O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2012/06/02

REFEIÇÃO INDIGESTA

Arquivado em: Matutando — trezende @ 10:12

Observar um almoço do pessoal da firrrma é a melhor maneira de comprovar o quanto a intimidade pode se tornar invasiva.
É fácil e óbvio identificar o grupo: eles chegam em bando, falando alto e escolhendo – até com uma certa polêmica – o local em que vão se instalar. Uma vez selecionado o ponto, deixam os crachás – e nunca seus smartphones – sobre a mesa para “guardar lugar”.
Enquanto se servem, aproveitam para papear em cima das travessas de comida. Quando um enche o prato com ovos de codorna, os outros gritam: “Aêê! É hojee!”. Na tentativa de disfarçar ou fingir que não entendeu a piada, o fanático dos ovos de codorna comenta: “É hoje que eu gasto todo o meu VR (vale refeição)”.
Graças à indecisão da maioria que cerca o bufê, a fila anda devagar. Nesta hora as clássicas piadinhas de almoço entram em ação: “Deixa um pouco do estrogonofe pra mim, hein”? ou “Pepino é bom pra memória”.
Enquanto aguardam para pesar o prato, começam os questionamentos e as cobranças: “Ué, não vai pegar arroz hoje?”; “Vai comer sobremesa hoje de novo?”; “Cê não gosta de salada?”; “Nossa, cê vai aguentar tudo isso?”; “Não vai por azeite no tomate?”; “Cê não põe o feijão em cima do arroz?”; “Nossa, cê vai comer tudo isso de alho? Não chega perto de mim hoje na reunião, hein?”.
Já outros – talvez para evitarem as perguntas – se antecipam nas justificativas: “Vou comer só um pouquinho porque ontem peguei pesado. Comi pizza à noite”.
Finalmente sentados, começam a sessão do descarrego. Entre conferidas no celular a cada cinco minutos, falam mal do chefe e dos colegas ausentes, contam vantagens, relatam planos para o final de semana, comentam sobre o amigo do amigo do amigo que fez MBA e que hoje trabalha no “Google” e eventualmente experimentam um pedaço do que quer que seja do prato alheio.
Almoçados, cometem a intimidade das intimidades: perguntar ao outro se está com uma folhinha de agrião ou uma casca de feijão entre os dentes.
Sim, a intimidade pode ser muito cruel.

P.S.: a clássica foto acima, de Charles C. Ebbets, chama-se “Lunchtime Atop a Skyscraper” (algo como “Almoço no Alto de um Arranha-Céu”) e foi tirada em 1932 durante a construção do Rockfeller Center.
Já imaginaram se cai o garfo?

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