O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2010/10/21

A POLÍTICA DO ARMÁRIO

Filed under: Absurdos nossos de cada dia — trezende @ 10:46

O debate envolvendo governo americano, Forças Armadas e homossexualidade está saindo do mundo das ideias – se é que algum dia esteve nesse nível – e se deslocando para o picadeiro.
Dias depois de uma juíza decidir pela suspensão da política do “Don’t Ask, Don’t Tell” –  que proíbe a exclusão de gays do Exército, mas impõe o silêncio –, os Estados Unidos voltam a restringir a entrada de gays assumidos nas Forças Armadas.
Até parece coisa de mulherzinha.
Ao lado de racismo e bullying, homofobia é um preconceito que sempre vai existir. Infelizmente. O que incomoda é a hipocrisia.
A regra que proíbe a presença de gays assumidos no Exército vem da época de Bill Clinton e reza que gays até podem servir como militares, mas correm o risco de serem expulsos se a orientação sexual deles for descoberta.
Um finge que não é, o outro finge que acredita e simbora pro Afeganistão.
O curioso é que após aceitarem a entrada dos soldados gays, o próprio Pentágono declarou que a decisão ainda poderia ser revertida. Não demorou nem um dia e três oficiais que haviam sido excluídos nos últimos anos reivindicaram a reincorporação.
E agora? Eles terão de entrar no armário de novo? Serão expulsos? Ou os colegas continuarão tapando o sol com a peneira?
Lady Gaga já comprou a parte que lhe cabe nesta briga. No meio do imbróglio, gravou um vídeo-mensagem ao Senado e participou de um comício no Estado do Maine pedindo que o governo anule a lei.
Se a ajuda da cantora vai se revelar útil à causa é um mistério. Os senadores que são contra o ingresso de homossexuais pensarão duas vezes depois de descobrirem que num dos clipes de Gaga – “Alejandro” – ela comanda um exército gay.
O tema gays no Exército foi bem representado no Brasil há cerca de dois anos, quando dois sargentos assumiram na capa da revista “Época” que mantinham uma união estável havia anos. “Eles são do Exército. Eles são parceiros. Eles são gays”. Esse era o título.
A chamada escandalosa da revista contribuiu para atiçar ainda mais a polêmica. Pouco tempo depois, a ruína: convidados do programa de Luciana Gimenez, um deles foi preso praticamente ao vivo pela Polícia do Exército porque desde sua expulsão era considerado desertor.
Na prática, a política do “Don’t ask, Don’t tell” também funciona por aqui.
Diversas questões vêm à cabeça diante deste assunto: um soldado gay é menos macho do que o outro? Não consegue dar conta do trabalho pesado? Que tipo de ameaça ele representa aos demais? Qual a diferença entre um coronel enrustido e um adepto do “Don’t Ask, Don’t Tell”? O Exército será menos respeitado se composto por gays assumidos? São motivo de vergonha para o país? Transformarão os ônibus militares em cenário para “Priscilla, a Rainha do Deserto”? Ou o medo é que eles troquem a bandeira americana pela bandeira do arco-íris?

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