O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2012/09/09

QUER SABER? JÁ FOI

Arquivado em: Cri-crítica — trezende @ 09:37

O musical “Cabaret” confirma o ditado popular de que a propaganda é a alma do negócio. As peças publicitárias do espetáculo, a autopromoção e a forcinha da mídia nos convencem de que se não o assistimos, não vivemos.
Mas é bom não acreditar em tudo o que lemos e ouvimos. É perigoso.
“Cabaret” é mais um dos espetáculos que saem do forno da pizzaria Charles Möeller e Claudio Botelho e mais um equívoco de José Possi Neto como diretor de musicais (ele também foi responsável pelo fraquíssimo “New York, New York”).
Após encontrar um filão no mercado cultural brasileiro no fim dos anos 90, a dupla Möeller-Botelho ligou a máquina produtora de musicais e tem se assemelhado a um trator. No site da dupla é possível contar 32 musicais entre 1997 e hoje. O resultado é que a maioria das pizzas fabricadas pela dupla chega com o estranho sabor da pizza do Habib’s.
Visualmente a produção é sempre impecável – os cenários e figurinos chamam a atenção porque são confeccionados pela elite dos profissionais brasileiros na área. Mas a tradução e a adaptação brasileiras deixam a desejar.
Primeiro pelos números musicais – todos traduzidos. Depois pelo texto, em muitos casos, sem pé nem cabeça.
Em “Cabaret” há um exemplo ótimo. Numa das cenas, um casal conversa metaforicamente sobre maçãs – filosofa sobre o fato de que as maçãs dos galhos mais altos são as mais saborosas. Do nada, um dos personagens diz: “Vou descascar uma laranja”. E a outra: “Deixa que eu descasco pra você”.
Imagina-se que a frase, que sai totalmente do contexto, será o elo de ligação para algo incrível que virá adiante. Mas não. Ao fim do solo do ator, a outra lhe entrega a fruta descascada.
Fim da cena. Só faltou dizerem ao público: “Agora chupem essa laranja”.
As vivas vão todas para outra dupla: Claudia Raia e Jarbas Homem de Mello – namorados “na vida real” e responsáveis pelos melhores momentos do espetáculo.
Jarbas Homem de Mello faz a alegria da plateia ao desfilar toda sua “jarbice”. E que “jarbice”, minha gente. O ator não hipnotiza só pelo físico sensacional. Expressivo, ele é também um ótimo cantor e dançarino.
Claudia Raia é uma cantora esforçada. É evidente que sua colocação de voz é fruto de aulas de canto – tanto quanto seu abdômen sarado das inúmeras séries de abdominais. A constatação, no entanto, não tem o objetivo de desmerecer o trabalho da atriz. Pelo contrário, Claudia é um exemplo de superação, disciplina e força de vontade. Mas seu talento é para a dança.
Ao fim, é inevitável não tentar entender por que “Cabaret” não funciona. E o diagnóstico é um pouco desanimador: “Cabaret” envelheceu. O filme que encantou o mundo na pele de Liza Minnelli em 1972 já não encanta. Ele marcou época – deve ter sido um espanto falar de aborto ou de independência feminina na década de 70 – mas talvez hoje, na era da informação e dos resultados, precisemos de outros significados. E “Cabaret” é apenas um espetáculo visual.

Quer um bom musical? Vá ver “Priscilla”

2012/09/08

EQUILÍBRIO PERFEITO

Arquivado em: Cri-crítica — trezende @ 09:07

Olha aí o filme do ano. Demorou, mas ele veio. E da França.
“Intocáveis” não é destaque porque estamos num ano fraquíssimo de estreias cinematográficas, mas porque é excelente.
Já é o segundo filme mais visto da história da França – com cerca de 20 milhões de espectadores. “Intocáveis” só fica atrás de “A Riviera Não É Aqui” (2008) na preferência dos franceses.
A história é linda e emocionante, mas o grande ímã é Omar Sy. Grande em todos os sentidos. O ator, que tem quase dois metros de altura, é um achado. É muito carisma para uma pessoa só. Por este papel, ganhou o César (considerado o Oscar francês) este ano.
Baseado numa história real, “Intocáveis” é inspirado no documentário “A la Vie, A la Mort”, feito em 2004, quando os diretores conheceram os protagonistas.
O filme se passa em Paris e narra a amizade entre Philippe, um tetraplégico viúvo e milionário, e Driss, um jovem problemático da periferia parisiense de origem senegalesa. Cada um engessado às suas limitações.
Desempregado, Driss vive da grana do auxílio-desemprego. Philippe, que se movimenta apenas do pescoço para cima, tem poucos prazeres na vida: ouvir música clássica, colecionar obras de arte e corresponder-se com uma estranha.
O destino dos dois dá uma guinada quando Philippe contrata, por pura empatia, Driss como acompanhante / enfermeiro.
Driss compensa sua pouca cultura e ignorância com humanidade e humor – através de muitos comentários politicamente incorretos. Graças à sua espontaneidade, ele conquista a simpatia e a confiança de Philippe, que percebe ser tratado como um homem comum. É aí que reside toda a magia de “Intocáveis”.
Driss faz o diabo com a cadeira de rodas do patrão, carrega-o no colo de maneira estranha e não tem papas na língua.
Phillipe apresenta a ele compositores famosos – Vivald, Bach – e Driss devolve com “Kool & the Gang” – a cena da festa de aniversário de Philippe, em que Driss tenta dar alguma interpretação à música clássica, é divertidíssima.
Depois de assistir à “Intocáveis” tem-se a sensação de que é tão simples fazer um bom filme… Não é preciso explosões, efeitos especiais, figurinos de época, locações majestosas ou elenco famoso mundialmente. Só queremos uma história bem contada que nos divirta e surpreenda. Não é pedir muito.
No final, enquanto aparecem os créditos, conhecemos os verdadeiros Philippe e Driss (Abdel, na vida real). Vem também a informação de que Philippe vive no Marrocos, casou-se novamente e tem dois filhos. Abdel também é casado e tem três filhos. Os dois são amigos até hoje.
Vocês não vão querer perder o filme do ano, vão?

2012/09/06

REHAB DE CASAL

Arquivado em: Cri-crítica — trezende @ 09:50

Arnold (Tommy Lee Jones) e Kay (Meryl Streep) estão casados há 31 anos – casados, mas não juntos. Eles dormem em camas separadas e praticamente não conversam e não têm contato físico.
Arnold é um homem de poucas palavras. Prefere assistir aulas de golfe pela TV. Kay é a dona de casa padrão – solitária e reprimida – que procura a ajuda do Dr. Bernie, um terapeuta de casais (Steve Carell) que vai ajudá-los a superarem as dificuldades do casamento.
Esta é a história de “Um Divã Para Dois”, uma mistura de drama e comédia dirigida por David Frankel (o mesmo de “O Diabo Veste Prada” e “Marley e Eu”).
Quem viu o trailer imagina que vai assistir a mais uma comédia romântica com uma trilha sonora “bonitinha”, mas o filme está mais para as lágrimas do que para a gargalhada.
“Um Divã Para Dois” não é um filme fácil. Vai direto ao ponto, cria constrangimentos e procura a verdade dos sentimentos.
Durante o “rehab” de uma semana, as perguntas do terapeuta causam embaraços ao casal – principalmente porque se trata o sexo de forma clara e direta: do que gostam, do que não gostam, as fantasias, se sentem-se atraídos um pelo outro, quando foi a última vez que tiveram uma relação sexual – “há uns cinco anos, em setembro”, relembra Kay.
Portanto, as cenas que poderiam render situações de riso têm uma boa dose de drama e tensão.
Mas o que faz o filme realmente valer a pena é Meryl Streep. Com apenas um olhar ela consegue transmitir melancolia, ternura, alegria ou otimismo. Como é prazeroso assistir à atuação dela – outro dia mesmo nos convencia de que era Margareth Tatcher. Em “Um Divã Para Dois” ela novamente mostra sua versatilidade.
Seu parceiro de cena, Tommy Lee Jones, a acompanha à altura sem cair no estereótipo do marido ranzinza.
Steve Carrell, acostumado à comédia, contém-se ao interpretar o terapeuta bem-intencionado – até porque cara de psicólogo ele já tem.
Além do talento de Meryl Streep, chama a atenção em “Um Divã Para Dois” o fato de os três personagens respeitarem o silêncio, a pausa (e aí entra uma qualidade conquistada com a idade) o exercício da tolerância.
Não percam.

2012/09/02

NA SALA DE CINEMA EU SENTEI E CHOREI

Arquivado em: Cri-crítica — trezende @ 09:35

Com este “À Beira do Caminho” Breno Silveira mostra que está se especializando em filmes do gênero “chora coração” – ele também dirigiu “Dois Filhos de Francisco”.
Seu novo trabalho conta a história da amizade entre dois homens unidos pelo mesmo sentimento: o da perda. João é um homem ranzinza e amargurado que perdeu a alegria de viver após um acontecimento marcante no passado. Já o garoto Duda só quer conhecer o pai que nem sabe que ele existe.
“À Beira do Caminho” é o famoso filme “bem feitinho” que pega o caminho mais fácil em se tratando de um “road movie”. Ele pontua os dramas dos personagens com as músicas do “rei” Roberto Carlos e com frases clássicas de traseiras de caminhão.
Uma das primeiras imagens é a do caminhão do protagonista com os dizeres “Mantenha Distância”. Já se sabe, de antemão, que teremos um motorista arredio.
Mas essa é a parte menos óbvia. Há outras mais elementares.
Quando os dois se dão conta de amizade que nasce entre eles, o garoto canta “Amigo”. Quando João tem um flashback com a ex-namorada, a trilha sonora é “Outra Vez”.
Quando os dramas dos personagens são apresentados, close na traseira de um caminhão: “Viver é como desenhar sem borracha”.
Quando se fala em saudade, outra “filosofia caminhoneira” enche a tela: “Quando a saudade não cabe no peito ela transborda pelos olhos”.
E, no encerramento do filme, o “gran finale”: “Prepare-se para o pior, espere o melhor e aceite o que vier”.
Parece trabalho de conclusão de curso de faculdade de Cinema.
O que se salva desse punhado de “paulocoelhices” é o elenco. João Miguel é um ótimo ator, mas o garoto Vinícius Nascimento é ainda melhor.
O menino – que já havia feito uma participação em “Ó Pai Ó” – foi selecionado entre 800. As melhores cenas e falas são dele, que está com 14 anos (no filme ele tinha 12). O personagem tem o jeito e o olhar inocente de uma criança, mas age como adulto.
João Miguel gosta mesmo de comer poeira. Além de ter feito parte do elenco de “Xingu”, esta é a segunda incursão do ator num “road movie” brasileiro – o primeiro foi no “cabeça” “Cinema Aspirinas e Urubus”.
Para quem gosta de previsibilidade e não quer ser surpreendido, “À Beira do Caminho” é uma ótima pedida. Boa sorte.

2012/08/30

RISO NERVOSO

Arquivado em: Cri-crítica — trezende @ 09:44

Mesmo sem ser convidado, Sacha Baron Cohen apareceu no tapete vermelho da cerimônia do Oscar este ano para divulgar seu mais recente filme, “O Ditador”. Vestido a caráter, ele derramou as supostas cinzas do coreano Kim Jong-il em cima de um dos repórteres que fazia a transmissão e foi retirado às pressas pelos seguranças.
Nenhuma novidade para quem conhece Sacha Baron Cohen, o ator, humorista e comediante inglês cujas principais armas são o choque e a ironia. Desta vez não é diferente.
Sacha vive Aladeen, um ditador da República de Wadiya, no Oriente Médio, que atrai a atenção internacional quando seu programa nuclear de armas é descoberto. Aladeen vai para os Estados Unidos para discursar em uma assembleia da ONU e defender a soberania de seu país. Um dos grandes pontos de discussão entre o ditador e o cientista encarregado da construção da bomba é a forma do artefato. Aladeen quer que ele tenha a extremidade pontuda e não arredondada. Teme que seus inimigos achem que ele mandou um vibrador gigante – e não uma bomba.
A diferença de Aladeen para os ditadores que servem de inspiração para Sacha é que ele quase se rende à América. Além de tentar o suicídio numa ponte em Nova York calçado num par de “Crocs”, ele se apaixona por Zoey (Anna Faris, de “Qual Seu Número?”), uma ativista política, vegetariana, feminista e dona de uma loja de produtos orgânicos. Zoey é tão riponga que os pelos de suas axilas são praticamente uma selva. Aladeen a chama de “Hairy Potter”.
“O Ditador” não é tão surpreendente quanto “Borat”  e não tão escatológico e constrangedor quanto “Bruno”. Não provoca exatamente gargalhadas, mas um riso tenso porque Sacha continua associando humor politicamente incorreto e escatologia.
Ele encontrou um meio-termo ao misturar momentos infantis – como o parto que ajuda a fazer ou o degolamento de um defunto para roubar-lhe a barba – com outros que são ininteligíveis para boa parte da plateia – como o discurso sobre a Democracia.
O que nos conquista é a inteligência e a sonsice de Sacha Baron Cohen, capaz de comparações do tipo: “Mulheres que estudam são como macacos de patins: ambos não servem para nada, mas são adoráveis”.
Destaque para as versões de músicas americanas (como “Everybody Hurts”).

2012/08/28

O MUNDO GIRA, A FILA ANDA

Arquivado em: Cri-crítica — trezende @ 09:18

Aos poucos estamos superando nosso complexo de vira-lata. Não em relação à Educação, Política, Relações Internacionais ou Saúde, mas no que exige talento para além das quatro linhas do gramado.
Nossa estreia em telas estrangeiras foi com Sônia Braga, mas o sentimento de “eu existo” veio à tona quando Fernanda Montenegro foi indicada ao Oscar de melhor atriz por “Central do Brasil”. Depois passamos a viver uma alegria atrás da outra ao entrarmos no cinema e darmos de cara com Rodrigo Santoro – desde a participação em que entrou mudo e saiu calado em “As Panteras” até o “semi-protagonismo” em “I Love You Phillip Morris”. E Alice Braga rasgando seu inglês com Will Smith?
À exceção de palhaçadas lamentáveis, como os filmes de Bruno Mazzeo, de uma maneira geral nosso cinema está de dar orgulho – mesmo quando a produção não é exatamente nacional. Caso desse “360”, de Fernando Meirelles. Um filmaço.
Modesto, Meirelles disse numa entrevista que o crédito é “80% do Peter Morgan, 3% da peça” e o resto é dele. Peter, o roteirista, também trabalhou em “A Rainha”, “Frost/Nixon” e “O Último Rei da Escócia”.
Inspirado numa peça do dramaturgo austríaco Arthur Schnitlzer, “360” é uma reunião de diversas histórias sobre relacionamentos amorosos. Mais do que isso: é um filme sobre superação e força de vontade. Sofisticado. Sério.
Cada personagem vive um turbilhão de emoções, mas é tudo contido, velado. Não há afetação. Há interpretação – e de um elenco estelar: Anthony Hopkins, Jude Law e Rachel Weisz. Correndo por fora, Juliano Cazarré – o Adauto de “Avenida Brasil” – exibindo um inglês invejável (natural e sem sotaque).
Escrevendo sobre “360”, um desses críticos que se acham o dono da verdade colocou o seguinte título: “Vá ver filme brasileiro, mas não me convide”.
Além de preconceito no pior grau, o tal crítico revela alto nível de desinformação. “360” não é um filme brasileiro, mas anglo-franco-austríaco.
Falado em inglês, alemão, árabe, francês, russo e português e filmado em cinco países, o filme de Meirelles era forte candidato a virar uma babel, mas é música para os olhos e ouvidos.

2012/07/16

CONGELA!

Arquivado em: Cri-crítica — trezende @ 08:30

E não é que “A Era do Gelo” está nas paradas de novo? E pela quarta vez?
O início é promissor. O filme começa na pangeia causada pelo esquilo Scrat ao perseguir uma noz e com a chegada da família de Sid – o bicho-preguiça tão falante e desajustado quanto o burrinho de “Shrek”.
Mal aparecem, os familiares de Sid se mandam. Tempo suficiente para deixar a vovó-encrenca aos cuidados do neto Sid.
Mas o que parecia ser uma animação que acompanharia as (des) aventuras da dupla resvala para o de sempre: correria desatada do início ao fim. É tanto corre-corre que saímos do cinema cansados, tontos – se a sessão for em 3D – e cheios de perguntas.
Por quê? Por quê? Por quê?
Por que insistir na ideia do esquilo que persegue a noz pela quarta vez? A premissa é realmente sensacional, mas contar a mesma piada duas vezes raramente funciona.
Por que roteiristas e diretores acham que são necessárias sequências de ação infindáveis? Esquecem-se de que crianças também gostam de ouvir historinhas. E o mais importante: quem as leva ao cinema são os pais. Portanto, para que tanta gritaria e sebo nas canelas?
Por que não apostar mais em situações que deem margem a diálogos senão engraçados, pelo menos “engraçadinhos”?
Tanto Sid quanto a avó renderiam inúmeras cenas assim. Ambos são sem-noção e por isso são abandonados pela família. São eles os responsáveis pelas poucas risadas do filme – quando conseguem abrir a boca.
Por que a mania de inserir um musical lá pelo meio do filme? Será regra de algum estúdio de animação? Talvez esteja escrito em algum termo que desconhecemos: “Para constar da categoria ‘Animação’ é necessária, além da inserção de muita correria, pelo menos um número musical. Mesmo que não faça sentido à trama”.
Enfim, “A Era do Gelo 4” é menos pior do que a sequência anterior – dirigida, aliás, pelo brasileiro Carlos Saldanha, do chatíssimo “Rio” –, mas ainda assim dispensável. Não esperem o humor sutil e a erudição de um “Toy Story”.
E, finalmente: por que teremos de aguentar mais uma sequência? Sim, a tortura não tem hora para acabar.
“A Era do Gelo 5” vem aí.

Acima, a melhor cena do filme: o banho da vovó

2012/07/12

COMO TECER UMA TEIA

Arquivado em: Cri-crítica — trezende @ 09:32

Homem-Aranha. Esse é o cara. E agora ele é espetacular.
O conselho para quem não gosta de filmes de ação, não é especialista em quadrinhos, não pretende assistir porque acha que já viu essa história antes e tem preconceito com blockbusters é: vá.
“O Espetacular Homem-Aranha” está espetacular.
O filme tem alguns ingredientes fundamentais para o sucesso: muito humor, romance e uma história bem contada com princípio, meio e fim. Tudo isso sem perder sua característica primordial: a ação.
O maior acerto de “O Espetacular Homem-Aranha” é fazer de forma diferente o que já foi feito. Ponto para o trio de roteiristas e para o diretor Marc Webb (do fofo “500 Dias Com Ela”), que encaram o desafio com muita criatividade. A maior lição deixada pela equipe é que nem tudo precisa ser dito. A sugestão é mais inteligente e fascinante.
Outro mérito da nova versão é que os produtores abriram mão de grande parte dos efeitos especiais e dos recursos tecnológicos. Há, obviamente, muito efeito – afinal é preciso mostrar um homem que escala prédios e voa em cipós de teia – mas sem abusos.
Desta vez o herói é mais falível. Ele cai, se rala inteiro, manca, apanha e leva tiro. Enfim, é um Homem Aranha de carne e osso. Mais osso do que carne. O protagonista – Andrew Garfield – é um saquinho de ossos. Porém, muito carismático. Desengonçado, parece ter pouca bundinha para encher o collant. Mas enche.
A parte estranha, mas que não chega a comprometer o filme, é que há pelo menos dois acontecimentos diferentes que levam à formação da identidade do Homem-Aranha – se levarmos em consideração o que se passou numa das sequências anteriores (talvez a de 2002).
O primeiro é que Peter Parker era embutido dos poderes aracnídeos após uma aula de laboratório na faculdade – quem não se lembra da cena da aranha descendo na teia e entrando por trás do pescoço dele? O outro é que a morte do tio Ben acontece em circunstância diferente da que já havia sido mostrada.
Mas nada disso importa porque são diferenças muito pontuais. A essência do Homem-Aranha está lá. Apesar de o objetivo ser o mesmo – recontar as origens do herói –, a franquia é outra, o elenco é outro e o diretor é outro.
Um destaque? O primeiro terço do filme, que mostra o herói conhecendo suas habilidades.
Imperdível.

2012/07/07

NINGUÉM É PERFEITO

Arquivado em: Cri-crítica — trezende @ 09:58

As pessoas não acertam sempre. Nem Woody Allen.
Este seu novo filme é uma bobagem. Preguiçoso até.
“Para Roma Com Amor” é uma reunião de quatro histórias: um casal recém-casado que chega a Roma vindo do interior; uma atriz em início de carreira que – dizem – é um poço de sensualidade; um pai de família anônimo que tem de lidar com a fama repentina e a melhor delas: um cantor lírico que só canta bem quando está debaixo do chuveiro.
O saldo é frustante. Primeiro porque nenhum dos episódios é desenvolvido como deveria. Depois porque assim que os personagens são apresentados esperamos ser surpreendidos com os revezes e as soluções mirabolantes que sempre acompanham a grife Woody Allen. Sim, somos surpreendidos, mas pela previsibilidade.
A explicação para o furo n´água talvez venha com a informação de que “Para Roma Com Amor” foi quase um filme feito sob encomenda. Woody Allen recebeu um convite de financiamento de distribuidores romanos e aceitou. A oportunidade de realizar o desejo antigo de filmar em Roma e de conseguir dinheiro rápido – e de uma única fonte – fez os olhos de Woody brilharem.
À exceção da história do cantor de ópera – sensacional, ainda que previsível – as outras três são frágeis e gratuitas. Ellen Page como atriz irresistível não convence, bem como a ideia de uma garota de programa (Penelope Cruz) assediar um interiorano mesmo sabendo que ele não era seu alvo.
Resta o elenco. Dizem que o sonho de todo ator é trabalhar com Woody Allen. E isso tem ficado bem claro a cada novo filme do cineasta.
Neste “Para Roma Com Amor”, Alec Baldwin, Penelope Cruz, Jesse Eisenberg (que interpretou Mark Zuckerberg) e Ellen Page (de “Juno”) dividem a tela com atores italianos famosos como Roberto Benigni e Ornella Muti.
Se serve de consolo, Woody Allen também está no elenco – seis anos depois de atuar em “Scoop”.
Enfim, não foi desta vez. Aguardemos a próxima tentativa do cineasta.

2012/06/24

UM MINUTO DE SILÊNCIO

Arquivado em: Cri-crítica — trezende @ 09:04

“E Aí… Comeu?” foi descrito pelo produtor Augusto Casé como uma “comédia de costumes romântica atrevida”. Não sei em que século vive Augusto Casé, mas desde quando falar palavrão é atrevimento?
O filme, baseado em texto de Marcelo Rubens Paiva, é um compêndio de lugares-comuns e clichês.
Com o álibi de ser “uma declaração de amor às mulheres”, o novo trabalho do diretor Felipe Joffily – o mesmo de “Muita Calma Nessa Hora” – reúne três amigos para, supostamente, falar tudo sobre sexo, mulheres e relacionamentos sem moralismos ou censura.
O clichê começa já no perfil do trio de protagonistas: o recém-separado (Bruno Mazzeo), o casado (Marcos Palmeira) e o solteiro convicto (Emílio Orciollo Netto). Depois, pela ambientação – que outro lugar senão a mesa do bar seria o cenário ideal para fazer comentários escrachados sobre o tamanho do órgão sexual masculino, tirar dúvidas sexuais, avaliar a performance das parceiras e inventar classificações para os tipos de mulheres?
Depois de usarem todos os verbetes do dicionário de lugares-comuns da Língua Portuguesa, os três concluem que não vivem sem elas.
Para reforçar o romantismo um dos personagens recorre até a um trecho de “Wave” e afirma que “é impossível ser feliz sozinho”. Afinal, estamos diante de uma comédia que além de “atrevida” é “romântica”, lembram-se?
Não são os palavrões, o machismo ou a linguagem chula de Marcelo Rubens Paiva que incomodam. Tudo isso, no fundo, é uma grande bobagem. Incomoda a obviedade. Sem falsa modéstia, qualquer um escreveria os diálogos de “E Aí… Comeu?”. Basta folhear revistas femininas ou assistir aos filmes do pessoal do “Casseta & Planeta” ou aos anteriores de Bruno Mazzeo.
O grande mistério é Mazzeo, “uma das novas caras do humor brasileiro”, se meter sempre em roubadas. Por quê? Porque financeiramente elas devem valer muito a pena. É a única explicação plausível para o envolvimento do ator em bombas como “Cilada.com” e “Muita Calma Nessa Hora” – filme que, aliás, terá uma continuação.
Se apesar de tudo o ator ainda insiste é porque conta com a aprovação do povão, que tem garantido ótimas bilheterias para todas as comédias nacionais recentes.
Estando bom para as ambas as partes, o melhor é nos retirarmos silenciosamente. Em protesto.

2012/05/24

NÃO VINGOU

Arquivado em: Cri-crítica — trezende @ 07:53

Teve fanático que esperou por esse momento durante anos: a adaptação de “Os Vingadores” para o cinema.
A ansiedade justifica-se porque o grupo tornou-se um clássico das histórias em quadrinhos quando foi publicado pela Marvel em 1963.
De lá para cá surgiram outros heróis, milhares de vilões – inclusive os do mundo real – e as HQs e os livros foram substituídos pelos videogames e pela internet. Mas o cinema e o poder de Hollywood só crescem.
Prova disso é que “Os Vingadores” está em cartaz em mais de mil salas em todo o Brasil e já teve anunciada sua continuação.
É para tanto? Não. Principalmente para quem não é fã de quadrinhos e ficção científica. Prepare-se para um chá de cadeira de duas horas e quinze minutos.
Na história, nossos heróis são apresentados levando uma vidinha pacata e anônima. O bilionário Tony Stark (Homem de Ferro/Robert Downey Jr.) mora em seu prédio luxuoso e, entre goles de champanhe, continua no chove-não-molha com sua assistente (Gwyneth Paltrow). Hulk (o cansado e inexpressivo Mark Ruffalo) mudou-se para algum lugar da Índia em busca de paz. Capitão América (Chris Evans) faz o que ele sabe de melhor: cultivar os músculos.
Os outros integrantes do grupo surgem do nada, como Thor (Chris Hemsworth) e Viúva Negra (Scarlett Johansson). Também faz parte do time o Gavião Arqueiro (Jeremy Renner, de “Guerra ao Terror”).
A vida segue tranquila na Terra até que um rei vilão (Loki/Tom Hiddleston) vindo de outra dimensão chega para abrir seu saquinho de maldades. Daí cada um dos vingadores é recrutado por Nick Fury (Samuel L. Jackson), da “Shield”, uma espécie de agência internacional da paz.
Dos seis personagens, alguns já protagonizaram seus próprios filmes, como Homem de Ferro, Capitão América e Hulk. Mesmo para quem não gosta ou tem pouco conhecimento sobre esses heróis, os filmes “solo” foram uma agradável surpresa. Mas juntos… eles são melhor separados.
Primordialmente porque desta vez a história é fraquíssima. Há achados – como o desempenho de Hulk no terço final – e as inúmeras piadinhas salpicadas ao longo do filme. Mas nem o (sempre ótimo) Homem de Ferro e o nervosismo de Hulk vingam “Os Vingadores”.
Os seis precisam salvar a Terra e só. E dá-lhe sebo nas canelas. Curiosamente, apesar de todo o aparato tecnólogico (o cajado eletrificado de um, o martelo energizado de outro e a capacidade aérea de um terceiro), os heróis continuam gostando mesmo é de uma luta corporal. Só faltam os clássicos “pow!”, “soc!”.
Nada de romance (como nas duas sequências do Homem de Ferro), de histórias paralelas ou de quaisquer outras surpresas. Bom mesmo é o vilão, que é irmão adotivo de Thor (!), um misto de Marilyn Manson (rosto) com Visconde de Sabugosa (físico).
O ator Lou Ferrigno, o Incrível Hulk original, de 1978, é quem dubla o Hulk do cinema. Felizmente Mark Ruffalo está cansado demais para isso.

2012/05/17

OS (DIS) SABORES DA ÍNDIA

Arquivado em: Cri-crítica — trezende @ 08:15

Por que certos filmes insistem em abusar da inteligência do espectador?
Esse é o caso de “O Exótico Hotel Marigold”. Elenco de primeira, cartaz supersimpático, zilhões de sessões exibindo blockbusters como “Battleship – A Batalha dos Mares” ou “Piratas Pirados”… taí uma ótima opção. Água.
Dirigido pelo britânico John Madden (de “Shakespeare Apaixonado”), é baseado no romance “These Foolish Things”, da também britânica Deborah Moggach, uma das responsáveis pela adaptação do romance “Orgulho e Preconceito”. Esse, com Keira Knightley, levou quatro Oscar. Nenhum dos quatro pelo roteiro adaptado, mas o notável trabalho de Deborah contribuiu para o sucesso de “Orgulho e Preconceito”.
Desta vez, no entanto, Deborah derrapa feio. A produção inglesa é um lugar comum atrás do outro. Até na fórmula: após a apresentação dos dramas dos personagens, eles viajam à Índia, tomam contato com outra realidade, compartilham experiências e descobrem que nunca é tarde para ser feliz. Afinal, como diz a principal mensagem do filme, “no final dá tudo certo. Se não deu, é porque ainda não chegou o fim”. Tão profundo quanto um pires.
A história é sobre um grupo de aposentados que, do nada, resolvem conhecer o “The Best Exotic Marigold Hotel”, em Mumbai. A expectativa era encontrar um resort cinco estrelas, mas dão de cara com um “Formule 1” – ou pior.
O hotel é administrado pelo jovem Sonny (Dev Patel), que inacreditavelmente corre mais do que em seu filme anterior, “Quem Quer Ser um Milionário?”.
O leque de dramas dos protagonistas é variado – e o esforço para que isso aconteça é visível: Evelyn (Judi Dench) é uma viúva endividada que se recusa a morar com o filho; Muriel (Maggie Smith, de “Chá com Mussolini”), é xenófoba e tem preconceitos de todo tipo; o casal Douglas (Bill Nighy) e Jean (Penelope Wilton) está desgastado pelos vários anos de casamento; Graham (Tom Wilkinson) é gay; Norman (Ronald Pickup) e Madge (Celia Imrie) são os inconsequentes e felizes.
Com tanto personagem, claro que nenhum dos problemas é explorado em profundidade. O filme limita-se a mostrar o caos da paisagem urbana de Mumbai e a tentar desenvolver um pouquinho da história de superação de cada um deles. Depois de duas horas, “O Exótico Hotel Marigold” assume ares de novela: tudo é resolvido em questão de segundos e todos vivem felizes para sempre.
De inédito mesmo só dois pontos: 1) Judi Dench não faz papel de espiã; 2) apesar de se passar na Índia ninguém dança no final. Só a gente mesmo.

2012/05/14

REINANDO ABSOLUTO

Arquivado em: Cri-crítica — trezende @ 08:51

Quem espera alguma purpurina ao som de “It’s Raining Men” vai ficar chocado. “Priscilla – Rainha do Deserto” é muito mais do que um espetáculo alegre (o verdadeiro significado da palavra “gay”). É um show de profissionalismo, de teatro, de criatividade, de interpretação, enfim, de musical.
Baseado no filme homônimo de 1994, “Priscilla” é um musical australiano de sucesso que chega ao Brasil apenas um ano após estrear na Broadway.
Na história, duas drag queens e uma transexual de Sidney são contratadas para um show num cassino em Alice Springs, cidade localizada no deserto australiano. O caminho é marcado por discussões, perrengues e surpresas. Priscilla é o apelido do ônibus no qual elas viajam, cuja parte posterior traz a seguinte inscrição: “Entrada traseira permitida”.
Tudo é primoroso em “Priscilla”: os figurinos coloridos e criativos, a iluminação com milhões de pontos de leds, as soluções técnicas (como uma esteira no chão do palco que se torna um grande curinga), os cenários (cujo destaque é um ônibus de oito toneladas), as tiradas espirituosas do texto e as músicas. Tem até chuva de papel picado.
Mesmo com o acidente de Danielle Winitz e Thiago Fragoso em “Xanadu”, o cabo de aço não perdeu espaço no meio musical. Pelo jeito, é tendência. Em “Priscilla”, as cantoras Simone Gutierrez, Priscila Borges e Lívia Graciano fazem suas aparições de divas por cima, sempre sustentadas por cabos de aço.
O elenco – formado por 28 pessoas, entre atores, cantores e bailarinos – conta com nomes de peso como Saulo Vasconcelos (desta vez reles coadjuvante) e Simone Gutierrez (a baixinha de “Hairspray”), mas as grandes surpresas são André Torquato e Ruben Gabira.
Ambos fazem parte do trio de protagonistas, que tem ainda Luciano Andrey.
André Torquato hipnotiza. Aos 18 anos, canta e dança como se tivesse 52 e é o carisma em pessoa. Uma busca rápida na internet revela que ele integrou o elenco dos musicais “Gypsy” (no qual dava show de sapateado), “A Noviça Rebelde” e “As Bruxas de Eastwick”, mas Felicia/Adam é seu primeiro protagonista.
A cena em que ele surge em cima do ônibus num salto prateado gigantesco – cuja extensão desliza sobre as primeiras fileiras da plateia – é sensacional.
André tem tudo para ser um dos principais nomes dos musicais no Brasil.
Ruben Gabira também impressiona como Bernadette, uma transexual mais “madura” que é praticamente uma sósia do cartunista Laerte na versão “crossdresser”. O ator tem 52 anos, mas mostra um vigor de 18. Ruben pode parecer um rostinho novo para quem é espectador de musicais, mas está na pista há muitos anos. Ele integrou o elenco de “Chico Total” e morou em Viena (Áustria) por 12 anos, onde participou de alguns musicais.
No repertório, clássicos como “I Will Survive”, “Like a Virgin”, “It’s Raining Men”, “Girls Just Wanna Have Fun”, “I Love the Nightlife” e “I Say a Little Prayer”.
Imperdível, imperdível, imperdível.

2012/05/10

EPOPEIA BRASILEIRA

Arquivado em: Cri-crítica — trezende @ 09:54

Vira e mexe Sílvio Santos lança a pergunta nos intervalos de seu “Roda a Roda Jequiti”: “Quem é o maior brasileiro de todos os tempos?”.
Quem ainda não tem candidato, este blog está fazendo boca de urna: votem nos irmãos Villas Bôas.
Se é injusto rotulá-los como os maiores que já existiram diante de tantos outros brasileiros importantes, suas histórias de vida mereceriam, no mínimo, o Troféu Imprensa.
Eles são os personagens principais de “Xingu”, com direção de Cao Hamburguer.
O filme estreia em momento mais do que oportuno. É provável que a intenção fosse levar o filme às telas em 2011 (quando completaram-se 50 anos da criação do Parque Nacional do Xingu), mas por razões que os cineastas conhecem muito bem, “Xingu” entrou em cartaz no mês passado.
Sem querer, o filme estreou em meio às polêmicas sobre a reformulação do código florestal brasileiro. Aliás, muitos dos que repetem como papagaio “Veta, Dilma” deveriam assistí-lo.
O principal serviço prestado por “Xingu” é nos tirar da ignorância. Ou alguém sabia que eram três e não dois os irmãos Villas Bôas? Além de Orlando e Cláudio, havia um terceiro elemento: o caçula Leonardo.
Orlando (Felipe Camargo) tem mais o perfil do chefe, do diplomata. Cláudio (João Miguel) é o idealista e Leonardo (Caio Blat) é retratado como “o irresponsável”. Após engravidar uma índia, os outros dois decidem dispensá-lo da expedição. Pouco tempo depois Leonardo morre, vítima de um ataque cardíaco.
Pode-se dizer que os irmãos Villas Bôas são os Pedros Álvares Cabrais do Brasil. Em 1944 alistam-se para participar de uma expedição pela região central do país por puro espírito aventureiro.
Pegam facões e cantis, vestem-se com botas e chapéus e saem em busca do desconhecido a bordo de botes construídos com troncos de árvores (essa é a ideia vendida pelo filme. Se existia alguma outra motivação para os três irmãos ela permanece oculta).
Uma vez estacionadas as caravelas, estabelece-se o contato com os índios. O estranhamento vira encantamento e tão logo começam a surgir os elos entre os dois, aparecem também os problemas, como um surto de gripe que mata quase toda uma aldeia.
“Xingu” mostra os irmãos Villas Bôas como pioneiros descobridores e não como colonizadores e heróis. Em 1952 eles apresentam o projeto de criação de uma reserva indígena, mas apenas nove anos depois o sonho sai do papel: em 1961 Jânio Quadros aprova a demarcação do Parque Nacional do Xingu.
“Xingu” foi filmado em quatro meses em condições inóspitas no centro-oeste do Brasil. As paisagens são belíssimas. Os atores Felipe Camargo, João Miguel e Caio Blat estão excelentes e há muita veracidade nas cenas envolvendo os índios e as locações (praticamente todas reconstruídas pela equipe). O único tropeço é querer contar 30 anos em duas horas.
Não percam.

Visitem o site do filme AQUI

2012/05/07

PAPO ARTIFICIAL

Arquivado em: Cri-crítica — trezende @ 08:06

Para uns, “Paraísos Artificiais” é só uma frase perdida numa das músicas de Marina Lima. Para outros, é o nome de um livro de Charles Baudelaire com ensaios sobre drogas de sua época: o ópio, o vinho e o haxixe.
Mas para Marcos Prado é o título de seu primeiro filme de ficção. Produtor dos dois “Tropa de Elite” e diretor do documentário “Estamira”, desta vez ele também é um dos roteiristas.
“Paraísos Artificiais” é daqueles filmes que vai fazer com que pais de adolescentes não durmam por uma semana. Ele mostra que, no fundo, nossa geração difere muito pouco da dos anos 60 e 70. O lema “sexo, drogas e rock and roll” sofreu uma alteração mínima: “sexo, drogas e música eletrônica”.
As roupas e a busca pela liberdade continuam, mas se a juventude do passado fazia a cabeça com maconha, cogumelos, LSD e ácido, a de hoje tem mais brinquedinhos nesse playground. Além de gota, doce e pó (GHB, ectasy e cocaína), há uma infinidade de siglas que representam substâncias com efeitos fulminantes.
Talvez a maior mudança de uma geração para outra seja o poder letal de tudo o que é consumido para alterar a consciência.
Marcos Prado afirmou em entrevistas que a ideia não era fazer apologia às drogas. Mas é o que o filme acaba fazendo. Apesar de mostrar os efeitos desastrosos que elas podem provocar, em “Paraísos Artificiais” elas sempre são consumidas por gente bonita em lugares idem (Amsterdã ou numa praia paradisíaca) e em situações de extrema alegria e celebração.
O cineasta disse também que as partes de sexo e nudez do filme são “como um grito contra a caretice e o puritanismo do cinema nacional”.
Pelo jeito Marcos Prado – apesar de trabalhar com cinema – tem prestigiado bem pouco as produções nacionais.
Só para citar um exemplo recente, “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” conta com cenas de sexo explícitas entre Camila Pitanga e Gustavo Machado. O filme ainda está em cartaz para quem quiser conferir. Sem falar da ousadia de Deborah Secco em “Bruna Surfistinha”.
Fato: justificar a nudez da mocinha da novela das seis com o argumento de ser uma voz contra o puritanismo e a caretice não colou. Talvez fosse menos hipócrita dizer que sexo sempre atrai mais público para as salas.
Aliás, desde os tempos em que Xuxa ainda era “Pixote” o cinema brasileiro nunca perdeu essa característica.
Os pontos altos de “Paraísos Artificiais” são a esplêndida fotografia de Lula Carvalho e o trio de protagonistas, que à exceção de Nathalia Dill é composto de novas caras.
A novata Lívia de Bueno está bem à vontade e convincente em sua estreia no cinema, bem como Luca Bianchi. Já Nathalia deixa em casa o lado “Santinha” e chama a atenção pela aparência morena e “estragada” que requer o papel de uma DJ.
A naturalidade demonstrada pelos três em cena se explica por uma fofoca: muito antes de trabalharem juntos no cinema Nathalia e Luca tiveram um rápido affair atuando numa peça teatral. Hoje Luca é namorado de Lívia.
A dica para assistir a “Paraísos Artificiais” é esquecer o papo artificial do diretor e embarcar no que o filme tem de filme.

2012/05/04

POBRE CRIANÇA GRANDE

Arquivado em: Cri-crítica — trezende @ 10:05

No próximo dia 5 de agosto completam-se 50 anos da morte de Norma Jeane Mortenson, conhecida no mundo como Marilyn Monroe.
Além de exposições que já estão em cartaz, é oportuna a estreia no Brasil de “Sete Dias com Marilyn”, que gerou grandes expectativas por causa da atuação de Michelle Williams – indicada ao Oscar e vencedora do Globo de Ouro de Melhor Atriz.
O longa não conta a trajetória de Marilyn Monroe. É o recorte de alguns dias de filmagem de “The Prince And The Showgirl”, em 1956, na Inglaterra, sob o ponto de vista de uma das pessoas da produção: o terceiro-assistente Colin Clark.
Na época, Marilyn estava em lua de mel com o então marido – o dramaturgo Arthur Miller, de “A Morte do Caixeiro Viajante” – e Colin era apenas um jovem de 23 anos recém-saído de Oxford que sonhava em trabalhar no cinema. Graças a seu empenho, consegue se tornar o terceiro-assistente do diretor Laurence Olivier.
O filme é tão frágil quanto Marilyn, mas acerta em não se alongar demais no vazio. Em uma hora e meia conta a relação de amizade (colorida) que se estabelece entre Colin Clark e Marilyn quando Arthur Miller viaja aos Estados Unidos para visitar os filhos.
É também honesto ao mostrar que por trás do mito há uma mulher viciada em remédios, irresponsável, inconsequente, carente, que causava inúmeros problemas à produção do filme e que precisava da companhia constante de uma “personal coach”, a “Fátima Toledo” Paula Strasberg.
A relação de Paula com Marilyn é quase a de uma babá com uma criança. Insegura, Marilyn achava que não daria conta do recado. Para animá-la, Paula a incentivava com frases do tipo: “Pense nas coisas que você gosta, chocolate, Frank Sinatra…”.
Marilyn diz o tempo todo que gostaria de ser amada como uma garota normal e pergunta: “por que todos que eu amo me abandonam?”.
Michelle Williams guarda semelhanças físicas impressionantes com Marilyn, mas lhe falta a sensualidade que a personagem requere. Scarlett Johansson – que recusou o papel – seria realmente a melhor opção.
Já a escolha de Dougray Scott para viver Arthur Miller é perfeita. Dougray é tão parecido com Miller que parece o dramaturgo reencarnado.
O epílogo revela que após o filme Colin Clark vira assistente pessoal de Laurence Olivier e consequentemente um documentarista de sucesso tanto na TV como no cinema. Depois que se aposenta, na década de 80, Colin escreve os dois livros no qual o filme é baseado: “Minha Semana com Marilyn” e “O Príncipe, a Corista e Eu”.
No elenco estão ainda Kenneth Branagh (como Laurence Olivier), Judi Dench e Emma Watson (a eterna Hermione, da saga “Harry Potter”).
Suave e inofensivo como Marilyn.

2012/04/29

NOS OLHOS DE QUEM VÊ

Arquivado em: Cri-crítica — trezende @ 10:00

A atriz Zezé Macedo tinha motivos para ser a mais infeliz das criaturas. Não pela feiura, que se tornou sua marca registrada, mas porque sua vida foi pontuada por acontecimentos chocantes.
O pior deles acontece aos 18 anos, quando perde seu bebê num episódio que deixa traumas permanentes. Com poucos meses de vida o bebê cai do colo da sogra de Zezé e morre em decorrência de um traumatismo craniano. O choque é tão grande que após um grito desesperado a atriz perde a voz por alguns dias. Ao retornar, a voz apresenta o tom esganiçado que conhecemos.
Esse é um dos episódios do espetáculo “A Vingança do Espelho”, que tem Betty Gofman no papel principal e direção de Amir Haddad.
Os fatos não são narrados cronologicamente, então o autor Flávio Marinho optou por um recurso altamente didático: ele usa a atriz que interpreta a loura burra como alter ego da plateia. É ela quem faz as intervenções e colocações que eventualmente estão na cabeça do público. “Quem é Zezé Macedo? Aquela do ‘só pensa naquilo’?”.
O didatismo se escora também na intensa movimentação e troca de papéis entre os atores, na interação com a plateia e nos recursos de vídeo, texto, áudio e figurino para apresentar a atriz a quem só a conheceu por Dona Bela.
A peça deixa bem claro que Zezé não pensava só naquilo (na TV, no caso). Além de uma passagem pelo rádio, fez mais de uma centena de filmes na época da chanchada e ganhou um Kikito no Festival de Gramado por “As Sete Vampiras”.
Nascida em Silva Jardim (interior do Rio), Zezé sonhava em ser atriz desde a infância. Depois da tragédia com o bebê ela abandona o marido “rústico” e parte para o Rio de Janeiro em busca do sonho.
Não foi fácil. Durante 20 anos ela viveu de bicos. Foi escriturária, assistente de um professor de Química e Física, trabalhou numa pensão e foi secretária de Dias Gomes na Rádio Tamoyo. Paralelamente a tudo isso, nunca deixou de escrever poemas – aliás, foram eles que a levaram ao cinema.
Ah, a feiura. Em 90% das cenas são mencionadas as palavras “feia” ou “feiura”. Há uma ênfase constante na ótima autoestima de Zezé. No entanto, a atriz recorria a cirurgias plásticas a cada dois anos. Justificava-se com o argumento de que sempre era convidada para viver personagens mais novas.
Betty Gofman está na medida e desperta simpatia com sua voz e trejeitos caricatos. Mas o destaque é o ótimo Mouhamed Harfouch, que faz o papel de diretor.
O problema de “A Vingança do Espelho” é que ela resvala em alguns dos clichês que condena: a atriz “bonita” (Marta Paret) interpreta a bonita; Betty Gofman – que não é exatamente um modelo de beleza – faz a feia; Marcelo Varzea (quem?) é o coadjuvante frustrado; e a Tadeu Mello – o genérico do “Trapalhão” Zacarias – cabe fazer gracinhas.
Outro problema é que a peça termina e começa uma série de vezes. Nem a movimentação entre o elenco e as constantes trocas de figurino aliviam o cansaço das duas horas de espetáculo.
Não é uma peça que mereça o Prêmio Shell ou o APCA, mas é uma boa diversão.

2012/04/27

NOTÍCIA DO DIA

Arquivado em: Cri-crítica — trezende @ 09:13

O título é lindo: “Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios”.
Apesar do nome romântico e suave, o filme é pauleira.
A primeira pista é que a direção é de Beto Brant, o mesmo de “Os Matadores” e “O Invasor”.
A segunda é que baseia-se no livro homônimo de Marçal Aquino – autor de “O Invasor” e de outros títulos tão brandos quanto, como “Cabeça a Prêmio” e “O Amor e Outros Objetos Pontiagudos” (ganhador do prêmio Jabuti em 2000).
A conclusão parece, portanto, óbvia: a alegria não reina e o final não é feliz.
Camila interpreta Lavínia, uma garota de programa drogada que é tirada da marginalidade pelo pastor Ernani (ZéCarlos Machado). Graças à missão do marido, que é transferido pela igreja, Lavínia também abandona o Rio e passa a morar numa cidadezinha no interior Pará, onde vê sua vida de regenerada mudar ao conhecer o fotógrafo Cauby (Gustavo Machado).
Narrado de forma não linear, “Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios” é marcado pela tensão. Os personagens não riem, tudo é cinza e sujo, poucos são confiáveis (o personagem de Gero Camilo que o diga) e nem tudo é explicado com clareza – não se sabe, por exemplo, quem é Cauby ou como ele e Lavínia se conheceram.
Além da belíssima fotografia de Lula Araújo, o destaque é o trabalho dos atores, densos e tensos como a história pede.
Camila Pitanga passa boa parte do filme pelada. O desprendimento e a preparação de dois anos para viver a personagem parecem ter sido recompensados: ela faturou o prêmio de Melhor Atriz no Festival do Rio no ano passado.
Sobre a falta de roupa, ela declarou em entrevistas: “É um órgão feminino exposto, não considero difícil. Não tirei a roupa, mostrei a alma da personagem”.
Camila estreia na nudez, mas seu parceiro de cena, Gustavo Machado, já é especialista no assunto desde que subiu aos palcos, em 2000, com “Toda Nudez Será Castigada”.
“Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios” não é uma notícia boa. Nem má. É apenas uma notícia. Confiram.

2012/03/08

ORA PRO NOBBS

Arquivado em: Cri-crítica — trezende @ 09:12

A atuação de Glenn Close em “Albert Nobbs” é para matar de arrependimento os que apostavam que ninguém seria capaz de tirar o Oscar de Meryl Streep.
O remorso se torna ainda maior porque Albert Nobbs é o papel de sua carreira. Dificilmente a atriz encontrará outro que tenha sido tão onipresente em sua vida.
A personagem a acompanha desde 1982, quando ela estreou como Albert Nobbs no circuito off-Broadway e recebeu o “Obie” – prêmio criado pelo jornal “The Village Voice” para contemplar grupos de teatro e artistas de Nova York.
Foram 15 anos de trabalho para conseguir levá-lo às telas. Além de dar vida ao protagonista, Glenn Close ajudou a escrever o roteiro, redigiu a canção original, produziu o filme e, de quebra, pegou pneumonia durante as filmagens.
Sonho realizado, veio o reconhecimento: a indicação ao Oscar. A sexta, após 24 anos. E a sexta derrota. Sorry, Glenn Close.
Grande parte das críticas são simpáticas à atuação da atriz, porém impiedosas com o filme. Mas “Albert Nobbs” não é ruim. Pelo contrário, é superior a “A Dama de Ferro”, que se limita a narrar a trajetória de Thatcher sem grandes invenções de roteiro.
Baseado num conto do escritor irlandês George Moore, “Albert Nobbs” conta a história de um homem infeliz, excêntrico e solitário que trabalha como mordomo num hotel em Dublin, no século 19.
No entanto, Albert não é bem o que parece. Na verdade, ele é uma mulher marginalizada que se esconde por trás de roupas masculinas desde a adolescência. O travestimento foi a saída encontrada para apagar uma vida sem raízes e se reinventar ou existir como pessoa. Albert chega a ter sonhos, mas até eles são contidos, aprisionados e calculados – literalmente.
Com a ajuda de uma maquiagem perfeita, a atriz dá um show. Não só de aparência, mas de voz, de gestual, de legitimidade.
Além da indicação de Glenn Close, o filme do diretor Rodrigo García concorria a mais dois Oscar merecidos: maquiagem e atriz coadjuvante (Janet McTeer). Infelizmente todos saíram de mãos abanando.
“Albert Nobbs” é triste, contido, sem final feliz e, por fim, subestimado até pelo circuito cinematográfico (está em cartaz em poucas salas).
É praticamente uma obrigação prestigiá-lo.

2012/02/27

DESPERATE HOUSEWIVES

Arquivado em: Cri-crítica — trezende @ 09:37

A força de “Histórias Cruzadas” está no fato de ser baseado num caso real. O livro no qual ele inspirou-se (“The Help”) foi rejeitado 60 vezes por várias editoras até ser publicado. Quando finalmente chegou às livrarias, tornou-se um sucesso e permaneceu por semanas na lista dos mais vendidos do “The New York Times”.
Como filme é apenas correto. O diretor Tate Taylor optou por não correr riscos e não se aprofundar em detalhes históricos. Preferiu contar uma história linear narrada em off pela protagonista, expor os dramas das personagens e mostrar que a redenção vem pela superação.
A história se passa no início dos anos 60, no Mississipi, no auge da segregação racial.
Depois de cursar a universidade, Skeeter (Emma Stone) volta para sua cidade natal, Jackson. Mas ao contrário de suas amigas não planeja fisgar um marido e cuidar dos filhos. Pensa em fazer a diferença.
Determinada a tornar-se uma jornalista, ela decide ouvir (e publicar) as histórias das empregadas negras da cidade oprimidas por relações de trabalho preconceituosas e baseadas em leis absurdas.
Certas cenas são tão inimagináveis que parecem ficção. Mais inacreditável ainda é pensar que aconteceram há menos de 50 anos.
Uma situação que o filme faz questão de sublinhar é que negros não podiam usar os mesmos banheiros que os brancos.
Havia até uma lei que orientava a conduta dos não-brancos e outras minorias no Mississipi. Quatro artigos são lidos por Skeeter:
“I – Nenhuma pessoa deve exigir que mulheres brancas sejam tratadas em enfermarias ou quartos onde homens negros estejam internados; II – Livros não devem ser trocados entre brancos e negros. Devem continuar sendo usados pela raça que os usou primeiro; III – Nenhuma barbearia negra deve ser usada por mulheres ou homens brancos; IV – Qualquer pessoa imprimindo, publicando ou circulando material escrito incitando a aceitação pública de igualdade social entre brancos e negros está sujeita à prisão”.
Felizmente as discussões sobre a questão racial evoluíram em muito pouco tempo.
“Histórias Cruzadas” é um filme feminino, mas não exclusivamente para mulheres.
As personagens têm personalidades completamente diferentes, mas que têm como ponto comum a força de vontade – tanto para o bem quanto para o mal.
Há as empregadas sofredoras que cuidam dos filhos das patroas (Viola Davis e Octavia Spencer); as jovens ricas e hipócritas da sociedade conservadora; a garota que apesar de pertencer a este grupo não é fútil como as amigas (Emma Stone); e a maluquete perua (Jessica Chastain).
Deixem que falem de Viola Davis, porque “Histórias Cruzadas” é de sua coadjuvante: Octavia Spencer. Ótima. Mereceu o Oscar.

E para começar o ano, nada como encerrar o post com uma frase dita pela guru de Skeeter, Constantine: “Todos os dias, quando acorda de manhã, você tem que tomar decisões. Tem que se perguntar: ‘Vou acreditar em todas as coisas ruins que os tolos vão dizer sobre mim hoje?’ (…) Você tem que fazer algo grande da sua vida. Espere e veja”.

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