O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2012/04/29

NOS OLHOS DE QUEM VÊ

Filed under: Cri-crítica — trezende @ 10:00

A atriz Zezé Macedo tinha motivos para ser a mais infeliz das criaturas. Não pela feiura, que se tornou sua marca registrada, mas porque sua vida foi pontuada por acontecimentos chocantes.
O pior deles acontece aos 18 anos, quando perde seu bebê num episódio que deixa traumas permanentes. Com poucos meses de vida o bebê cai do colo da sogra de Zezé e morre em decorrência de um traumatismo craniano. O choque é tão grande que após um grito desesperado a atriz perde a voz por alguns dias. Ao retornar, a voz apresenta o tom esganiçado que conhecemos.
Esse é um dos episódios do espetáculo “A Vingança do Espelho”, que tem Betty Gofman no papel principal e direção de Amir Haddad.
Os fatos não são narrados cronologicamente, então o autor Flávio Marinho optou por um recurso altamente didático: ele usa a atriz que interpreta a loura burra como alter ego da plateia. É ela quem faz as intervenções e colocações que eventualmente estão na cabeça do público. “Quem é Zezé Macedo? Aquela do ‘só pensa naquilo’?”.
O didatismo se escora também na intensa movimentação e troca de papéis entre os atores, na interação com a plateia e nos recursos de vídeo, texto, áudio e figurino para apresentar a atriz a quem só a conheceu por Dona Bela.
A peça deixa bem claro que Zezé não pensava só naquilo (na TV, no caso). Além de uma passagem pelo rádio, fez mais de uma centena de filmes na época da chanchada e ganhou um Kikito no Festival de Gramado por “As Sete Vampiras”.
Nascida em Silva Jardim (interior do Rio), Zezé sonhava em ser atriz desde a infância. Depois da tragédia com o bebê ela abandona o marido “rústico” e parte para o Rio de Janeiro em busca do sonho.
Não foi fácil. Durante 20 anos ela viveu de bicos. Foi escriturária, assistente de um professor de Química e Física, trabalhou numa pensão e foi secretária de Dias Gomes na Rádio Tamoyo. Paralelamente a tudo isso, nunca deixou de escrever poemas – aliás, foram eles que a levaram ao cinema.
Ah, a feiura. Em 90% das cenas são mencionadas as palavras “feia” ou “feiura”. Há uma ênfase constante na ótima autoestima de Zezé. No entanto, a atriz recorria a cirurgias plásticas a cada dois anos. Justificava-se com o argumento de que sempre era convidada para viver personagens mais novas.
Betty Gofman está na medida e desperta simpatia com sua voz e trejeitos caricatos. Mas o destaque é o ótimo Mouhamed Harfouch, que faz o papel de diretor.
O problema de “A Vingança do Espelho” é que ela resvala em alguns dos clichês que condena: a atriz “bonita” (Marta Paret) interpreta a bonita; Betty Gofman – que não é exatamente um modelo de beleza – faz a feia; Marcelo Varzea (quem?) é o coadjuvante frustrado; e a Tadeu Mello – o genérico do “Trapalhão” Zacarias – cabe fazer gracinhas.
Outro problema é que a peça termina e começa uma série de vezes. Nem a movimentação entre o elenco e as constantes trocas de figurino aliviam o cansaço das duas horas de espetáculo.
Não é uma peça que mereça o Prêmio Shell ou o APCA, mas é uma boa diversão.

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1 Comentário »

  1. Legal todas essa informações,todas muito interessantes

    Comentário por picida ribeiro — 2012/04/30 @ 14:04


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