O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2012/04/19

SANSÃO NÃO ESTÁ SÓ

Filed under: Folheando — trezende @ 08:16

O “Livro do Cabelo”, da jornalista, escritora e pesquisadora Leusa Araujo, é um tapa da cara de quem acha que cabelo é um assunto fútil restrito às desocupadas que frequentam o salão numa terça-feira à tarde e discutem temas como escova de chocolate ou cauterização.
O livro é de-li-ci-o-so e contextualiza o cabelo em diversos períodos históricos e em diferentes sociedades.
Segundo a autora, o cabelo deixa pistas valiosas em diferentes épocas e partes do mundo. Como ele não se decompõe facilmente graças à queratina e continua a crescer mesmo após a morte do indivíduo, o cabelo tornou-se símbolo de ressurreição para muitos povos.
“Esse ‘poder mágico’ fez com que inúmeros povos temessem os fios de cabelo quando separados da pessoa e acreditassem que mantivessem uma comunicação com o sobrenatural. Prova disso são os rituais de expulsão dos maus espíritos que acompanham o corte de cabelo nas sociedades tradicionais, o uso de fios nos feitiços e sortilégios e sua oferta nas promessas religiosas”, diz um dos capítulos.
O livro fala também sobre o xampu – uma invenção relativamente nova (do século 20).
Antes de existir esse poderoso detergente, a saída era “empoar” a peruca, ou seja, jogar uma nuvem de talco sobre os fios para que ele absorvesse a gordura do couro cabeludo (foto acima).
O talco – à base de polvilho ou pó do Chipre – era borrifado com a ajuda de alguém, já que o “empoado” precisava cobrir o rosto com um cone de papel para resguardar o nariz e impedir a aspiração no momento da aplicação. Os homens preferiam o tom branco. As mulheres, rosa, violeta ou azul.
Já as perucas nascem com um significado ritualístico ou cerimonial. Nas sociedades tradicionais há uma peruca para o casamento, para a guerra, para determinada festa ou comemoração. Numa tribo da Papua Nova Guiné, até hoje os jovens usam uma peruca especial no dia do casamento – feita com o próprio cabelo do noivo após dois anos de crescimento.
Muito tempo depois as perucas se tornam uma alternativa à calvície, na França, e aos poucos começam a ser utilizadas como ornamento pelas francesas. Algumas perucas tinham proporções arquitetônicas: chegavam a pesar cerca de oito quilos e eram sustentadas por armações de ferro tão altas que era necessário rebaixar o assento das carruagens. Algumas vezes elas recebiam adornos como pedras preciosas, fitas, flores e até legumes.
Leusa conta também da existência de um lugar curioso na Índia: o templo de Sri Venkateswara, na cidade de Tirupati, sul do país. Lá acontece uma peregrinação de fiéis (mais de 50 mil por dia) que oferecem seu cabelo ao deus Vishnu. Há 600 barbeiros oficiais para corte total das madeixas. O templo vende as aparas de cabelo e arrecada dinheiro. Resultado: é o mais rico do continente.
A origem da palavra “dreadlocks” também é interessante. Ela teria surgido nos tempos da escravidão e vem de “dreadful” (“horrível”, “pavoroso”), que era o estado apresentado pelos cabelos dos negros que chegavam nos navios negreiros após meses de viagem.
Por volta de 1860, nos Estados Unidos, surge uma elite mulata conhecida por “bonafide” que leva a discriminação interracial ao extremo.
Em algumas igrejas havia o “teste do pente”: um pente fino era pendurado na porta da frente. Cada pessoa que quisesse entrar tinha de passar o pente pelas madeixas. Se o pente deslizasse, a entrada na igreja era permitida.
Ricamente ilustrado, o “Livro do Cabelo” é imperdível.

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