” no momento íntimo. Fato. O motivo é que é um mistério. Qual seria a real intenção de Sônia Abrão?
Pelo o que ela diz, nenhuma. Foi só uma distração misturada à desinformação.
Numa entrevista ao site “Ego”, a apresentadora se mostrou surpresa com a repercussão que a imagem gerou – forte candidata a “meme”, como o vídeo do “Para a nossa alegria” ou Angelina Jolie e seu vestido com fenda na festa do Oscar.
Sônia Abrão declarou que pensou que o “Instagram” era fechado. Hã hã.
“Fiz essa foto durante um ensaio para uma revista de dieta, mas a própria capa foi de roupa porque não me senti tão à vontade”, explicou. Hã hã. E que revista publicaria na capa uma foto desfocada, escura e sem produção como essa?
A desculpa esfarrapada continua: “Estava mexendo em umas fotos de uma viagem, achei essa e resolvi publicar. Achei que ninguem iria ver, fiquei surpresa”. Hã hã.
Rata de TV, Sônia conhece exatamente a receita para chamar a atenção de seus colegas fofoqueiros. Portanto, essas justificativas não convencem. Restam outras opções:
a) uma tentativa de mostrar que em sua vida também há espaço para a sensualidade – apesar de só falar em desgraça e ter uma língua ferina disfarçada num tom de voz sereno
b) “causar”, porque está incomodada com a audiência da concorrente de horário e de emissora Adriane Galisteu
c) talvez esteja prestes a publicar um livro de receitas ou algo parecido e precisa de publicidade. Pegou carona na compra do “Instragam” pelo “Facebook” e deu certo
d) homenagear Wando
Como jornalista, Sônia deveria estar mais informada sobre as facilidades da Internet.
Se o objetivo era só “sensualizar”, ela conseguiu – no máximo e muito ao longe – lembrar uma Morticia Adams. E como já estão dizendo, trair a “TecPix”.

2012/04/02

POR ÁGUA ABAIXO

Arquivado em: Matutando — trezende @ 07:27

Que me perdoem os crentes, mas nosso cenário político tem tudo a ver com o caldeirão religioso que é o Brasil. É católico que também frequenta umbanda, evangélico que é espírita, protestante que vai ao candomblé, ateu que não come carne na Sexta-Feira Santa, assim como é senador com bicheiro, deputado com lobista, ministro com cafetã, juiz com traficante, agente público com araponga. É a dança do maxixe. Um político no meio com dois contraventores fazendo sanduíche. Dança da pizza é coisa do passado.
O dinheiro vai para dentro da Bíblia ou para o aconchego da cueca. O dízimo pode ser de 10% ou mais – depende da “ética do mercado”, como explicam os professores aos iniciantes.
A penitência é a mesma para todos: a excomunhão, a expulsão do partido.
Comum também é a crença, a confiança e a certeza na (da) ressurreição.
O pequeno detalhe no caso de Demóstenes Torres é que o segredo de confessionário vazou. A comunidade inteira ficou sabendo. Os grampos que podem derrubar o senador são os mesmos que caíram dos coques das beatas, incrédulas diante do falso bom-mocismo do bom moço.
Demóstenes conheceu o demo. Mas é apenas o primeiro da fila para falar com o cramulhão.
Sandes Junior, o deputado dois em um, pegou duas senhas. Aguarda sua vez. Stepan Nercessian também.
Carlinhos Cachoeira. Esse nome já é indício de alguma coisa. Ou alguém colocaria a mão no fogo por um blog escrito por Tatianinha Queda d´Água? Tatianinha Sete Quedas?
Quanta injustiça. Preconceito até. Pior se fosse Carlinhos Cascata.
A acusação é infundada porque Carlinhos Cachoeira é, antes de tudo, um trabalhador incansável. Além dos inúmeros negócios no governo, é dono da “Vitapan Indústria Farmacêutica”, fabricante de medicamentos.
Quem aí tomaria um anticoncepcional da Vitapan? Esse, com certeza, opera milagres. Como o maior milagre da vida: o nascimento de um filho.
Demóstenes só será salvo por um milagre.
Mas milagre, milagre mesmo, o milagre dos milagres é Maluf. Apesar de tudo, continua lépido e faceiro assistindo a seus colegas de plenário entrarem na fila do demo.
O segredo? É que ele não (se) confessa nunca. Não lida com intermediários. Levará seus pecados para o túmulo.

2012/01/27

MINHA TERRA TEM BOBEIRAS

Arquivado em: Matutando — trezende @ 09:08

A primeira vez que li sobre Luiza fiquei com uma estranha sensação de ter perdido a piada.
Afastei-me poucos dias da Internet e, quando retorno, a frase “Menos Luiza, que está no Canadá”, bomba no Twitter.
Depois de correr os olhos para a direita e notar o assunto nos “trending topics”, começo a busca por pistas.
Inicialmente pensei que se tratasse de uma piadinha baseada na declaração de algum entrevistado do programa “Chegadas e Partidas”, no GNT, mas graças ao Google fiquei ainda mais embasbacada.
Luiza é uma estudante paraibana de 17 anos que estava fazendo um intercâmbio no Canadá havia seis meses. Seu pai – colunista social em João Pessoa – estreou recentemente a propaganda de um empreendimento imobiliário em que diz a frase rodeado por porta-retratos da filha. E só.
Montar a equação foi simples: roteirista publicitário brega + pai sem noção = “celebridade” + grana do bolso do proprietário do empreendimento imobiliário.
Valeu pela criação do bordão – que realmente surge a partir das situações mais bobas.
No episódio, choca o comportamento surreal da mídia, que se encarregou de transformar em circo o que era só um hit da Internet.
Luiza foi personagem de uma matéria com mais de cinco minutos no “Bom Dia Brasil” e de outros três no “Jornal Hoje”. Foi aplaudida na redação da TV Globo. Luiza esteve na “São Paulo Fashion Week” (o repórter de um programa de fofocas que a abordou perguntou tudo o que pode: se está namorando, se aceitaria um convite para posar nua… Só faltou querer saber o que ela comeu no almoço).
A “Folha de S. Paulo” informa que Luiza estará no domingo no programa de Eliana, no SBT.
Para falar sobre o quê? Sobre o frio do Canadá? Ou sobre como é um programa de intercâmbio?
No mesmo SBT, Carlos Nascimento foi o único a empregar o bordão de forma crítica: “Luiza já voltou do Canadá, e nós já fomos mais inteligentes”.
Luiza não tem sobrenome. É simplesmente Luiza que estava no Canadá ou Luiza que voltou do Canadá. Luiza não falou nada, não fez nada e (diz que) não está entendendo nada.
Por conta do sucesso, a estudante retornou da viagem antes do previsto e desde então tem se dedicado a conceder entrevistas declarando-se assustada.
Ora, nem tanto. Ela tem recebido inúmeros convites para estrelar novos comerciais e já está cobrando R$ 15 mil para dar “presença vip” (aparecer num evento, posar para fotos e dar tchau).
Na Internet, o povo já está em outra. Resta saber por mais quanto tempo jornais e revistas falarão sobre a estudante. Talvez só quando Luiza for pra Portugal e perder o lugar.

2012/01/13

THRILLER

Arquivado em: Matutando — trezende @ 09:03

É inacreditável e inexplicável a intervenção da prefeitura e do governo paulista na Cracolândia. Bate até uma ponta de inveja da ocupação realizada nos morros cariocas.
No dia em que os oficiais paulistas chegaram para detetizar a região, a cena foi idêntica ao clássico clipe de Michael Jackson. Era gente esfarrapada saindo de bueiro, cabelo desgrenhado, mãos queimadas… Todos eles desfilando encolhidos, com as pernas bambas e seguindo uma coreografia de zumbis.
Por que agir assim tão atabalhoadamente? Não estamos nem às vésperas da Fórmula 1 e nem da Parada Gay – épocas em que a prefeitura dá uma maquiada na cidade para receber turistas.
Resposta: eleições municipais. Começou a campanha.
Os desdobramentos têm sido desastrosos. Pouquíssimos viciados procuraram tratamento, outros poucos foram atendidos e muitos retornarão ao vício assim que os tiras virarem as costas.
Vários dependentes foram presos e 16 mil pedras de crack foram apreendidas – segundo a polícia, o suficiente para o consumo em apenas um dia na região. Ou seja, nada.
De positivo mesmo, apenas as 70 toneladas de lixo recolhidas das ruas.
A polícia já avisou que a ocupação é como o Carnaval na Bahia (“não tem hora pra acabar”). Ora, por que não implantam então o esquema de UPPs, como a prefeitura fará no Rio de Janeiro? É a melhor opção para usuários e traficantes – que saberão exatamente onde está instalado o perigo e farão suas negociações bem longe dali.
Resultados, por enquanto, só micos. Surgiu até um ajudante de pedreiro dizendo ser um integrante do Katinguelê (oi?). Com a decisão do governo de vetar bombas e balas de borracha, ninguém pode se vingar.
A palhaçada não termina por aí. Está marcado para este sábado um churrascão de gente diferenciada. A ideia é protestar contra a ação da polícia.
O que o churrascão de Higienópolis tinha de autêntico, irônico e bem-humorado, esse tem de oportunista. É realmente uma pena o sentido do churrascão ter se perdido assim. A operação na Cracolândia não tem graça nenhuma.
Antes restritos a uma região, agora os dependentes se espalham por todos os bairros. Vivemos a “cracolandização da cidade”. Quem diria que um dia sentiríamos saudades da “katinguelização” de São Paulo.

P.S.: Nos próximos dias estarei no Rio. Novos posts a partir de 23/01. Até!

2012/01/05

DELÍRIOS CIENTÍFICOS

Arquivado em: Matutando — trezende @ 10:03

Nesta semana, no Reino Unido, foi registrado um caso de gêmeos que nasceram com cinco anos de diferença.
A chamada para a notícia, descrita mais ou menos com essas palavras, desperta a atenção logo de cara. Como é que pode? Cinco anos para nascer? Certos bebês passam alguns minutos da hora do parto e já vêm ao mundo como os Smurfs: azuis. Mas cinco anos?
Durante a leitura, no entanto, a descoberta de que o peixe não é bem o que havia sido vendido. O mistério explica-se da seguinte forma:
Em 2005, os pais dos meninos realizaram um tratamento de fertilidade. Foram criados cinco embriões e dois deles foram implantados. Um vingou e resultou no nascimento do garoto que tem hoje 5 anos. Os três embriões restantes foram congelados. No ano passado o casal decidiu ter outro filho e novamente a Ciência entrou em ação. Aí sim nasce o “gêmeo”.
Cientificamente as crianças – formadas a partir do mesmo lote de embriões – podem até ser consideradas gêmeas, mas daí a usar o mesmo termo para nós, leigos, é quase um abuso. Gêmeos uma ova (sem trocadilho).
Então, toda a fantasia criada em torno de uma mulher grávida durante cinco anos vai por água abaixo. Já filmaram a história de um bebê que nasce velho (“O Curioso Caso de Benjamin Button”), mas um incubado na barriga da mãe por meia década seria uma história e tanto. Uma comédia nonsense, obviamente. Depois de um filme tão “profundo” quanto o de Brad Pitt e Cate Blanchett, um argumento como esse não pode ser levado a sério.
A sinopse: dois bebês que dividem a mesma salmoura se desentendem por razões espaciais e um deles resolve jogar tudo para o alto: nasce. O outro permanece embebido na salmoura, pega gosto pela coisa (com trocadilho) e decide ficar incubado naturalmente. Alimenta-se de forma racionada para não adquirir peso e incomodar a hospedeira. Ali vive solitariamente durante cinco longos anos. Com medo de nascer anão, entrega-se ao mundo.
Daí o roteiro se desenvolve – sempre com foco na personalidade desse ser, egoísta e com baixa autoestima. Já adulto, ele se torna um chef de sucesso.
O título: Minha vida em banho-maria.
Será que Hollywood se interessaria pela minha história?

2012/01/02

FOI DADA A LARGADA

Arquivado em: Matutando — trezende @ 09:30

Todo Natal é a mesma coisa. Enquanto as propagandas de TV falam no “espírito do Natal”, o povo se mata no supermercado por um cacho de uva Itália ou um peru em promoção. No trânsito, em vez de juntar os polegares para fazer a pomba da paz, o pessoal desenrola o dedo médio. Tudo assim bem natalino.
Réveillon também. Sempre paira uma ansiedade no ar. Natural. O que será igual? O que será diferente? Minha vida vai ser melhor? Que pepinos terei pela frente? E a overdose de notícias por conta do fim do mundo, marcado para 21/12/2012?
Nesta época, a maioria faz milhares de promessas, usa uma peça de roupa para atrair dinheiro, outra para garantir amor, come lentilha, romã e até pedra, se alguém disser que dá sorte. Na falta disso, serve um filé miau nas imediações de Copacabana.
Por que as pessoas têm essa necessidade do ritual da virada, de fazer planos que provavelmente nunca serão cumpridos, de consultar os búzios, de colocar calcinha vermelha, de pular sete ondas, enfim, de taparem o sol com a peneira?
Até quem, teoricamente, não precisaria. Os crentes, por exemplo – aí incluídos, sem distinção, católicos, judeus, umbandistas, budistas, evangélicos e até corinthianos. Eles tendem a fundamentar tudo sob o ponto de vista de sua fé. De uma demissão a um terremoto no Japão, as explicações podem variar na forma – “Deus quis assim”; “Que carma, hein?” ou “Isso aí é a fúria de Deus” –, mas a essência permanece. Uma ótima maneira de justificar o injustificável.
Mesmo eles, seguros do poder divino ou de sua própria fé, usam um look pai-de-santo e comem até pedra, se preciso for.
Assistir às pessoas que acamparam em Copacabana para aguardar a festa do “maior réveillon do mundo” torna esse mistério ainda mais intrigante.
Houve quem chegasse quatro dias antes para, literalmente, garantir um lugar ao sol. Na mala, frango assado, farofa, bolo, torta de frango – e eu que pensava que sopa na garrafa térmica era lenda.
Uma das personagens, uma tiazinha, repousava sobre uma canga que estampava a bandeira do Brasil e usava uns óculos em que o zero do 2012 fazia as vezes de aro. Minha senhora, vá pra casa antes que o fim do mundo chegue antes da meia-noite.
Esses acampantes são apenas uma amostra da quantidade de pessoas que acreditam que a contagem regressiva é feita para dar as boas-vindas não a um novo ano, mas a um anjo ou à fada do dente capazes de realizarem uma magia. Nesse átimo de segundo elas sofrerão algum tipo de mutação e se transformarão em outros seres, mais magros, mais tolerantes, mais ricos, mais saudáveis, mais felizes.
O incompreensível é que o componente realidade surge poucas horas depois desse momento mágico, já na volta para casa. Trânsito engarrafado, toneladas de lixo, mendigos mendigando, pessoas estressadas por um táxi, por um ônibus.
O choque entre o sonho e a realidade não as incomoda – e talvez aí resida o problema.
Pelo contrário, tudo isso parece fazer bem a elas. Elas ainda têm esperança.
Nada contra. Afinal, “elas podiam tá matando, podiam tá roubando”, mas estão apenas brincando de faz-de-conta…
Feliz 2012, gente!

2011/12/23

VIRA, VIRA, VIRA, VIROU

Arquivado em: Matutando — trezende @ 09:37

Como já se tornou tradição por aqui, o último post do ano é dia de retrospectiva.
Diante de tantos absurdos e bizarrices que tivemos de ouvir e engolir, as escolhas foram difíceis, mas uma tarefa bastante divertida.
Gostaria de agradecer a todos os leitores por mais um ano e desejar a todos um ótimo Natal e um 2012 sensacional. Just do it!
E vamos aos eleitos:

Frase do ano: “Hoje é dia de rock, bebê”

Boca maldita do ano: Carlos Lupi

Bob Pai do ano: Nicolas Sarkozy

Bob Filho do ano: Tomás Schmidt Cardoso, ex-filho de FHC

Padrinho do ano: Ganso

Bebida do ano: Toddynho

Drinque do ano: uísque com Rivotril

Casal do ano: Ellen Jabour e Pe Lanza

Solteiro do ano: Ashton Kutcher

Briga de marido e mulher do ano: Zezé di Camargo e Luciano

Sue Johanson do ano: Sandy

Não-ocupação do ano: tomada das favelas da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu

Distraído do ano: Orlando Silva

Hit do ano: “Ai seu eu te pego”

Cantora do ano: Adele

Luto do ano: Steve Jobs

Pegadinha do ano: a “Garçonetchen”, em Orlando

Babaca do ano: Rafinha Bastos

Atriz do ano: a promotora Deborah Guerner

Esporte do ano: MMA/UFC

Homem do ano: Neymar

Expressão do ano: “nós pega o peixe”, considerada adequada pelo MEC

Amy Winehouse do ano: Charlie Sheen

Hobby do ano: tricô

Herói do ano: o gordinho australiano Casey Heynes “Zangief”, responsável pelo golpe ninja mais bonito de 2011

Roger Abdelmassih do ano: Dominique Strauss-Khan

Filme do ano: “A Pele que Habito”

Buemba do ano: bueiros cariocas

Krill do ano: Bin Laden

Fiasco do ano: Pan de Guadalajara

Surpresinha do ano: abrir o porta-malas e dar de cara com o traficante Nem

Perua do ano: Val Marchiori

Personalidade do ano no Twitter: Luana Piovani

P.S.: Nos próximos dias estarei offline. Novos posts a partir de 02/01. Até!

Estão lembrados da igreja em Auckland (Nova Zelândia) que colocou em sua fachada o cartaz de Maria espantada com o resultado do teste de gravidez?
Pois bem. No mesmo dia em que publiquei o post o leitor Michael Mendel, morador de Auckland, deixou um comentário sobre o assunto.
Pedi então que ele mandasse uma foto em frente ao outdoor. Vejam a resposta de Michael:

“Estou mandando a foto em frente ao cartaz rasgado. E vou te contar que tirei a foto pela manhã e, à tarde, eles o retiraram. Essa igreja é bem famosa aqui. Além da arquitetura e da história, ela também choca por ter missas direcionadas à comunidade gay, por celebrar casamentos de pessoas do mesmo sexo e realizar festas que mais parecem de boate, com muita luz, fumaça e etc.

Feliz Natal e ótimo Ano Novo.

Abraço,

Michael Mendel

2011/11/20

PEPINO, UM SANTO REMÉDIO

Arquivado em: Matutando — trezende @ 08:24

Há exatamente uma semana identificamos uma característica peculiar de Carlos Lupi: a boca maldita.
Seu destempero verbal continua rendendo, já que o ministro é incapaz de controlar seus instintos mais primitivos.
Se Lupi não consegue dominar nem o que sai de sua boca, o que dizer das conexões involuntárias do cérebro?
Nesta semana o ministro foi traído por seu cérebro. Sim, na melhor das hipóteses, Lupi sofre de amnésia.
Esse foi o álibi usado por esse Shrek – que quando o bicho pega, rapidamente vira o gatinho indefeso.
No entanto, graças à publicação de fotos e até um vídeo, lembrou-se de alguns episódios em dois ou três dias. Mesmo assim, por relutar em admitir certas estripulias, Lupi ainda pode ser diagnosticado com um quadro de esquecimento agudo. Gripe mal curada pode evoluir para uma sinusite. Já amnésia é um mistério.
A saída de Lupi é dada como certa somente no ano que vem, quando a presidenta realiza sua mudança ministerial. Então, o que pode acontecer a Lupi agora? Vai continuar sendo fritado ao vivo ou vai pedir pra sair?
A situação do ministro é tão patética e vergonhosa que ele já deveria ter botado sua viola no saco há muito tempo. Mas o boca maldita ainda vai causar mais estragos.
Como disse o Zé Simão, os escândalos do governo são como lenços de papel: você puxa um, vêm três. Se depender de Lupi, virá o pacote inteiro. Ele já prometeu que “vai carregar o caixão de muita gente”.
Será que Lupi não tem família? Ninguém para aconselhá-lo de que é o momento de sair de cena e entrar para a História? Na ausência de um ente querido ou de um ombro amigo, a dica é uma conversa com Cid Gomes, que tem experiência com aeronaves e agregados.
Nós, de mãos atadas e com disposição nula para manifestações que não sejam a Parada Gay, a quem podemos recorrer? Aos deuses?
O próprio ministro já apelou para eles. Primeiro para Ares, o deus da Guerra (“Pra me tirar, só abatido a bala”), e depois para Afrodite (“Dilma, eu te amo”), mas ela não se rendeu aos encantos encomendados à deusa.
Melhor mesmo invocarmos algo mais mundano. Os deuses não merecem ser incomodados por causa desse tipo de gente.
Recorramos então aos heróis do mais novo esporte preferido do brasileiro: a pancadaria.
Junior Cigano pode dar conta de Lupi. Em menos de 10 segundos o ministro sairá do ringue com a voz do Anderson Silva e aí sim apresentará um quadro de amnésia. Vai esquecer-se completamente por que está sentado na cadeira de Ministro do Trabalho.
Só lhe falta a voz doce. Afinal, na cara de gatinho indefeso ele já é craque.

2011/11/14

OCCUPY ROCINHA

Arquivado em: Matutando — trezende @ 09:14

No último dia do ano, na lista-retrospectiva que este blog prepara, já está eleita a não-ação de 2011: a ocupação das favelas da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu.
Os moradores comemoraram o sucesso da “pacificação” sem disparo de tiros. Claro. Disparar contra quem numa favela vazia? A polícia cantou seu “avisa lá que eu vou” com pelo menos uma semana de antecedência.
Uma legítima “ocupação cabocla”: disseram a hora, o local e a razão. Aí é melzinho na chupeta. Tempo suficiente para todos os interessados organizarem suas fugas, esconderem as mercadorias e prepararem armadilhas – como aquela aprendida com o Coyote, do Papa-Léguas, de espalhar óleo na pista.
No sábado então às 4 horas todo o povo sem demora foi lá só pra assistir.
A polícia chegou às 4h30 da manhã. Até os cães da PM estavam bocejando.
Helicópteros tiveram uma função dupla: atrapalhar o sono de quem chegou tarde da balada e emporcalhar as ruas da favela, graças aos panfletos com números do Disque-Denúncia atirados pelos oficiais. A polícia fez o trabalho de varredura e a comunidade, de varrição.
Teve também carro de som. O objetivo era pedir que a população continuasse colaborando, dando informações sobre criminosos, armas e drogas escondidas. A verdade é que a caminhonete mais parecia servir para anúncio de baile funk – com locutor à altura.
O saldo: prisão de quatro pessoas, apreensão de meia dúzia de armas, uma ou outra moto roubada e, enfim, hasteamento da bandeira. Cadê a Vanuza para cantar o Hino Nacional?
Se há pouco ou nada para se comemorar, há muito o que se perguntar. Para onde foram os traficantes? Para que gastar dinheiro para prender quatro gatos-pingados?
Muitos devem julgar que uma ação desse tipo é melhor do que nada. Mas se a polícia e as autoridades cariocas empregassem o dinheiro gasto na ocupação para terminar as obras esportivas fariam um serviço melhor à população e ao país.
Geralmente, diante das ideias mirabolantes ou fantasiosas, perguntamos se já combinaram com o adversário. Pois a polícia fez justamente isso: combinou com o adversário.

2011/10/14

O CARNAVAL DO SÉCULO

Arquivado em: Matutando — trezende @ 11:03

Palmas para quem botou o bloco na rua neste feriado e participou da “Marcha Contra a Corrupção” que aconteceu em diversas cidades do país.
Se vocês, como eu, não puderam se juntar aos protestos mas pensam que a manifestação é o único meio de pressão efetivo, preparem-se para o Carnaval 2012.
Gostaria de convidá-los para desfilarem em nossa escola, a “Acadêmicos do Mundo Gira”, que virá com muita animação, repique de tamborins, componentes com a letra do enredo na ponta da língua e, claro, muito samba no pé.
Levantaremos a Sapucaí com o enredo “O que é bom a gente fatura, o que é ruim, esconde-se – do santo do pau oco ao cheirinho de pizza, a história da corrupção no Brasil”.
Atenção: as alas não seguirão uma ordem cronólogica dos escândalos do país. A carnavalesca acomodou personagens e fatos históricos ao seu bel-prazer.
O grande abre-alas da nossa escola será um imenso santo do pau oco – onde praticamente tudo começou.
O carro, articulado, terá o mesmo mecanismo daqueles padres de madeira que encontramos em paradas de ônibus de rodovias brasileiras. Quem conhece, sabe que o “documento” do padre se manifesta sempre que a cordinha na parte de trás da batina é puxada.
No caso do abre-alas – que inovará vindo de costas – duas portas na altura dos pulmões do santo farão as vezes de batina. De tempos em tempos ela se abrirá e revelará o ouro. Para facilitar a visualização do público na arquibancada, em vez de ouro em pó, mostraremos barras de ouro – que além de tudo valem mais do que dinheiro.
A comissão de frente será formada por oito profetas “aleijadinhos” carregando cruzes nas costas. Além de ser fundamental ter um semblante barroco, os bailarinos deverão demonstrar coordenação motora o suficiente para seguir a elaborada coreografia sem bater as cruzes.
Divididos em duas fileiras, enquanto quatro andam, sambam e esbugalham os olhos para a esquerda, os outros vão na direção oposta.
O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira representará Rosane e Fernando Collor. A dupla estará vestida de Barbie e Ken “modelo presidente”.
O segundo carro alegórico será quase surrealista. Apenas um duo careca-bigode, uma homenagem ao finado PC Farias. No chão, a ala dos “Caçadores de Marajás”. Os integrantes – de terno, gravata e gel no cabelo – portarão apenas espingardas e uma faixa presidencial.
Maluf merecerá um carro alegórico exclusivo, que puxará uma ala dedicada a personagens. Um sósia do deputado virá em cima de miniMinhocão no qual os carros estarão presos a um congestionamento.
Logo a seguir vem a ala mista dos personagens folclóricos. Representando Cacciola, integrantes com fantasias de papelão no formato de lambreta e capacetes pretos farão o público lembrar da Formiga Atômica. Outras dezenas de Francenildos portarão peneiras plásticas cata-folha de piscina. Já os Lalaus desfilarão com camisas-de-força e os Dirceus com gazes na cara – simbolizando as inúmeras cirurgias estéticas para mudança de rosto.
Um dos carros alegóricos contará com efeitos especiais: o do cuecão. Na tentativa de reproduzir a ousadia dos deputados, compressores de ar vão garantir uma chuva de dólares na Sapucaí.
Como contraponto, a fantasia dos componentes da ala “Dólar na Cueca” será simples: cueca e meia. As mulheres, de calcinha, encarnarão Roseana Sarney.
A “Acadêmicos do Mundo Gira” também terá um espaço dedicado às crianças.
Relembrando o escândalo dos Anões do Orçamento, uma ala só com anõezinhos (de verdade). Já podemos contar sete só com os do “Circo Pindorama”.
Puxando a ala, mais um casal de mestre-sala e porta-bandeira: ela de Branca de Neve, ele de Dunga evoluindo com muita magia.
Atrás dos anões, a ala dos patronos Rosinha e Garotinho, interpretados por casais com roupas de normalistas e merendeiras. Durante o desfile, eles distribuirão rosquinhas “Mabel” para o público.
Fechando a ala infantil, o maior carro alegórico da escola: um castelo mágico com oito torres, 275 janelas, piscina com cascata, lago artificial e capela. Enfim, uma reles maquete da casa de Edmar Moreira.
O penúltimo carro será uma fornalha. Ao redor dela, diversos pizzaiolos fazendo a dancinha de Ângela Guadagnin. No chão, a ala dos motoboys entregadores de pizza.
O carro que encerra o desfile da escola lembrará Joãosinho Trinta e trará 190 milhões de mendigos com muito samba no pé. Afinal, a festa não tem hora pra acabar.
Já temos quase tudo pronto. Só precisamos de uma letra para o nosso enredo. Alguém se habilita?

2011/09/30

NA FAMA E NA LAMA

Arquivado em: Matutando — trezende @ 09:20

Ontem, duas mulheres-símbolo do Brasil causaram celeuma: Gisele Bünchen e Gretchen – uma desconstruindo a outra.
Enquanto Gisele tirou a roupa para disfarçar seus gastos com o cartão de crédito – e poder torrar à vontade o seu próprio –, Gretchen apareceu vestida como nunca, de boné e aventalzinho, justamente para dar conta de pagar a fatura.
Pois é, minha gente, a Rainha do Bumbum foi dançar o “Conga Conga Conga” em Orlando. Dançar não. Trabalhar mesmo. Gretchen é a mais nova garçonete no “Netto’s Cafe”.
Ela diz ter abandonado seu 100º marido e a carreira artística para sustentar os filhos – são seis no total.
E precisa? Depois de se aventurar por áreas tão distintas do mercado de trabalho ela ainda não conseguiu garantir o pé de meia? Ou tudo não passa de uma jogada de marketing para turbinar um possível retorno? Ambos.
Seu “Freak Le Boom Boom”  a ajudou a vender milhões de discos. Ela também posou nua inúmeras vezes, participou de filmes pornôs outras tantas e até tentou a carreira política candidatando-se à prefeitura da cidade de Itamaracá. Nada parece ter dado certo. Gretchen continua atrás de dinheiro – afinal, são seis boquinhas para dar de comer e mais alguns mililitros de botox e silicone para trocar.
Parêntese: no site da cantora, na seção “Estética e Beleza”, entre anúncios de alongamentos capilares e salões de beleza, aparece o nome do cirurgião responsável pela maçaroca na cara dela: Hebert Gauss. Guardem bem esse nome para nunca passarem perto no caso de algum dia avaliarem a possibilidade de uma correção estética.
Pode ser que a Rainha do Bumbum realmente pense em voltar a cantar “atendendo a pedidos”, mas não é improvável que precise correr atrás do leitinho das crianças.
Da mesma forma que muita gente não distingue celebridade de formador de opinião, é comum confundirem fama com sucesso financeiro. Daí o destaque para a notícia de Gretchen.
Fama e grana não andam juntas. Fama e lama sim. Metade das “celebridades” que dão as caras no “TV Fama” não tem dinheiro para pagar a escova. Agradecer ao tal Chiquitito do Carmo no ar faz parte do jogo de faz-de-conta e ajuda a passar a falsa ideia de que vivem no mundo de “Caras”.
Atores e “personalidades da mídia” que ganham mil reais por mês é a regra. A exceção são os patrimônios da TV – Tarcísio, Glória, Fernanda Montenegro – e protagonistas.
Aqueles, assim como Gretchen, têm de rebolar para não perder a esperança.
Quanto a Gisele e sua “Hope”, essas não têm de ser levadas a sério. Piada sem graça e principalmente inverossímil.
Só acho que Gretchen se daria melhor na terra de Berlusconi.

2011/09/05

BICHO SOLTO

Arquivado em: Matutando — trezende @ 08:29

Existe um tipo de homem que é quase a ararinha-azul: quando já está dado como extinto, eis que aparece um espécime – provavelmente fugido de seu cativeiro. É o homem-moletom.
Toda ocasião é ocasião para entrar no moletom – ou na verdade, de nunca ter saído dele. Festinhas de aniversário em bufê infantil, corredores de supermercado ou num shopping popular sábado à tarde. Lá estão eles. Girando a chave do carro no dedo – e usando a mesma chave para coçar a cabeça –, com a camisa do time pra dentro da calça e com um olhar que varia entre o perdido e o caçador, eles andam displicentemente com um moletom que nunca tem cara de limpo. Cinza, verde escuro, vinho… Difícil dar um palpite sobre a cor original da peça.
Eles costumam calçar tênis. Alguns, os mais ousados, arrastam chinelo mesmo.
Você nunca encontrará um homem-moletom num parque. Para ocasiões mais informais eles preferem bermudão e meia esticada até as canelas.
O homem-moletom geralmente está na meia-idade e é casado, mas há relatos de ocorrência em jovens. Na terceira idade, além da calça e do tênis, passam a desfilar de boina ou boné de aposentado.
O homem-moletom vai além do homem-pochete. É, na verdade, seu precursor. O homem-pochete é arrumadinho – até demais – usa calça jeans ou faz o tipo esportivo e está tranquilo pois sabe que tudo o que precisa está ao alcance das mãos.
O homem-moletom não. Ele sabe, lá no fundo, que está mulambento, mas não liga. Seu nome é conforto. Pode ou não estar de pochete.
O homem-moletom jamais ostenta uma tatuagem. No máximo, um rabo de cavalo. Bigode? Bem provável. Camiseta baby look? Nunca.
Jamais dê conversa, puxe papo ou peça informação a um homem-moletom. Ele pode achar que está agradando. Ligue para a esposa – ou para a carrocinha – para que providenciem seu retorno ao cativeiro imediatamente.

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