O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2012/02/07

O AMOR É AZULZIM

Arquivado em: Diário de bordo — trezende @ 11:08

Ele já ficou famoso internacionalmente, mas como nossos melhores artistas, foi preciso primeiramente fazer sucesso lá fora para ser reconhecido por aqui. E olha que tem muita gente que nunca ouviu falar do Instituto de Arte Contemporânea Inhotim, em Brumadinho.
Alcançar Inhotim é quase uma expedição. Localizado a 60 quilômetros de Belo Horizonte, o acesso se dá a partir de uma estradinha que tem de ser compartilhada com inúmeros caminhões de minério. Mas o sacrifício compensa.
Inhotim vale pelo conjunto da obra e não pode ser reduzido apenas a uma galeria de arte ao ar livre com trabalhos de artistas plásticos de diversas partes do mundo. É também um parque e um jardim botânico maravilhosos. Um complexo de lagos azuis e um centro gastronômico com um restaurante delicioso (o Tamboril). Uma tranquilidade estudada nos mínimos detalhes. Um oásis no meio do nada. Lindo, bem cuidado, organizado e atencioso.
Cerca de 800 funcionários cuidam para que nada saia do script.
O Inhotim é ideia do empresário Bernardo Paz, que a partir dos anos 80 começou a reunir obras de arte contemporânea em sua propriedade particular. Foi só em 2006 que o instituto abriu as portas ao público.
Bernardo ainda é um dos maiores financiadores, mas o Inhotim conta com a ajuda de inúmeros patrocinadores e em 2008 foi reconhecido pelo governo mineiro como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP).
O nome Inhotim não foi dado por causa de nenhuma origem indígena. Reza a lenda que naquela região residia um inglês chamado Timothy, mais conhecido como “Tim”. Para facilitar, os moradores se encarregaram de traduzir para o mineirês e ele virou simplesmente o “Nhô Tim”.
A casa habitada por Nhô Tim e por outros mineiros sobrevive até hoje. Reformada, atualmente é uma obra da artista Rivane Neuenschwander.
Cada galeria é dedicada a um artista. Algumas são impressionantes, como a do fotógrafo Miguel Rio Branco – que mais parece um navio gigantesco atracado no meio da mata – e a de Adriana Varejão, com três andares e um belíssimo espelho d’água na entrada.
Fora toda a magnitude das galerias, há várias obras espalhadas pelos jardins, como a de Paul McCarthy (isso mesmo, um genérico do ex-Beatle) e homens-elástico de Edgard de Souza.
Até o que parecem ser inocentes bancos de madeira são trabalho do designer Hugo França.
Uma das “obras de jardim” mais interessantes é a do inglês Simon Starling, que virou um veleiro de ponta-cabeça. A embarcação fica lá em cima, sustentada pelo mastro preso ao chão.
A obra seria apenas um barco de ponta-cabeça não fosse o excelente trabalho dos guias do Inhotim, que nos explicam que “The Mahogany Pavillion” é uma espécie de protesto do artista. Ele usa um veleiro que é produzido na Escócia, mas com o mogno da América do Sul. Traz o veleiro de volta ao seu lugar de origem e o expõe invertido, transformando-o numa estrutura arquitetônica cuja forma faz referência a uma árvore, estágio anterior da madeira.
De forma muito interessante, ele faz o repatriamento da madeira que nos foi “roubada” e ainda a transforma em obra de arte.
Graças a Inhotim cheguei à conclusão de que qualquer um de nós pode ser um artista contemporâneo. Não é preciso ter nascido necessariamente com um dom. Basta criar algo absurdo e sem sentido – na visão dos outros, claro. O segredo está em encontrar uma explicação convincente e inteligente para o que inventamos. Definitivamente trata-se da arte de conceituar.
O passeio entre jardins e galerias é agradabilíssimo. Quem se cansa com facilidade conta com uma ótima opção: carrinhos de golfe realizam o transporte até as galerias mais afastadas (cerca de 1 km de distância da recepção). O serviço custa R$ 10.
A caminhada é o momento ideal para conhecer plantas com denominações como “coração apertado”, cuja folha tem quase o formato de um coração, mas com uma parte rasgada – “como o peito dos apaixonados”, explica a guia.
A surpresa é que o projeto paisagístico não é de Burle Marx. A marca do famoso paisagista está presente nos jardins através de sua influência como amigo pessoal de Bernardo Paz. Ainda que o projeto não seja dele, algumas características “marxianas” podem ser observadas, como a preferência pelo uso de “maciços” (plantas de várias espécies reunidas).
Inhotim é um lugar mágico. A água dos lagos – habitada por peixes gigantescos, gansos e outras aves – é de um azul magnífico. A questão é que ela é tão natural quanto nota de três reais. Como a região é cercada por montanhas ricas em minério – devidamente exploradas –, as águas são alaranjadas de tão barrentas.
Para transformar o laranja em azul, o Inhotim tem à disposição uma equipe à la David Copperfield que opera a mágica do corante Lagoa Azul. Sério.
Biodegradável, o corante é jogado nas águas dos lagos cerca de uma vez por semana. O resultado é o lago “azulzim”.
Gal Costa tinha razão: o amor é “azulzim”.

Vejam algumas fotos AQUI

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4 Comentários »

  1. Já tinha lido materias sobre esse local, mas nada tão claro assim.
    Que lindo! Lindo o parque, lindo seu texto, lindo o gesto de um cara rico em gastar seu dinheiro com algo assim.

    Comentário por picida ribeiro — 2012/02/07 @ 14:10

  2. Ai, Tati, me deu uma saudade de Inhotim! Realmente, é um lugar mágico, onde arte e beleza se encontram harmoniosamente. AMEI as fotos! Beijos.

    Comentário por Vaninha — 2012/02/07 @ 14:59

  3. Inhotim está no meu roteiro há algum tempo, Tati. Quanto mais leio sobre ele e ouço suas entrevistas, mais quero conhecer. Não tardará.

    Beijocas!

    Comentário por Selma Barcellos — 2012/02/07 @ 18:12

  4. Rola alguma Brooke Shields nestas lagoas azuis do Inhotim?

    Comentário por Ricardo Rezende — 2012/02/07 @ 21:16


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