O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2012/06/07

EU, TU, ELES

Arquivado em: Mentes brilhantes — trezende @ 09:52

Se os chavões não fossem verdadeiros eles não existiriam. Peguem, por exemplo, o ditado “De médico e louco todo mundo tem um pouco”. Certamente.
Pessoas como a artista paulista Ana Teixeira é uma das que validam esse clichê.
Formada pela Escola de Comunicações e Artes da USP ela desenvolve uma série de ações/intervenções urbanas únicas. E sensacionais.
Numa de suas ações ela se propõe a ouvir histórias de amor. Tudo o que ela precisa é de um tricô nas mãos, duas cadeiras e a plaquinha “Escuto histórias de amor”. Sentada e tricotando, Ana aguarda voluntários. Ela não cobra pelo serviço, não dá opiniões, não faz perguntas e não explica por que está no local – que geralmente é um ponto de grande circulação de pessoas em São Paulo. Apenas ouve.
A “audição” vem sendo feita desde 2005 – e não se restringe ao Brasil. Ana já escutou histórias de amor em nove países.
São milhares de casos – tanto que o tricô vermelho que ela tece durante a ação já alcança sete metros de extensão.
Para todos os lugares em que realizou o trabalho Ana levou plaquinhas na língua do país. “Eu não falo alemão, francês ou italiano. Só espanhol e inglês. Então quando a pessoa começava a contar e percebia que eu não entendia, mudava para o inglês. As pessoas querem ser ouvidas”, conta ela.
A artista não revela que história mais lhe chamou a atenção. “Não é esse o objetivo do trabalho”, diz ela. Mas conta que foi no Chile que ouviu as mais lindas.
Outra ação de Ana Teixeira é “Troco Sonhos”, realizada entre 1998 e 2006. Nesta, Ana montava a banca e colocava a placa: “Troco sonhos – aceito todos os tipos: dourados, esquecidos, abandonados, vivos, mortos, presentes ou enterrados”. Sobre barraca, uma bandeja de minissonhos.
Para cada pessoa que se aproximava, Ana propunha a troca de um sonho comestível por um sonho pessoal.
Ao contrário das histórias de amor, cujos conteúdos a artista não revela, nesta ação todos os depoimentos foram gravados em vídeo e deram origem a um filme com dez minutos de duração. Foram mais de 6 mil sonhos.
Uma das ações urbanas de Ana teve um desdobramento inusitado. Durante a realização de “Outra Identidade” Ana Teixeira foi presa.
Neste trabalho o objetivo era oferecer aos passantes uma outra identidade. Ana também instalava sua banquinha num local com bastante circulação e produzia – gratuitamente – cédulas de identidade muito semelhantes às usadas por qualquer cidadão.
No lugar das informações como nome, número do registro ou local de nascimento, ela carimbava na cédula uma das frases de seus carimbos: “Eu falo mentiras”; “Não faço sentido”; “Ainda tenho tempo”; “Queria menos de mim às vezes”; “Tenho sonhos”; “Não sei de mim”; “Não tenho certezas”; “Adoro falar sozinho” e “Amo e não basta”.
Bastava o interessado em trocar de identidade escolher uma das frases e deixar sua impressão digital no “livro de registros” de Ana. Nenhuma das pessoas deixava o nome ou quaisquer informações.
Certa vez, na feira do Bixiga, em São Paulo, uma mulher estranhou a proposta e chamou a polícia. Ana teve de entrar no camburão e foi parar na delegacia, onde ficou por três horas.
A ação “Outra Identidade” – realizada entre 2003 e 2010 – distribuiu mais 800 “identidades”.
Médica ou louca? Médica e louca. Todo mundo tem um pouco.

Confiram fotos das ações de Ana Teixeira AQUI

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