O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2012/03/28

O HOMEM QUE NÃO ESTAVA LÁ

Filed under: Mentes brilhantes — trezende @ 10:28

As fotos são surpreendentemente chocantes – daquelas que nos demoramos alguns segundos observando.
Primeiramente nos concentrando na parte física e depois imaginando o sofrimento – físico e psicológico – da vítima.
Esse é Richard Lee Norris, um americano que em 1997 deu um tiro no próprio rosto e perdeu o nariz, os lábios e grande parte do movimento da boca. Depois da tragédia, viveu recluso durante 15 anos escondendo-se por trás de uma máscara e só saindo à noite.
Sua nova cara é resultado do mais amplo transplante de rosto já realizado. Foram 36 horas de procedimentos.
A cirurgia envolveu dez anos de pesquisas da Universidade de Maryland e investimentos da Marinha americana e servirá de modelo para ajudar veteranos de guerra feridos por explosivos no Iraque e no Afeganistão.
Taí a intervenção mais bizarra e impressionante que a Medicina já inventou – depois, é claro, das maldades feitas no rosto de Elza Soares.
Richard não era um homem exatamente bonito (foto 1). Comum, apenas. Depois do acidente passou por uma série de cirurgias, amargou uma fase Markito (foto 2) e mesmo com tanto estica e puxa seu rosto ficou perfeito. Exceto pelo zíper no topo da cabeça, poderíamos jurar estarmos diante de um lutador de MMA pós-embate com Junior Cigano.
Curiosamente Richard ganhou um rosto, mas não um perfil. É como se sua face não tivesse pátria. É um ele que não está lá; um perfil sem identidade. José Dirceu saberia explicar isso melhor.
Richard deve estar muito feliz por poder sair de casa, mostrar seu rosto, fazer careta, aparar a barba, se olhar no espelho. Por outro lado, apagou o passado até das coisas boas. Se encontrar um velho amigo não será mais reconhecido – o que pode ser uma ótima pedida em certos casos. Estará protegido dos duas caras, dos caras de pau. Fará apenas uma cara de tacho e seguirá adiante.
Ganhar um rosto é diferente de receber um fígado, uma córnea, um coração novo. É – paradoxalmente – uma mudança muito mais profunda. Nessse caso, o risco de rejeição independe do órgão transplantado. A rejeição maior reside em sua própria cabeça.

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4 Comentários »

  1. É sempre agradável a leitura dos seus textos.
    Parabéns !!!

    Comentário por Meiry — 2012/03/28 @ 12:57

  2. “Todo homem nasce original e morre plágio” (Millôr Fernandes, gênio da raça)

    Comentário por Joubert — 2012/03/28 @ 16:25

  3. EXCELENTE reflexão, Tati! Citar a Elza Soares dentro deste contexto foi impagável! Beijos.

    Comentário por Vaninha — 2012/03/29 @ 09:46

  4. Delicioso texto, mesmo quando se trata de um assunto tão chocante,( embora toda a história seja consequência de seu próprio ato.Não conseguimos escapar das consequências de nossos atos, sejam elas boas ou ruins)
    Bernadeth Rocha

    Comentário por bernadethrocha — 2012/03/29 @ 16:00


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