O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2012/01/23

SE JESUS CHAMOU, EU NÃO OUVI

Filed under: Diário de bordo — trezende @ 09:01

Como em toda cidade turística, há o Rio de Janeiro do cartão-postal e a versão realidade, aquela em que os bueiros explodem e os meninos de rua confiscam até o refrigerante de um turista distraído.
Esse Rio de Janeiro inédito para uma boa porção de visitantes é o nosso tema de hoje.
Inédito porque raros são os dispostos a deixar de lado a praia, a magnífica paisagem da Lagoa ou a badalação noturna do Leblon para conhecer um lugar quente, abafado, com música alta e comida para cabra macho. Assim é o Centro Municipal Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas ou Feira de São Cristovão, para os íntimos.
Um destino pouco aconchegante e bonito, mas indispensável para quem quer conhecer a autêntica cultura popular nordestina em pleno sudeste ou saborear o lendário Guaraná Jesus sem precisar ir ao Maranhão.
A feira é frequentada basicamente pelo povo da terrinha e é uma mistura de praça de alimentação a céu semiaberto, mercado e centro cultural localizado no longínquo bairro de São Cristóvão. Turistas mesmo, poucos. Cearenses, cariocas, maranhenses, paulistanos, curitibanos ou gringos, todos pagam R$ 3 para adentrar essa Disneylândia nordestina.
Lá vê-se e vende-se de tudo: CDs, roupas, cortes de carne, guloseimas e objetos comestíveis não-identificados, entre eles, peixes secos e salgados arrumados no arame ou peixes que boiam em conservas para lá de suspeitas em latas abertas.
É também o cenário perfeito para dar gafes ao mirar um bolo alto (e aparentemente pouco macio): “Não é bolo, é pão de Recife”, diz a vendedora.
Mas nem tudo na feira é “Jesus me chama”. Há tentações como o bolo de rolo, castanhas dos tipos mais variados, rapaduras, uma ou outra tapioca, queijo coalho, manteiga de garrafa e imensos queijos furadinhos. Nem a informação dos especialistas de que queijo furadinho é indício de contaminação por bactérias é capaz de impedir a água de brotar da nossa boca.
Tão ou mais difícil do que descobrir o que são certas guloseimas e ingredientes é entender por que lá todos gostam de música alta. Muito alta. Ensurdecedora.
Cada barraca funciona como um mundo à parte e tem seu próprio sistema de som. Ganha quem colocar o som mais alto e atrair mais dançarinos.
A sensação de passear entre as vielas de barracas é a mesma de mudar o dial de uma rádio FM popular.
Há pouquíssimo artesanato, mas a música tem espaço garantido. Além de um grande palco para shows de cantores e bandas de forró, existem pequenos núcleos para apresentações de repentistas e bandas menores.
A literatura de cordel – uma das características mais marcantes da tradição cultural nordestina – só não passa batida graças à presença de Mestre Azulão.
Aos 83 anos, ele fica em pé ao lado de uma espécie de carrinho de pipoca que expõe seus livrinhos como num varal. Vez ou outra joga conversa fora ou declama alguns de seus cordéis para quem se interessar.
A obra do Mestre acolhe assuntos sérios e populares, como mostram os títulos “O Poder que a Bunda Tem”, “Terror nas Torres Gêmeas”, “As Grandes Aventuras de Armando e Rosa ou Coco Verde e Melancia” e “CPI, Mensalão e Ratos Brasileiros”.
Pequenino, tem orgulho de dizer que já fez inúmeras viagens internacionais, subiu “lá em cima, no último andar das Torres Gêmeas” e deu aulas de Literatura Brasileira na Sorbonne.
Outro cenário perfeito para mais uma gafe. Logo na chegada:
– “O Mestre Azulão é vivo ainda?
 – “Ué, sou eu”.
Depois dessa, o jeito é refrescar a cuca do Sol de 36º com um Guaraná Jesus bem geladinho. Apesar da cor da lata, a bebida tem aparência de guaraná comum, mas com gostinho de chiclete.

Vejam algumas fotos AQUI

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3 Comentários »

  1. Gostou de Mestre Azulão, né, minha Tati preferida? Ele é um “plus a mais” na FSC…

    Beijocas!

    Comentário por Selma Barcellos — 2012/01/23 @ 13:53

  2. Cartão postal para 2014.

    Comentário por Juventino — 2012/01/23 @ 17:04

  3. Único motivo que me levou à Feira foi o videokê do Bazar da Cantoria. Ar condicionado, comidas tradicionais da nossa região mesmo e a chance de boas risadas!
    Mas não tenho tanta certeza de voltar. Prefiro ficar pela Quinta da Boa Vista comendo churros!

    Comentário por Gabriel Chacon — 2012/01/24 @ 01:00


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