O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2010/11/23

O DIA EM QUE FUI À LONA

Filed under: Diário de bordo — trezende @ 08:57

Sempre que observo os circos instalados à margem de avenidas pouco movimentadas de São Paulo acumulo pensamentos desprezíveis e alguns questionamentos. Que graça tem isso, meu Deus? Será que tem gente que ainda vai ao circo? Se encostar a mão numa dessas barras de ferro é tétano na certa. Já imaginou o sufoco que é passar uma tarde debaixo dessa lona num calor de 40 graus? E as pinturas desproporcionais que ilustram os trailers então? Que programa de índio.
Fácil reconhecer minha tríplice sensação de tristeza, nostalgia e desprezo por algo que está fadado a escafeder-se – e que não faria a menor falta. Mas identifiquei também que esses sentimentos teriam prazo de validade definido: este fim-de-semana.
No sábado decidi rever meus conceitos e encarei bravamente uma sessão do Circo Stankowitch.
A chegada foi literalmente um rito de passagem: da catraca de ônibus que dá acesso ao picadeiro, vislumbrei um telão de péssima resolução exibindo clipes da Cher para uma arquibancada vazia. Um frio me percorreu a espinha. Lembrei-me do letreiro lá fora – “Um show de circo –  170 anos de tradição!” – e pensei que alguma coisa esses “stankowitchs” teriam a me oferecer.
Transpus uma “praça de alimentação” que cheirava a pastelaria de rodoviária, observei o algodão doce sendo preparado na hora, fresquinho, e segui adiante – guerreira e engordurada.
Mas, cadê a boa e velha serragem para levantar poeira e causar alguns espirros? Mal formulei a resposta, me dei conta de que com a proibição dos animais nos espetáculos circenses a serragem perdera sua função primordial – a segunda sabemos muito bem: misturar-se ao suor de nosso pé e causar desconforto.
Sã e salva já debaixo da lona e tendo em mente o arroubo interativo do palhaço, tive receio de instalar-me nas primeiras fileiras ou em cadeiras próximas aos corredores. Infiltrei-me no meio das (poucas) famílias e temi pelo pior: se a plateia continuasse vazia, teria de rir das piadas do palhaço só para dar um alento ao coitado. E mais: teria de me fazer ouvir ao responder à pergunta do “Hoje tem marmelada?”.
Na espera pela abertura das cortinas, reparei nas pessoas, que com as bocas cheias faziam brilhar os olhos do dono do circo. Graças à profusão de pipocas, algodões doces, churros e apetrechos luminosos a R$ 10 quaisquer prejuízos de bilheteria estavam cobertos.
No fundo, invejei tamanha disposição da platéia em se divertir.
Tentando me distrair, fantasiei que a bacia enferrujada da qual saíam as nuvens de algodão que entupiam os estômagos dos petizes deve ter pertencido ao tataravô Stankowitch.
Também percorri os olhos pelos vendedores que circulavam entre as fileiras. Além de parecerem fisicamente bem-preparados, alguns deles usavam munhequeiras e calças de lycra sob o uniforme. Sim, eram artistas disfarçados de vendedores – ou vice-versa. Em poucos minutos alguns deles se despiriam da personalidade de “Tio da pipoca” para se transformarem no “Homem Alado”.
Senti pena deles. De todos eles. Quase comprei um algodão doce.
De repente, Cher ficou em silêncio, as poucas luzes que permaneciam acesas foram apagadas e uma voz em off forçando um sotaque russo avisou que o espetáculo estava para começar.
À medida que os números se sucediam, não foi só Cher que emudeceu. Tive de reconhecer a dedicação, o talento e a força de vontade da trupe, que sem luxo, mas com muita honestidade, apresentou um show emocionante.
Nada de elefantes, chimpanzés pilotando caminhõezinhos, águas dançantes, globo da morte, gente engolindo fogo ou palhaços repetindo chavões do tipo “Como vai? Como vai? Como vai?”. Em vez da pirotecnia, performances simples que deixaram claro que o mais importante é haver uma relação de quase hipnose entre artista e público. Soa piegas, mas é verdade.
Para que esse encantamento aconteça, o principal papel continua a ser o do palhaço – neste caso, moderno e supercarismático que não precisou se apoiar em quaisquer outros artifícios senão um nariz vermelho e um sapato à la Bozo. O resto ele faturou no gogó, na expressão facial e claro, no carisma.
Enquanto tentava identificar o “tio da Pipoca” no trapézio ou “o do algodão doce” nos malabares, novamente tive compaixão pelos Stankowitch e concluí que infelizmente hoje, para atrair público para o circo no Brasil, só sendo um Cirque du Soleil, um Circo Imperial da China ou apelando para a bizarrice – caso do Circo Pindorama, formado só por anões.
Aproveitem o próximo fim-de-semana para irem ao circo e comprarem um legítimo algodão doce. Ainda temos tempo.

Confiram algumas fotos AQUI

Anúncios

8 Comentários »

  1. De fato os caras são competentes e obstinados pra caramba.
    Quem diria… No final das contas, falar que esse país está um circo é um baita elogio.

    Comentário por Ricardo Rezende — 2010/11/23 @ 09:06

  2. Na minha infância, vivida no interior de Minas Gerais, a maior alegria possível era a chegada de um circo no local. Hoje, nas raras vezes que aparece um circo onde resido (Juiz de Fora), levo minhas filhas e tento repassar (e reviver) o entusiasmo da minha infância para elas. Mas não sou bem sucedido no meu intento. Reconheço o esforço da comunidade circense, mas a “magia” do circo acabou, inclusive para as crianças atuais. O mundo está realmente muito feio…

    Comentário por Joubert — 2010/11/23 @ 12:21

  3. Texto lindo que me faz parar para pensar e rever conceitos.
    Sou da geração quando circo era o máximo de diversão e entretenimento.
    NUma cidade do interior então, seu poder era de fato mágico.
    Depois passei a achar tudo meio sem graça
    Dia desses ate comentei: Céus, ele não percebem que acabou, que para geração de agora isso não conta mais?
    Aí vejo seu texto, realista e poetico (sim, porque não?)
    Tem gente ali, fazendo seu trabalho a serio, a maioria por profundo prazer e alegria simplesmente.

    Comentário por picida ribeiro — 2010/11/23 @ 14:16

  4. É….Infelizmente a magia do circo está chegando ao fim. Lembro que só fui a um circo com 40 anos. Fiquei embelezado. Vibrei. Bati palmas e ri muito das piruetas dos palhaços. Só quem acha que criança tem medo de palhaços é o Jô Sabe Tudo Soares. Meus filhos adoravam. Só não me interesso por esses “circos” inovados e com o preço alto do ingresso. Não vou.

    Comentário por Wilde Portella — 2010/11/23 @ 16:42

  5. Tudo tem seu tempo e sua época. Hoje quando falamos em circo lembramos rapidamente de política. As crianças quando olham um circo nas margens de avenidas empoeiradas e sem asfalto, lona rasgada, um isolado e velho elefante amarrado, aquele aromatizante churrasquinho de gato, não têm vontade de comer pipoca nem de graça.

    Comentário por Juventino — 2010/11/23 @ 19:31

  6. Tati, amei a narrativa. Li avidamente para saber se você mudara de opinião.
    Artistas de circo – os sem soleil – são abnegados, guerreiros, fazem tudo com paixão mesmo.
    Infelizmente, quem mora em Niterói tem trauma de circo… Contamos apenas com as lembranças de infância, a fantasia e textos adoráveis como o seu.

    Beijocas de fã.

    Comentário por Selma Barcellos — 2010/11/23 @ 22:46

  7. Puxa, Tati…
    Realmente merecem o nosso respeito esses abnegados artistas – que sobrevivem a muito custo, diga-se de passagem. Quando era pequeno adorava ir ao circo (alguém aí se lembra do “Orlando Orfei” ou o “Grande Circo Garcia”?) e só ficava invocado quando os animais apanhavam com aqueles chicotinhos irritantes dos domadores/treinadores. Meu pai chegou a levar meu filho mais velho e meus irmãos foram com meus outros dois; o impacto do circo sobre a geração internet já não é mais o mesmo.
    Grande abraço, mais uma ótima crônica!
    Adh

    Comentário por Adh2bs — 2010/11/25 @ 09:03

  8. Atrasado, mas não poderia deixar de palpitar…
    Belíssimo texto, Tatiana! Parabéns!
    Fiz o mesmo que a Selma Barcellos e, certamente, muitos outros: li com avidez para saber se você mudaria de opinião, e confesso minha alegria ao concluir a leitura.
    Lembro-me sim do Circo Garcia e de Orlando Orfei, além do Circo Vostok… Meu pai, do alto de seus 84 anos, sempre me conta que ia ao circo em sua infância, na “metrópole” de Aguaí (SP), para ver as apresentações dos já famosos Tonico e Tinoco! Numa época e local em que quase nem existia rádio!
    Lamento demais o descaso com que a sociedade, de um modo geral, trata esses estóicos artistas.

    Comentário por Eduardo Magera — 2010/11/26 @ 08:36


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: