O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2012/08/27

O SANTO MAIS OCUPADO DO MUNDO

Arquivado em: Diário de bordo — trezende @ 09:00

Quatro municípios compõem a ilha de São Luís do Maranhão: Paço do Lumiar, Raposa, a capital, São Luís, e São José de Ribamar.
São José de Ribamar é a terceira cidade mais populosa do Estado – perde para São Luís e para Imperatriz – e é o destino de inúmeros devotos do padroeiro do Maranhão que empresta o nome ao município.
Praticamente todos os filhos da terra levam José ou Maria de Ribamar no nome.
A cidade só pensa “naquilo”: no padroeiro. Coitado, esse deve trabalhar muito para dar conta de tanto descaso.
A preparação para o Festejo 2012 – que acontece entre 31 de agosto e 9 de setembro – está a todo vapor. As barraquinhas e as bandeirinhas coloridas já estão instaladas. Nessa época, a cidade chega a receber mais de 300 mil visitantes por dia.
Além da Basílica de São José, há uma réplica da gruta de Lourdes, uma concha acústica em forma de Bíblia aberta usada em eventos como missas campais e uma espécie de presépio a céu aberto, “As 8 Estações de São José”, que mostra a vida do santo nos mesmos moldes da via crúcis de Aleijadinho, em Congonhas (MG).
Mas o que mais chama a atenção na cidade é a estátua gigante do santo, a 4ª maior do país – atrás do Cristo Redentor, do Padre Cícero e de São Francisco de Canindé.
A estátua tem mais de 17 metros de altura e está acompanhada de um Menino Jesus de 12 metros. A obra é do artista goiano Sinval Veloso.
Não muito distante de toda essa agitação religiosa está a cidade de Raposa. Fundada por pescadores cearenses, é supertranquila e oferece paisagens belíssimas.
Num dos passeios, o barco navega por um dos braços de mar e leva os turistas à deserta Praia de Carimã, na Ilha de Curupu. É na ponta de Curupu que está localizada a mansão de outro Ribamar, José Ribamar Ferreira Araújo da Costa Sarney. Sarney, para os chegados.
Em contraste com as belezas naturais – que misturam mar, dunas e igarapés – está a rua principal da cidade, por onde circulam de forma caótica motos, bicicletas, ônibus e pessoas.
No trânsito, um comentário frequente entre os ludovicenses (os nativos de São Luís) quando estão na traseira de um mau motorista é: “Esse deve ser do Piauí. Não sabe se dirige ou se abana”.
Na rua principal de Raposa também estão as lojinhas e as moradias (sobre palafitas) das mulheres que fazem artesanato de renda de bilro.
Portanto, quem for ao Maranhão já sabe: vá pagar os pecados em São José de Ribamar, espreguiçar-se em Raposa, exercitar-se nos Lençóis e até caçar fantasmas em Alcântara. O importante é passar longe de São Luís.

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2012/08/26

CIDADE FANTASMA

Arquivado em: Diário de bordo — trezende @ 09:03

Nas proximidades de São Luís, há duas cidades interessantes e com perfis praticamente opostos que também merecem uma visita: Alcântara e São José de Ribamar.
Na primeira localiza-se o “Centro de Lançamento de Alcântara”, uma base de lançamento de foguetes da Força Aérea Brasileira.
A base é considerada uma das melhores do mundo pela sua localização geográfica – apenas dois graus da linha do Equador.
O local é objeto de desejo até da Nasa porque, entre outras vantagens, a velocidade de rotação da Terra naquele ponto faz com que o consumo de combustível no lançamento seja menor em comparação a outras bases.
Os guias turísticos fazem questão de frisar que não é possível avistar nem tampouco aproximar-se da base porque “apontam até fuzil”.
Pode-se, no máximo, visitar a “Casa de Cultura Aeroespacial”, que fica numa pracinha em frente à Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.
Há dois caminhos para Alcântara. Um por terra – em que a viagem dura entre 8 e 9 horas –, e o mais comum, por barco, com saídas pela manhã do terminal hidroviário próximo ao centro histórico de São Luís.
Tanto a ida quanto a volta dependem das condições da maré. Como o Estado está a poucos graus da linha do Equador, a maré chega a variar sete, oito metros, entre o período de cheia e o de seca. É um fenômeno impressionante.
Há dois horários: às 7h e às 8h40. Perdeu, dançou.
São apenas 22 km, mas o percurso dura uma hora e meia. Enquanto o barco desliza a 10km/h os turistas paulistanos exercitam a meditação zen-budista e a paciência.
Na chegada ao píer de Alcântara, são os pássaros guarás quem dão as boas-vindas. Lindos, vermelhíssimos e com as pontas das asas pretas. Com sorte, é possível avistar um golfinho e um peixe curiosíssimo, com quatro olhos. Dois ficam acima e dois abaixo da linha da água, o que permite a ele a visão aérea e aquática simultânea para escapar de predadores. Eles são conhecidos pelo povo de lá como “tralhotos”.
Além da base espacial, Alcântara tem um sítio arqueológico e histórico valioso, mas absolutamente abandonado.
Ainda que cinematográfica, a sensação é que Alcântara é uma cidade fantasma. Tem-se a impressão de que o lugar foi vítima de um terremoto ou da erupção de um vulcão.
Não há uma alma viva pelas ruas. É preciso esticar o pescoço para dentro das janelas das casas para encontrar os moradores – geralmente deitados em redes, assistindo TV ou dormindo (em plena segunda-feira solar).
As poucas casas que parecem produzir algo na cidade são as das costureiras e as das doceiras, que vendem o “doce de espécie”. O doce lembra um bombocado e é feito com uma massa bem fina e coco.
A igreja matriz de São Matias – localizada na imensa praça Gomes de Castro – é apenas uma ruína. O guia informa que a fachada foi o que sobrou de um raio que caiu sobre a igreja em 1901.
Alcântara deve ter sido um lugar lindo no passado. Bucólico, cheio de casarões de endinheirados franceses e portugueses, ladeiras, temperatura e paisagem agradáveis. É para se lamentar tanto descaso.

Amanhã, no último capítulo, São José de Ribamar

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2012/08/25

PREGUICINHA

Arquivado em: Diário de bordo — trezende @ 09:44

Barreirinhas é uma espécie de remédio dois em um. É o lugar perfeito para descansar as vistas das mazelas de São Luís e encher as retinas novamente com as belezas naturais da região dos Lençóis Maranhenses.
Tão brejeiro quanto o nome da cidade é o lugar, localizado a quatro horas da capital. A estrada, bem conservada, é praticamente uma reta só, mas pontuada por lombadas. Talvez o nome do município tenha vindo daí: das inúmeras “barreirinhas” do caminho.
Nada que atrapalhe o sono.
Barreirinhas é uma cidade pobrezinha que (ainda) não explora os turistas.
É em torno do rio Preguiças que tudo acontece. É dele que a população tira seu sustento – seja através da pesca, dos empregos oferecidos por dois resorts às margens do rio ou dos passeios que exploram as belezas de seu curso e de suas margens.
O percurso que leva aos povoados de Mandacaru (onde está o Farol Preguiças, numa área da Marinha do Brasil), Caburé e Atins é uma maravilha. De vez em quando, entre os igarapés, surgem imensas dunas e pequenos povoados.
Só o passeio pelo rio Preguiças já vale a visita.
A entrada para o Parque Nacional dos Lençóis fica a cerca de 2 km de Barreirinhas, do outro lado do rio Preguiças. Portanto, é preciso atravessá-lo de balsa.
A maior aventura não é alcançar a cidade ou subir e descer as imensas dunas de areia. É chegar às dunas em jipões 4×4 cujas carrocerias recebem bancos e se transformam numa espécie de pau-de-arara turístico.
No trajeto, que deve durar cerca de uma hora, os veículos sacolejam por uma longa extensão dentro das trilhas de areia do Parque Nacional dos Lençóis. É preciso agarrar-se com força às barras na frente dos assentos sob o risco de ser jogado para fora do carro.
Como os veículos são proibidos de circularem pelas dunas, eles descarregam os turistas no pé de uma delas e o que prometia ser um passeio contemplativo revela-se um bom teste físico.
São necessárias panturilhas fortes e olhos bem abertos para admirar a beleza das dunas e das lagoas que se formam entre elas – neste ano, apenas duas por causa do baixo índice de chuvas.
Ao fim da caminhada, o brinde é assistir ao por do sol do alto de uma das dunas.
Só depois da experiência do dia passamos a entender o motivo de o rio ter recebido o nome de Preguiças.

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2012/08/24

SÓ JESUS SALVA

Arquivado em: Diário de bordo — trezende @ 08:32

Uns dizem que o centro histórico de São Luís é tombado pelo Patrimônio Histórico Estadual. Outros, pelo Federal. Na dúvida sobre quem seria o responsável pela conservação dos imóveis, parece que Estado e governo chegaram a um acordo de cavalheiros: o do deixa-que-eu-deixo.
O centro histórico está completamente abandonado. Não estamos falando do patrimônio de Itabiboca do Sul ou Cocalzinho do Norte, mas do da capital do Maranhão, terra de “senhozinho” e de sua família Roseana, Zequinha e tantos outros.
Casas em ruínas, matagal crescendo pela fachada das casas e sobrados, aroma de urina e fezes tomando conta de tudo, ruas desertas e povoadas por mendigos, “elementos” suspeitos e ratazanas atravessando o caminho dos turistas. Dos azulejos originais portugueses – considerados o símbolo da cidade – só sobraram meia dúzia para contar história.
Além do péssimo estado de conservação, do topo da igreja matriz de Nossa Senhora da Vitória sobe até mato.
O único prédio aparentemente bem cuidado é o Palácio dos Leões, a sede do governo. O restante está mais para Casa das Tulhas, uma espécie de mercado central com produtos típicos que lembra – no caos e no aspecto sombrio decorrente das lonas que cobrem os becos – o pavilhão de São Cristóvão, no Rio.
Na rua Portugal, a principal rua de comércio do século 19, está localizado um dos escritórios de informação turística. Num domingo, a agente que estava no local recomendava aos visitantes não permanecerem no centro sozinhos após a uma da tarde.
A rua do Giz está só o pó.
Alguns guias e mapas mantêm uma informação que pode ter sido verdadeira algum dia: a de que São Luís tem os títulos de “Atenas Brasileira”, “Cidade dos Azulejos” e “Capital Brasileira do Reggae”.
Se está longe de ser uma Atenas ou de ter azulejos suficientes para ser chamada de vila, o reggae definitivamente não é um ritmo ouvido por lá. O povo só quer saber de “eu quero tchu, eu quero tchá, eu quero tchu tchá, tchu, tchá…”.
Em lugares mais afastados do centro a situação não é muito diferente. Na avenida Litorânea – motivo de orgulho para os habitantes porque conta com uma orla com quiosques e restaurantes “de luxo” – o lixo e o cheiro do esgoto a céu aberto chamam a atenção.
Enquanto isso, “senhozinho” descansa em sua mansão na Ilha de Curupu.
Será que a Água Sanitária Jesus (R$ 1,18) dá jeito?
Quem tiver curiosidade de conhecer São Luís, vá logo. Antes que acabe.

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Leiam uma matéria sobre a tristeza AQUI

2012/02/26

O MAR MORTO COLOMBIANO

Arquivado em: Diário de bordo — trezende @ 11:00

Um passeio pouco divulgado – e inesperado – é o vulcão “El Totumo”.
Localizado a cerca de uma hora de Cartagena, na estrada que leva a Barranquilla – terra de Shakira –, o “El Totumo” é um vulcão bem diferente dos padrões. Ele não expele lavas, não está na ativa, não fecha o espaço aéreo como seu vizinho chileno e tampouco é preciso escalá-lo. O “El Totumo” é recheado de lama.
Ele tem entre 15 e 20 metros de altura e lama acinzentada até à tampa. São 2.300 metros de profundidade, mas mesmo que se queira afundar, a densidade não permite. É o Mar Morto dos vulcões.
O “El Totumo” é quase um spa natural (e bota natural nisso). Acredita-se que sua lama tenha poderes terapêuticos.
O topo é alcançado através de uma escada improvisada com corrimão de tronco de árvore.
A chegada lá em cima é um choque. Da parte de baixo não é possível ter noção do que se passa na boca, portanto, deparar-se com cerca de 20 pessoas mergulhadas na lama é surpreendente. Uma experiência para ser vivida em grupo.
Há “atendentes” em todas as etapas da visita. Assim que os turistas entram na lama surgem colombianos para lhe fazerem massagens. Enlameados e sem condições para fotografarem o “mergulho”, outro “atendente” fica com todas as máquinas fotográficas de quem está no banho e registra tudo.
Depois que saem da lama os turistas são encaminhados a um lago que fica a poucos metros do vulcão. Lá algumas “atendentes” tiram a sujeira do corpo dos turistas. Algumas tiram, inclusive, as roupas deles.
O “day spa” sai por cerca de 5 mil pesos (R$ 5).
Quem quiser prolongar os efeitos mágicos dos minerais do “El Totumo” pode comprar garrafas pet com alguns litros da lama. Elas custam mil pesos (R$ 1) e são vendidas no pé do vulcão.
O nome “totumo” é por causa de um fruto homônimo não-comestível bastante comum na região. Reza a lenda que o vulcão costumava expelir fogo, lavas e cinzas. Ele só se transformou num reservatório de lama graças a um padre, que acreditava que o comportamento do “El Totumo” era obra do diabo. Para expulsá-lo dali, o padre jogou água benta e o que era fogo virou lama.
Lenda ou maldição, vale a visita.

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A expedição cartagenera se encerra por aqui. Amanhã voltaremos com a nossa programação normal.

2012/02/25

E A NOITE CAI

Arquivado em: Diário de bordo — trezende @ 10:49

Em Cartagena, cada passo é um flash. Além de fotogênica, é cinematográfica. A cidade já serviu de cenário para filmes como “Queimada”, com Marlon Brando, e “O Amor nos Tempos do Cólera”, e há mais de 50 anos tornou-se sede do mais antigo festival latinoamericano de cinema: o “Festival Internacional de Cinema de Cartagena”.
Nem precisaria tanto. Turista que é turista tira foto até do chão se encontrar um paralelepípedo diferente. Aliás, na cidade histórica não há nenhum problema em clicar o piso se for o caso – limpíssimo – mas na parte moderna não é uma boa ideia. O lixo se acumula pelas esquinas e as calçadas malfeitas completam a armadilha para os turistas.
Mais fácil andar na rua e ouvir as buzinas dos táxis e dos miniônibus – que chegam a parar para entrarmos.
Mesmo com tanto assédio e insistência, os colombianos são simpáticos e educados no trato pessoal. Cumprem horários, não tentam levar vantagem sobre os preços e (parecem) amar o Brasil.
Apenas uma colombiana não tem cara de bons agouros: a Maria Mulata, um pássaro preto como um corvo que veio nos navios espanhóis e aclimatou-se muito bem em Cartagena.
Não há outro pássaro na cidade. Dizem que é uma praga: come os filhotes dos outros pássaros e rouba até comida. O pássaro é tão famoso que ganhou um monumento numa das praças.
Se Cartagena é boa durante o dia, imaginem à noite.
Dois dos programas imperdíveis na cidade são realizados à noite. Eles soam bobos e infantis, mas são os melhores: o passeio de carruagem pela cidade “amuralhada” e o tour chamado de “Rumba en Chiva”.
O da carruagem dura cerca de 40 minutos e percorre as “calles” com os pontos turísticos mais procurados, como o Palácio da Inquisição, a Torre do Relógio, os hotéis cinco estrelas, as igrejas, algumas praças e baluartes, a primeira casa de Simon Bolívar, a de Gabriel García Marquez e as “La Bóvedas”. Vale muito a pena.
Já o “Rumba en Chiva” é divertidíssimo. Quem for a Cartagena não pode deixar de fazê-lo.
Trata-se de uma espécie de city tour noturno pela cidade moderna feito num ônibus-jardineira aberto com nomes curiosos como “La Consentida”, “La Siempre Fiel” ou “La Cariñosa”.
Há vários bancos – que vão enchendo conforme a “chiva” para nos hotéis para recolher passageiros. A bordo, além dos turistas, um trio que toca rumba ao vivo.
A animação é garantida porque a bebida é liberada na “chiva” durante todo o trajeto. Cuba libre para todos os companheiros.
Além da rumba e da “cachaça”, a alegria fica mais turbinada com as maracas vendidas pelos ambulantes quando a “chiva” para nos hotéis.
Há um pit stop nas “Las Bóvedas” – para um lanchinho com direito a arepas recheadas. O ponto final não poderia ser outro: na boate.

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Amanhã o último capítulo

2012/02/24

SANGUE NOS OLHOS

Arquivado em: Diário de bordo — trezende @ 10:17

Fundada pelo espanhol Pedro de Heredia em 1533, durante os séculos 16 e 17 Cartagena tornou-se alvo de constantes ataques de piratas ingleses e franceses que iam em busca principalmente das pedras preciosas dos cartageneros. Por esse motivo os espanhóis financiaram a construção dos muros e dos fortes que hoje são a principal atração turística de Cartagena.
Quando as obras ficaram prontas, a cidade foi considerada “impenetrável” – o que não a impediu de ser atacada diversas vezes.
O forte mais famoso é chamado de “Castillo San Felipe de Barajas”, que começou a ser construído no século 16 e até hoje continua bem preservado.
A localização é privilegiada: bem no alto da colina de San Lázaro. Dentro, um complexo de túneis, labirintos, galerias subterrâneas e depósitos de pólvora. Dá até para brincar de esconde-esconde.
Para andar nos túneis é mais fácil fazê-lo à la Corcunda de Notre Dame – os espanhóis eram pequenos e construíram as passagens bem baixas para atrapalhar os ingleses.
Nas galerias, há os chamados “nichos de morte”, locais onde os espanhóis se escondiam com suas baionetas. Quando um inglês passava, bang.
Na parte externa, há rampas, guaritas e canhões com rodinhas. Os canhões eram deslocados sempre que era necessário confundir o inimigo. Como os espanhóis que vigiavam o forte eram em pouco número, mudar a artilharia de lugar era uma estratégia para se fingirem de muitos e intimidarem os piratas.
Lá do alto vemos também a estátua em homenagem a Blas de Lezo, personagem que tem uma história interessante e pouco conhecida.
O marinheiro espanhol participou de diversas batalhas durante o século 18: perdeu a perna esquerda numa guerra contra os franceses; o olho esquerdo durante a batalha de Toulon; e depois o antebraço direito em outra batalha, perto da costa de Barcelona.
Apesar de seus inúmeros atos heróicos, entre os cartageneros Don Blas é tratado menos como herói e mais como piada. Chamam-no de “Meio-Homem”.
Mais afastado do “Castillo San Felipe de Barajas” e da cidade “amuralhada”, outro ponto turístico merece uma visita: o convento de “La Popa”.
Construído a 156 metros acima do nível do mar, o convento é o ponto mais alto da cidade. Além da vista panorâmica, o mais bonito de “La Popa” é o jardim interno, todo florido.

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Amanhã o quarto capítulo

2012/02/23

TRÁS-OS-MUROS

Arquivado em: Diário de bordo — trezende @ 09:13

Seria um clichezão definir Cartagena como “múltipla”.
Na verdade, ela é apenas tripla: a histórica (“amuralhada”), a moderna (bairro de Bocagrande) e a popular.
As três partes são absolutamente diferentes e, por conta disso, o turista pode retornar de uma viagem a Cartagena com uma visão distorcida ou incompleta. Um retrato fiel depende tanto da área em que se hospeda quanto do roteiro programado.
Em primeiro lugar, se o objetivo for praia e mar azul-turquesa, o melhor é esquecer Cartagena. Ainda que a água seja límpida, as praias urbanas que margeiam grande parte de Bocagrande não são bonitas para os nossos padrões – muito menos para os padrões caribenhos. A areia acinzentada e batida é pouco convidativa a um mergulho.
Os cartageneros, no entanto, não se afetam e armam suas barraquinhas de lona à beira-mar. Enquanto tomam uma “Club Colombia” ou uma “Águila” – as duas cervejas mais comuns por lá – ouvem ritmos locais num volume bem alto, enterram-se na areia e recebem massagens em tendas espalhadas pela praia. Enfim, farofa-fá-fá.
A melhor opção para não frustar quem não dispensa uma tostada na areia é uma viagem até uma das 27 ilhas do Rosário ou Baru.
Os barcos que levam às ilhas gastam cerca de uma hora e meia para alcançar o legítimo mar caribenho. O retorno, à tarde, é cheio de fortes emoções com o mar mais agitado. É nessa hora que as capas de chuva que repousavam na ida começam a fazer sentido.
Cartagena é mais indicada para quem gosta de voltar no tempo e viajar na História.
A entrada principal da cidade histórica é pela Torre do Relógio – linda ao anoitecer.
Cercada por 11 quilômetros de muralhas – agradavelmente percorridas entre muitas paradas nas “calles” para registros fotográficos – a cidade de dentro dos muros é aconchegante, misteriosa e fotogênica.
O colorido é garantido pelo tom vibrante usado nas portas e balcões das casas e pelas flores coloridíssimas que enfeitam paredes e sacadas.
Não por acaso em 1984 a cidade colonial foi declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco.
A tranquilidade das “calles” ladeadas por simpáticos restaurantes contrasta com a agitação da Praça Santo Domingo, que além de bares e restaurantes hospeda a “Figura Reclinada 92”, escultura que representa uma gordinha nua deitada. A peça foi doada pelo próprio autor, o pintor colombiano Fernando Botero.
Outro famoso citado por ali é o também colombiano Gabriel García Marquez. Mesmo sem morar em Cartagena há muitos anos, Gabo ainda mantém uma casa na cidade. O imóvel localiza-se bem de frente para a muralha, na esquina da Calle del Curato.
Na hora da pausa para o descanso, a dica é a limonada de coco no bar e restaurante ao ar livre do deslumbrante Hotel Charleston Santa Teresa. Mas se o dinheiro andar curto, a saída é tomar um “helado” por apenas mil pesos (R$ 1).
No quesito compras, dois extremos: as esmeraldas que lotam as vitrines das joalherias ou as quinquilharias nas “Las Bóvedas”.
Localizada ao lado do forte de Santa Catalina, trata-se de um conjunto de 23 arcos que servem como lojas de artesanato. Durante a era colonial, as “La Bóvedas” abrigavam a munição utilizada contra os invasores e no período das guerras civis do século 19 serviram como prisão.

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Amanhã mais um capítulo cartagenero

2012/02/22

A CONTA CHEGOU

Arquivado em: Diário de bordo — trezende @ 10:08

Táxis sem taxímetro, ônibus velhos que param em qualquer lugar, motoristas que adoram uma buzina, calor de derreter a moleira e ambulantes insistentes. Poderia ser um caos. Mas não é.
No meio da aparente babel, Cartagena ainda é um lugar calmo para seus mais de 1 milhão de habitantes.
E longe. Depois de seis horas de voo São Paulo-Bogotá, o turista encara outro trecho aéreo de uma hora e meia até Cartagena, a quinta maior cidade da Colômbia.
Neste primeiro post, o assunto é o que resultou em dois quilos extras na balança: os comes e bebes. Haja esteira para começar o ano.
Cartagena é banhada pelo mar do Caribe, portanto, a base da alimentação são os peixes. Mas tal nossas ruas de comércio popular, em cada esquina encontramos ambulantes vendendo comida. Em vez do nosso abacaxi no gelo ou das linguiças aceboladas na chapa – que causam em nós o mesmo efeito-feitiço dos desenhos do Pica-Pau –, em Cartagena a comida de rua compõe-se de dois ingredientes opostos: frutas e frituras.
Cartagena pode ser considerada a Meca das frutas, vendidas pelas Carmen Miranda de lá, as “palenqueras”.
Geralmente de ascendência africana e idosas, elas circulam pela cidade velha com roupas semelhantes às das nossas baianas – porém coloridíssimas – e equilibram uma bacia de frutas na cabeça.
O nome “palenquera” é porque elas vêm de uma região próxima a Cartagena chamada San Basilio de Palenque.
Como qualquer outra personagem de cidade turística, as “palenqueras” cobram alguns pesos em troca de uma fotografia. Se perceberem um turista esperto tentando clicá-las sem prévio acerto de contas, elas escondem o rosto em represália.
Além das “palenqueras”, há diversos carrinhos de ambulantes com uma boa oferta de frutas picadinhas (como manga verde e melancia) servidas no copinho. Eles também vendem frutas inteiras, como “uchuva” (physalis), abacate, tamarindo, papaia, “guanabaña” (graviola), limão e banana.
Apesar de não ser tão facilmente encontrada na rua, a banana é utilizada no preparo da guloseima-símbolo da cozinha cartagenera: o “patacón”, que nada mais é do que banana verde amassada e frita e que pode ser recheado ou não. A propaganda do “patacón” é fabulosa, mas o sabor decepciona.
Delicioso mesmo é outro acompanhamento da maioria dos pratos: o arroz de coco. Meio adocicado, ele sozinho já é uma refeição.
Os cartageneros também adoram suco de frutas. Para nós, o mais exótico é o suco de lulo, cuja fruta tem aparência de tomate e o gosto lembra o de um kiwi mais azedinho.
Enquanto o mate gelado das praias cariocas sai dos tambores metálicos, em Cartagena os sucos são vendidos num carrinho de mão equipado com um reservatório que parece um aquário. O suco – de laranja, tamarindo e limão – mistura-se ao gelo enquanto o ambulante pilota o carrinho. O difícil é descobrir se é suco com gelo ou gelo com suco.
Entre as frituras, destacam-se as arepas (à base de farinha de milho e que podem ser com ou sem recheio), as empanadas e os “deditos” (espécie de canudo sabor queijo).
Falando assim parece até que não é possível comer normalmente num restaurante. Pero los hay. Os mais conhecidos são o “La Vitrola”, o “Café del Mar”, o “La Casa de Socorro” e o “1621” (dentro do Hotel Santa Clara).
Para coroar tudo isso, os doces, que são vendidos numa área chamada “Portal dos Doces”.
O portal das delícias – que está de frente para a entrada principal da “cidade amuralhada” ou “cidade velha” – abriga diversas ambulantes que vendem doces com nomes bem sugestivos, como “Alegria” e “Diabolin”.
Depois de tanta comilança, a conta chegou. O jeito é dar uma de “palenquera”. Mas em cima da esteira.

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Amanhã mais um capítulo da saga por Cartagena

2012/02/07

O AMOR É AZULZIM

Arquivado em: Diário de bordo — trezende @ 11:08

Ele já ficou famoso internacionalmente, mas como nossos melhores artistas, foi preciso primeiramente fazer sucesso lá fora para ser reconhecido por aqui. E olha que tem muita gente que nunca ouviu falar do Instituto de Arte Contemporânea Inhotim, em Brumadinho.
Alcançar Inhotim é quase uma expedição. Localizado a 60 quilômetros de Belo Horizonte, o acesso se dá a partir de uma estradinha que tem de ser compartilhada com inúmeros caminhões de minério. Mas o sacrifício compensa.
Inhotim vale pelo conjunto da obra e não pode ser reduzido apenas a uma galeria de arte ao ar livre com trabalhos de artistas plásticos de diversas partes do mundo. É também um parque e um jardim botânico maravilhosos. Um complexo de lagos azuis e um centro gastronômico com um restaurante delicioso (o Tamboril). Uma tranquilidade estudada nos mínimos detalhes. Um oásis no meio do nada. Lindo, bem cuidado, organizado e atencioso.
Cerca de 800 funcionários cuidam para que nada saia do script.
O Inhotim é ideia do empresário Bernardo Paz, que a partir dos anos 80 começou a reunir obras de arte contemporânea em sua propriedade particular. Foi só em 2006 que o instituto abriu as portas ao público.
Bernardo ainda é um dos maiores financiadores, mas o Inhotim conta com a ajuda de inúmeros patrocinadores e em 2008 foi reconhecido pelo governo mineiro como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP).
O nome Inhotim não foi dado por causa de nenhuma origem indígena. Reza a lenda que naquela região residia um inglês chamado Timothy, mais conhecido como “Tim”. Para facilitar, os moradores se encarregaram de traduzir para o mineirês e ele virou simplesmente o “Nhô Tim”.
A casa habitada por Nhô Tim e por outros mineiros sobrevive até hoje. Reformada, atualmente é uma obra da artista Rivane Neuenschwander.
Cada galeria é dedicada a um artista. Algumas são impressionantes, como a do fotógrafo Miguel Rio Branco – que mais parece um navio gigantesco atracado no meio da mata – e a de Adriana Varejão, com três andares e um belíssimo espelho d’água na entrada.
Fora toda a magnitude das galerias, há várias obras espalhadas pelos jardins, como a de Paul McCarthy (isso mesmo, um genérico do ex-Beatle) e homens-elástico de Edgard de Souza.
Até o que parecem ser inocentes bancos de madeira são trabalho do designer Hugo França.
Uma das “obras de jardim” mais interessantes é a do inglês Simon Starling, que virou um veleiro de ponta-cabeça. A embarcação fica lá em cima, sustentada pelo mastro preso ao chão.
A obra seria apenas um barco de ponta-cabeça não fosse o excelente trabalho dos guias do Inhotim, que nos explicam que “The Mahogany Pavillion” é uma espécie de protesto do artista. Ele usa um veleiro que é produzido na Escócia, mas com o mogno da América do Sul. Traz o veleiro de volta ao seu lugar de origem e o expõe invertido, transformando-o numa estrutura arquitetônica cuja forma faz referência a uma árvore, estágio anterior da madeira.
De forma muito interessante, ele faz o repatriamento da madeira que nos foi “roubada” e ainda a transforma em obra de arte.
Graças a Inhotim cheguei à conclusão de que qualquer um de nós pode ser um artista contemporâneo. Não é preciso ter nascido necessariamente com um dom. Basta criar algo absurdo e sem sentido – na visão dos outros, claro. O segredo está em encontrar uma explicação convincente e inteligente para o que inventamos. Definitivamente trata-se da arte de conceituar.
O passeio entre jardins e galerias é agradabilíssimo. Quem se cansa com facilidade conta com uma ótima opção: carrinhos de golfe realizam o transporte até as galerias mais afastadas (cerca de 1 km de distância da recepção). O serviço custa R$ 10.
A caminhada é o momento ideal para conhecer plantas com denominações como “coração apertado”, cuja folha tem quase o formato de um coração, mas com uma parte rasgada – “como o peito dos apaixonados”, explica a guia.
A surpresa é que o projeto paisagístico não é de Burle Marx. A marca do famoso paisagista está presente nos jardins através de sua influência como amigo pessoal de Bernardo Paz. Ainda que o projeto não seja dele, algumas características “marxianas” podem ser observadas, como a preferência pelo uso de “maciços” (plantas de várias espécies reunidas).
Inhotim é um lugar mágico. A água dos lagos – habitada por peixes gigantescos, gansos e outras aves – é de um azul magnífico. A questão é que ela é tão natural quanto nota de três reais. Como a região é cercada por montanhas ricas em minério – devidamente exploradas –, as águas são alaranjadas de tão barrentas.
Para transformar o laranja em azul, o Inhotim tem à disposição uma equipe à la David Copperfield que opera a mágica do corante Lagoa Azul. Sério.
Biodegradável, o corante é jogado nas águas dos lagos cerca de uma vez por semana. O resultado é o lago “azulzim”.
Gal Costa tinha razão: o amor é “azulzim”.

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2012/01/26

DIA DE PRINCESA

Arquivado em: Diário de bordo — trezende @ 10:02

Mesmo que tentemos fugir da maldição de termos surgido como nação por meios tortos, a História está aí para nos lembrar dos detalhes.
A Ilha Fiscal, famosa por ter sediado o último baile do Império, inicialmente tinha outro nome: Ilha dos Ratos. Muito mais apropriado à nossa sina com as ratazanas.
A festa, realizada em homenagem aos oficiais do navio chileno Almirante Cochrane, aconteceu apenas seis dias antes de a República virar realidade.
Há controvérsias quanto ao número de convidados. A guia local fala em 2 mil, mas o site da “Riotur”, em mais do que o dobro disso: 5 mil.
Um quadro que retrata a esbórnia e as “nuvens negras” da República se aproximando está exposto na sala de estar do castelo. A pintura original, de Francisco Figueiredo, está no Museu Histórico Nacional.
Todos os móveis e objetos que repousam no térreo do “Castelinho” – como o lugar informalmente é chamado – são réplicas dos originais. Assim como no dia do baile, os móveis ficaram escondidos no porão.
A sala principal e a sala de jantar anexa impressionam pela pompa: muito cristal, muita madeira, muito brilho, muito ouro. Are baba. O baile deve ter sido realmente de arromba. Tudo devidamente importado.
Em outras duas salas há uma pequena exposição sobre o vestuário e alguns objetos pessoais dos convidados. O convite original do baile também está numa das vitrines.
Os outros espaços do castelo – com goteiras e infiltrações – resumem-se em promover as ações da Marinha em território nacional e na Antártica.
Hoje o acesso à ilha pode ser feito de escuna ou de micro-ônibus – ambos a partir do Complexo Cultural da Marinha. Mas durante 41 anos o trânsito entre o continente e a ilha era realizado apenas pela baía de Guanabara. A ponte é uma construção de 1930.
Os mais afortunados podem brincar de Monarquia, Império ou República no local, já que a ilha é alugada até para festa de debutantes. Pagou, levou.

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2012/01/25

BATALHA NAVAL

Arquivado em: Diário de bordo — trezende @ 10:08

O Espaço Cultural da Marinha localiza-se na região central do Rio, próximo à igreja da Candelária, ao Centro Cultural Banco do Brasil e ao lado de um lugar horroroso: sujo, cheio de mendigos e pombas e com forte cheiro de urina. A sensação é mais ou menos como perambular pela área do Minhocão, em São Paulo.
Mas vale a pena atravessar o mini-inferno para conhecer as nossas origens “inzoneiras” – dessa área militar partem os passeios de escuna à Ilha Fiscal e à baía de Guanabara.
É necessário chegar cedo, porque apesar de os ingressos serem pagos, a procura é muito grande.
Quem não quiser desembolsar nada, pode circular livremente pelo complexo e estrear novas experiências. Como entrar num submarino, por exemplo.
Atracado ao cais do Espaço Cultural está o S22 Riachuelo, aberto à visitação.
O S22 nunca participou de guerras importantes. Talvez seu maior serviço à nação esteja sendo cumprido de 15 anos para cá, após a aposentadoria, já que empresta suas dependências aos turistas e à curiosidade infantil.
Vencido o desafio inicial – descer a estreita escadinha que leva ao interior da embarcação –, passamos a imaginar o desespero dos tripulantes do Kursk que acabaram morrendo sufocados e também a valorizar o trabalho do marinheiro, função que deveria ser muito bem remunerada só pelo risco a que estão expostos.
O S22 tem cerca de 90 metros de extensão e capacidade para 74 homens. Se vazio já é claustrofóbico e quente, com 74 passageiros é missão para camicazes.
Melhor se distrair com o dia-a-dia desses heróis conhecendo a minicozinha – com direito a Ricardão preparando feijoada –, os minibanheiros, a minissala de comando e os “minidormitórios”. As camas, instaladas nas laterais da embarcação, são tão apertadas que os tripulantes deveriam ter de aprender certas técnicas com as chinesinhas elásticas do Circo Imperial da China só para se deitarem.
De volta à superfície e ao impiedoso sol carioca, uma circulada ao redor da “Galeota Imperial”.
Além de servir para os deslocamentos da nossa família real e de inúmeras personalidades históricas, foi a bordo dela que D. João VI saiu do Brasil pela última vez rumo a Portugal.
A viagem derradeira da galeota aconteceu em 1920, quando transportou a família real belga.
Enquanto os figurões iam confortavelmente instalados num camarote de veludo, milhares de serviçais suavam para manipular 30 longos remos.
É… talvez trabalhar no S22 não fosse tão ruim assim.

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2012/01/24

BABEL OU BABILÔNIA?

Arquivado em: Diário de bordo — trezende @ 10:04

Ele já foi palco para carnavais do passado, já recebeu grandes nomes da música internacional e por muito pouco não virou um favelão antes de completar 100 anos.
Graças a uma reforma que durou quase três anos, pode servir de abrigo para Barack Obama sem nenhum constrangimento.
Sim, o Teatro Municipal do Rio está um brinco e merece uma visita.
O projeto arquitetônico foi inspirado no da Ópera de Paris e todo o material usado na construção foi importado da Europa: mármores, ônix, bronze, cristais, espelhos, mosaicos, vitrais… Enfim, parece que Eliseu Visconti – o principal decorador do teatro – foi a uma Leroy Merlin do início do século 20 e comprou um pouquinho de cada item que estava na liquidação. Até uma águia ele botou no carrinho. Enquanto a mulher reclamava que nada combinava com nada, Visconti dizia: “Chegando em casa a gente vê o que faz com isso”.
“O estilo é eclético”, justificam os guias.
Ficou bonito mas, sem bairrismos, a sala de espetáculos do Teatro Municipal de São Paulo é mais incrementada – e ela também acaba de ser reformada.
Se a sala principal não chega a tirar o fôlego, as balaustradas dos pavimentos superiores e os vitrais são impressionantes, belos e imponentes.
Mas é na bat-caverna que repousa o maior tesouro do Municipal. A surpresa-mor é o Salão Assyrio, cuja decoração destoa completamente dos outros espaços da casa. Ele é todo revestido de cerâmica esmaltada inspirada na antiga Babilônia. O teto, baixo, é sustentado por cabeças de touro em estilo persa que fazem as vezes de coluna.
O Assyrio já funcionou como restaurante, mas hoje serve café. O lugar também é uma espécie de sala de espera forçada para os atrasadinhos, que podem assistir ao primeiro ato do espetáculo em televisores instalados no local até o momento de serem liberados para entrarem.
É um lugar meio sombrio, mas lindíssimo. Funciona como máquina do tempo: saímos de lá querendo dar um passeio pelos jardins suspensos da Babilônia, mas o que encontramos é a Cinelândia. Nua e crua.

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2012/01/23

SE JESUS CHAMOU, EU NÃO OUVI

Arquivado em: Diário de bordo — trezende @ 09:01

Como em toda cidade turística, há o Rio de Janeiro do cartão-postal e a versão realidade, aquela em que os bueiros explodem e os meninos de rua confiscam até o refrigerante de um turista distraído.
Esse Rio de Janeiro inédito para uma boa porção de visitantes é o nosso tema de hoje.
Inédito porque raros são os dispostos a deixar de lado a praia, a magnífica paisagem da Lagoa ou a badalação noturna do Leblon para conhecer um lugar quente, abafado, com música alta e comida para cabra macho. Assim é o Centro Municipal Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas ou Feira de São Cristovão, para os íntimos.
Um destino pouco aconchegante e bonito, mas indispensável para quem quer conhecer a autêntica cultura popular nordestina em pleno sudeste ou saborear o lendário Guaraná Jesus sem precisar ir ao Maranhão.
A feira é frequentada basicamente pelo povo da terrinha e é uma mistura de praça de alimentação a céu semiaberto, mercado e centro cultural localizado no longínquo bairro de São Cristóvão. Turistas mesmo, poucos. Cearenses, cariocas, maranhenses, paulistanos, curitibanos ou gringos, todos pagam R$ 3 para adentrar essa Disneylândia nordestina.
Lá vê-se e vende-se de tudo: CDs, roupas, cortes de carne, guloseimas e objetos comestíveis não-identificados, entre eles, peixes secos e salgados arrumados no arame ou peixes que boiam em conservas para lá de suspeitas em latas abertas.
É também o cenário perfeito para dar gafes ao mirar um bolo alto (e aparentemente pouco macio): “Não é bolo, é pão de Recife”, diz a vendedora.
Mas nem tudo na feira é “Jesus me chama”. Há tentações como o bolo de rolo, castanhas dos tipos mais variados, rapaduras, uma ou outra tapioca, queijo coalho, manteiga de garrafa e imensos queijos furadinhos. Nem a informação dos especialistas de que queijo furadinho é indício de contaminação por bactérias é capaz de impedir a água de brotar da nossa boca.
Tão ou mais difícil do que descobrir o que são certas guloseimas e ingredientes é entender por que lá todos gostam de música alta. Muito alta. Ensurdecedora.
Cada barraca funciona como um mundo à parte e tem seu próprio sistema de som. Ganha quem colocar o som mais alto e atrair mais dançarinos.
A sensação de passear entre as vielas de barracas é a mesma de mudar o dial de uma rádio FM popular.
Há pouquíssimo artesanato, mas a música tem espaço garantido. Além de um grande palco para shows de cantores e bandas de forró, existem pequenos núcleos para apresentações de repentistas e bandas menores.
A literatura de cordel – uma das características mais marcantes da tradição cultural nordestina – só não passa batida graças à presença de Mestre Azulão.
Aos 83 anos, ele fica em pé ao lado de uma espécie de carrinho de pipoca que expõe seus livrinhos como num varal. Vez ou outra joga conversa fora ou declama alguns de seus cordéis para quem se interessar.
A obra do Mestre acolhe assuntos sérios e populares, como mostram os títulos “O Poder que a Bunda Tem”, “Terror nas Torres Gêmeas”, “As Grandes Aventuras de Armando e Rosa ou Coco Verde e Melancia” e “CPI, Mensalão e Ratos Brasileiros”.
Pequenino, tem orgulho de dizer que já fez inúmeras viagens internacionais, subiu “lá em cima, no último andar das Torres Gêmeas” e deu aulas de Literatura Brasileira na Sorbonne.
Outro cenário perfeito para mais uma gafe. Logo na chegada:
- “O Mestre Azulão é vivo ainda?
 - “Ué, sou eu”.
Depois dessa, o jeito é refrescar a cuca do Sol de 36º com um Guaraná Jesus bem geladinho. Apesar da cor da lata, a bebida tem aparência de guaraná comum, mas com gostinho de chiclete.

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2011/10/06

O DIA EM QUE PERDI O JUÍZO

Arquivado em: Diário de bordo — trezende @ 08:17

Faz muito tempo que perdi o juízo. Há mais de uma década.
Foi mais ou menos por aí que tirei o primeiro dente do siso. A experiência se revelou traumática num dezembro de muito calor nas mãos de um dentista tão delicado quanto um homem das cavernas.
Algumas semanas atrás, um segundo dente do siso teimou em inchar e causar incômodo. Estremecida, recebi o diagnóstico de que precisaria entrar na faca novamente. Não havia saída. Era marcar a extração ou sofrer mensalmente com o problema.
Corta para o consultório.
Depois de bochechar um Listerine, ganhar um guardanapo com as bordas enfeitadinhas e me vestirem com uma touca como a da avó da Chapeuzinho, estava pronta para abrir os trabalhos do dia.
A animação cedeu lugar à apreensão quando o dentista – com um semblante tão tranquilo como quem se concentra para arrancar o siso alheio – pergunta se eu já havia me preparado para ficar de repouso.
Dito isso, começou a encapar todos os fios dos motorzinhos que ele tinha à disposição. Não satisfeito, encapou também aquela escavadeira com faróis que ele usa para iluminar a nossa boca. Pensei: a coisa vai ser punk. Vai até jorrar sangue! Senti-me anêmica por antecipação.
Logo em seguida, o momento de maior tensão: ele me cobriu com uma espécie de lençol de necrotério cuja única abertura era o buraco que deixava minha boca à mostra. Fiquei parecendo um vulcão – naquela condição, prestes a entrar em erupção. E a ajudante: “Deixe suas mãos sobre a barriga”.
Gente, é só um siso, não um transplante.
Depois que ele jogou aquele lençol, eu joguei a toalha. E comecei a esperar o pior. Achei que ele ia furar um poço. Fui buscar força na coragem dos mineiros chilenos. Eles, assim como eu, não eram capazes de enxergar nada e tinham de confiar apenas na experiência de terceiros.
Por breves instantes imaginei que iam extrair meus rins. Tive medo de acordar numa banheira cheia de gelo, com um dreno lateral, desfalecida e sem a cápsula Fênix para me tirar dali.
Enquanto pensava no tráfico de órgãos, no mineiro maratonista e no vulcão islandês cujo nome não sei nem pronunciar, escuto: “Curva ou reta?”, perguntou a assistente. Ele: “Curva”.
Será que eles se referiam ao formato da broca? À condição da raiz do meu dente? Ou ao acidente que ocorrera naquela manhã na rodovia Anchieta? Sim, o caminhão derrapou numa curva ou numa reta?, queria saber a ajudante.
Afinal, eram eles ou eu quem estava perdendo o juízo?
Graças a um esbarrão, o buraco do lençol de necrotério moveu-se de leve e pude conferir rapidamente o que se passava: com uma pinça com uma gaze na ponta ele espalhou um líquido marrom de cheiro tolerável ao redor da minha boca, queixo e região do nariz.
Os faróis da escavadeira me serviram de espelho e pude conferir o o que eu já suspeitava: que eu estava parecendo um buldogue disfarçado de vulcão.
Fiz graça para mim mesma latindo mentalmente. Apesar de tentar disfarçar, mantinha-me preocupada com o acidente que aconteceria em alguns minutos. Alguém ali ia sair ferido – e não ia atrapalhar em nada o trânsito paulistano.
Novo esbarrão, o lençol de necrotério volta para a posição de onde nunca deveria ter saído e meus olhos não puderam mais acompanhar as obras. Tive de me contentar com o ronco dos motores.
Mal invoquei o padroeiro dos mineiros e o patrono dos pilotos de britadeira, o dentista me avisa: “Já saiu, Tatiana”.
Mas assim, tão rápido? Que anticlímax. Fisicamente, podia até estar fantasiada para ser despachada para o céu, mas meu preparo psicológico era de quem estava disposta a chegar ao centro da Terra.
Na verdade, bem lá no fundo, suspirei aliviada e pus os olhos no tesouro que acabara de ser garimpado.
“Quer que eu embrulhe?”, perguntou o dentista.
Pra viagem, por favor.

2011/07/21

AQUI JAZ

Arquivado em: Diário de bordo — trezende @ 09:20

Tenho o hábito de ler rótulos de alimentos. Hoje, tomando café da manhã, achei curioso o aviso na caixa do leite: “sem conservantes como todo leite UHT”.
Como um troço altamente perecível que sobrevive seis meses dentro de uma caixa não tem conservantes? Que piada.
Resolvi então elaborar uma lista (muito grosso modo) do meu cardápio diário conferindo os ingredientes das embalagens. Apesar de me considerar uma pessoa saudável, fiquei absolutamente chocada com a quantidade de produtos químicos que coloco para dentro num único dia.
Das duas, uma: ou vamos desenvolver anticorpos contra tudo isso e as próximas gerações serão resistentes a tanto lixo, ou o organismo humano – apesar dos avanços da Ciência – não será capaz de processar a dose de químicos e desenvolverá novíssimas doenças.
Confiram:

Café da manhã
Suco de manga ou pêssego light: acidulante e antioxidante ácido ascórbico, sucralose, acesulfame K e estabilizante goma xantana;
Leite desnatado: estabilizantes citrato de sódio, monofosfato, difosfato e trifosfato de sódio;
Café (a embalagem diz que é café torrado e moído);
Adoçante: sorbitol, ciclamato de sódio, sacarina sódica, benzoato de sódio, metil parabeno e acidulante ácido cítrico;
Pão multigrãos: além de vários tipos de grão, farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico e conservador propionato de cálcio;
Requeijão light: fermento lácteo, cloreto de sódio, estabilizante fosfato dissódico, conservante sorbato de potássio, regulador de acidez e bicarbonato de sódio

Lanche
Iogurte natural desnatado: amido modificado, fermento lácteo e estabilizante gelatina. Observação: “pode conter traços de castanha de caju” (?)
Várias gotas de adoçante: mais sorbitol, ciclamato de sódio, sacarina sódica, benzoato de sódio, metil parabeno e acidulante ácido cítrico

Almoço
Aparentemente saudável. Geralmente sem embutidos, mas com frango (turbinado com hormônios), salada, legumes, grãos como feijão, milho, grão-de-bico (carregados no agrotóxico).
Independentemente do cardápio, a comida é preparada com óleo e sal.
O rótulo do óleo: “Ingredientes: produto oriundo de soja certificada não-transgênica com adição de antioxidante ácido cítrico”.
O sal: cloreto de sódio, iodato de potássio e antiumectantes A.U.VI. e A.U.VII.
Para acompanhar, uma Coca-Cola Zero: água gaseificada, extrato de noz de cola, cafeína, aroma natural, corante caramelo IV, acidulante ácido fosfórico, conservador benzoato de sódio, regulador de acidez citrato de sódio e edulcorantes artificiais: ciclamato de sódio, acessulfame de potássio e aspartame.

Lanche da tarde:
Maçã, caqui ou outra fruta (todas trabalhadas no agrotóxico);
Café (“apenas” torrado e moído);
Leite desnatado (mais uma boa dose de estabilizantes citrato de sódio, monofosfato, difosfato e trifosfato de sódio);
Adoçante (sorbitol, ciclamato de sódio, sacarina sódica, benzoato de sódio, metil parabeno e acidulante ácido cítrico);
Pão francês: além de água, sal, farinha de trigo e fermento, os coliformes fecais e estafilococos do padeiro devem ser levados em consideração;
Mais a dose de fermento lácteo, cloreto de sódio, estabilizante fosfato dissódico, conservante sorbato de potássio, regulador de acidez e bicarbonato de sódio do requeijão

O jantar é uma mistura de café da manhã e lanche da tarde.
Não fumo, não bebo, não cheiro. Morri.

2011/07/15

DEU NÓ

Arquivado em: Diário de bordo — trezende @ 08:56

Depois que o prefeito Gilberto Kassab instituiu a lei “Cidade Limpa”, São Paulo ficou livre de faixas, outdoors, luminosos e todo tipo de publicidade. A cidade pode ter ficado mais limpa, mas ficou também mais triste.
Uma categoria, no entanto, conseguiu burlar as regras do prefeito: os amarradores do amor e pais-de-santo especialistas em curar males do coração.
Em alguns postes é possível cruzar com pequenos cartazes prometendo “seu amor de volta em 24 horas” – ou o seu dinheiro de volta.
Um deles me chamou a atenção: “Trago seu amor em 6 horas”. Uau. Praticamente mais rápido do que um voo São Paulo-Manaus.
Memorizei o telefone e tratei de recitá-lo como um mantra até o meu destino – havia tempos queria ligar para um Pai Oxum da vida.
Abaixo, a transcrição da conversa:

- Oi, boa noite, eu vi um cartaz de amarração num poste perto do shopping e queria saber como funciona
- Trago sua alma em 6 horas. Se não der certo, devolvo seu dinheiro. Sai R$ 300. Se você depositar agora (que horas são?) até às 6h, 7h da manhã ele vai te ligar
- E do que você precisa?
- Nome, sobrenome e data de nascimento dos dois
- Tá bom. Deixa eu até anotar aqui
- Viu, mas eu não vou te atender no meu consultório porque ele tá em reforma. A gente marca um encontro que é mais fácil. Quer se encontrar agora?
- E é você mesmo quem faz? Como você se chama?
- Bianca
- Bianca, qual a diferença do atendimento no consultório?
- O ambiente. Com imagens e velas grandes de três metros
- Depois que eu faço o depósito, como funciona?
- Eu pego o dinheiro e vou na Federação comprar os materiais. Porque eu não cobro o meu trabalho, só os materiais, que não são daqui, são da Índia. Se você ligar nas outras que fazem amarração elas vão te cobrar uns R$ 600, R$ 700
- É a Federação dos Amarradores?
- Eu não posso divulgar o nome da Federação
- Que materiais são esses?
- Velas, incensos, algumas imagens e dois bonecos simulando vocês dois. Por isso que eu preciso do nome de vocês. Para colocar nos bonecos
- Bonecos? Você vai espetar os nomes com uma agulha?
- Não, vou amarrar os dois
- Amarra bem forte, tá? Você faz tipo uma macumba?
- Não, não, vou para um lugar reservado e faço a simpatia
- Mas isso é garantido mesmo? Eu tô desesperada… Já faz mais de um ano…
- É garantido. Fiz um trabalho outro dia que ela tava separada dele fazia dois anos. Ele tava até casado com outra mulher já e voltou pra ela
- Sei
- Você não quer se encontrar agora? Que horas são agora?
- Quase 8 da noite
- Então… Até 3, 4, da manhã ele vai te procurar. Se ele morar perto de você, vai te procurar. Se morar longe, vai te ligar
- E ele vai me falar o quê?
- Ele vai ligar dócil, bonzinho, dizer que te quer de volta, que se arrependeu…
- E você faz esse trabalho reservado aonde, numa esquina?
- Não, no mato
- Posso ir junto?
- Não. É bom você não estar junto porque é um mato longe
- E os materiais, vão ficar lá a noite inteira?
- Até o resultado. Depois o pessoal da Federação passa lá e recolhe
- E se não der certo, posso fazer de novo?
- Pode. Mas é 100% garantido. Quer se encontrar agora?

Que Nossa Senhora Desatadora dos Nós nos proteja.
Só não descobri ainda quem é a mais desesperada: a amarradora ou quem liga para ser amarrada. 
Se alguém se interessou, posso passar o telefone.

2011/06/05

ABRINDO AS CORTINAS

Arquivado em: Diário de bordo — trezende @ 10:36

Duas dicas preciosas para fugir do roteiro turístico tradicional de Buenos Aires é a livraria “El Ateneo” e o Museu Evita.
Na contramão do ambiente “high tech” da Fnac, da “Apple Store” ou de outras lojas do gênero, a “El Ateneo” chama a atenção porque dá ao visitante a oportunidade de revisitar o passado.
Basta dar uma pausa na movimentada avenida Santa Fé para admirar um local que já serviu de palco para outros tipos de artistas – além dos escritores que hoje repousam nas prateleiras dali. É como entrar num túnel do tempo.
Isso porque o lugar foi inaugurado em 1919 como “Teatro Gran Splendid”. Em 2000 o teatro foi comprado, reformado e transformado em livraria pelo Grupo Ilhsa – que tem mais de 40 lojas em Buenos Aires.
As estruturas do palco e dos balcões foram completamente mantidas, mas no lugar das poltronas dos espectadores, prateleiras lotadas de livros. O palco virou um charmoso café que de vez em quando abriga a apresentação de um pianista. No subsolo, a seção infantil. Os afrescos no teto são de artistas italianos.
A “El Ateneo” é a livraria mais conhecida e bonita da cidade. Em 2008, o jornal britânico “The Guardian” a colocou na lista das 10 melhores do mundo. Linda mesmo.
Já o Museu Evita conta um pouco da relação de amor entre os argentinos e sua matriarca, Eva Perón.
Na primeira sala, um filmete sobre o velório de Evita – que durou 14 dias – desperta ainda mais a curiosidade de conhecer esse fenômeno e incita questionamentos. Será que se a primeira-dama não tivesse morrido tão jovem – aos 33 anos – seria tão venerada? Até que ponto seu talento como atriz foi importante para entender a linguagem do povão?
Evita nasceu em Los Toldos, província de Buenos Aires. Após a morte do pai, ela se muda com a mãe e os quatro irmãos para a capital e durante quase dez anos – de 1934 e 1945 – se dedica à carreira artística trabalhando em rádio, cinema e TV.
O museu é bem “oficialesco”. Louva as realizações de Evita na área social, expõe alguns de objetos pessoais e nada fala sobre a relacionamento entre ela e Domingos Perón. Como se conheceram? Como se apaixonaram? Fofoca zero. Nossa porção Nelson Rubens sai meio frustrada.
O prédio – instalado atrás do Jardim Botânico – funcionou desde 1948 como sede “Fundação de Ajuda Social María Eva Duarte de Perón”. Em 2002 virou museu.
Talvez o melhor do local seja mesmo o restaurante. Agradabilíssimo.

E assim terminamos a nossa saga argentina. Até o próximo diário de bordo!

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2011/06/04

GIRO DE CAPITAL

Arquivado em: Diário de bordo — trezende @ 08:41

Hoje elaborei um roteiro de compras em Buenos Aires. Identifique seu perfil, ponha o escorpião do bolso para correr e boas compras.

Alternativos: feirinha de San Telmo. Ela se estende desde a praça Dorrego Coronel – onde aos domingos há uma feirinha de antiguidades aos moldes da do vão livre do Masp, em São Paulo – até a Igreja de Nossa Senhora de Belém. Defensa, Bolívar, Estados Unidos e Balcarce são as ruas principais, completamente tomadas tanto por antiquários quanto por camelôs que oferecem bugigangas de todo tipo. Há também inúmeras lojas de decoração fofas e uma ou outra loja de roupas. No meio da confusão, jovens argentinos oferecem suas empanadas em bandejas. Apesar de a região ser bem tumultuada, é um ótimo passeio.

Chiques e famosos Shopping Patio Bullrich, na Recoleta. Reúne lojas de várias marcas internacionais, como Diesel, Escada, Christian Lacroix, Kenzo, Salvatore Ferragamo e outras. Lá você nem empurra a barra da porta para entrar. Quando se dirigir à entrada, um segurança prontamente lhe dará as boas-vindas.

Classe média: Shopping Abasto. Apesar de não ser tão chique quanto o Bullrich, impressiona por sua imponente fachada. Destoando do cenário da avenida Corrientes, funciona num prédio histórico gigantesco que abrigou a central de abastecimento de frutas e verduras da cidade em fins do século 19. Na época, foi considerado o mercado mais importante da América Latina. Foi lá que vi o primeiro Mc Donald´s kosher do mundo.

Selvagens: a já citada filial da 25 de Março, a rua Florida. Vista sua caneleira e boa sorte. Para fugir do assédio dos “corretores” das casas de câmbio, a opção é a Galeria Pacífico – fraquíssima, por sinal.

Exigentes: bairro de Palermo ou shopping Paseo Alcorta. Juntos, são os dois melhores locais de compras da cidade. Palermo, além de ser um ótimo passeio e oferecer opções de comidinhas, conta com lojas variadas, roupas lindas e um preço relativamente acessível. O Paseo Alcorta – ao lado do Museu Malba – oferece a melhor relação custo-benefício.

Bobageiros: feirinha da Recoleta ou as ruas do Caminito. Para quem não quer exatamente comprar, mas mexer em tudo.

P.S.: Acima, expositora confunde-se com sua exposição na feira de antiguidades de San Telmo.

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2011/06/03

THINK PINK

Arquivado em: Diário de bordo — trezende @ 10:11

Toda menina deseja morar numa casa rosa. Umas dão asas ao devaneio com a ajuda da Casa dos Sonhos da Barbie. Outras conseguem, como é o caso de Cristina Kirchner.
Ok, ok, Cristina mora na residência oficial de Olivos, mas passa boa parte de seu dia na Casa Rosada – que na verdade é mais para salmão do que rosa.
Cristina conseguiu realizar o sonho, mas para isso precisou abrir mão de seu Ken.
Reza a lenda que a cor do prédio corresponde à fusão das cores-símbolo dos dois principais partidos políticos do país. Mas a explicação da guia oficial é a de que o tom deve-se à mistura de sangue de vaca com cal, que teria o poder de prevenir os estragos causados pela umidade.
Quem já visitou o nosso Congresso Nacional, em Brasília, sabe que se trata de um lugar sombrio, sem janelas, com corredores e mais corredores de carpetes infestados por ácaros e com aparência – e manobras – de uma bat-caverna.
A cada quilômetro percorrido – salvo uma obra ou outra de Athos Bulcão – cruza-se com uma escultura de alumínio triste e perdida no meio de um vão com goteira.
A Casa Rosada não lembra em nada esse cenário. Em vez de carpetes no chão e nas paredes, muito mármore, salões amplos, vitrais lindíssimos, um pátio interno arborizado e com fonte d’água, cores vivas e luz, luz, luz.
A primeira parada é no recém-inaugurado Salão dos Patriotas Latino-Americanos, que conta com retratos como os de Getúlio Vargas, Juan Perón, Salvador Allende e Che Guevara.
Recentemente o salão serviu para o velório de Ken, digo, Néstor Kirchner.
Outro ambiente que não poderia faltar numa casa rosa é a galeria de mulheres. No caso, das principais representantes femininas da Argentina em várias áreas, como política, literatura ou música. O salão – geralmente usado para coletivas de imprensa – é cercado por fotografias em preto e branco de personagens como Evita, Mercedes Sosa ou da guerrilheira Juana Azurduy.
Após a passagem por um corredor com imagens dos principais diplomatas do país, chega-se ao local mais famoso do prédio: o balcão que se abre à Praça de Maio, testemunha dos principais fatos políticos da história argentina. Esse já viu de tudo: discursos acalorados, mães aos prantos, inúmeros protestos e até já serviu de cenário para filmes.
Uma foto à la Evita no balcão é tão obrigatória quanto a clássica segurada na Torre de Pisa.
A curiosidade fica completamente satisfeita na visita ao escritório de Cristina Kirchner. Devidamente guardado por oficiais, a sala é atulhada de mesas, cadeiras e aparadores cheios de porta-retratos familiares.
A visita guiada dura cerca de uma hora. Vale a pena.

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