O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2010/10/17

O NOVO MUNDO

Filed under: Matutando — trezende @ 11:32

Meu pai é um jovem senhor de quase 70 anos que está bem distante de apresentar qualquer traço de velho gagá ou de começar a inspirar os mesmos cuidados que um petiz em idade escolar.
Isso posto, passemos ao assunto que poderia sugerir que ele estivesse nesse processo de infantilização típico dos velhinhos que vão perdendo a noção das coisas.
Ontem, em diferentes momentos do dia, ele veio com questionamentos que, a princípio, até tentei formular uma boa resposta, mas depois – até por falta de averiguação científica – optei pelo caminho mais óbvio.
“Por que os homens continuam a nascer com mamilos se eles não têm utilidade? Por que as mulheres não usam mais combinação e anágua?”.
“Porque o mundo mudou”, respondi, como que ensinando a missa ao padre.
Na pergunta sobre a anágua, busquei na nossa influência europeia uma possível explicação para sua utilização pelas mulheres brasileiras de 50 anos atrás: “Sei lá, isso é resquício de nossa herança portuguesa. Na época do descobrimento do Brasil as mulheres ainda podiam perder tempo vestindo mil saias e outros apetrechos por baixo do vestido. Hoje, mal usamos saia. As que usam, saem até sem calcinha”.
Ele deu risada.
Já o mistério dos mamilos masculinos segue sem esclarecimento.
Mas nem a literatura de cordel é mais a mesma. Os temas – tradicionalmente relacionados aos costumes e tradições nordestinas com uma pitada de crítica social – também mostram que o mundo mudou.
O jornal “Folha de S. Paulo” de hoje traz uma reportagem sobre o que tem inspirado os cordelistas: o caso do goleiro Bruno, o de Isabella Nardoni e o do menino João Hélio.
Acompanhando o noticiário violento das grandes cidades brasileiras, os cordelistas têm retratado temas mais jornalísticos – ou mundanos.
Um deles, Isael de Carvalho, diz sobre a morte de Eliza Samudio: “Tudo que aqui foi escrito/ Já foi bem noticiado/ Minhas são somente rimas/ Nesse tema conturbado/ Investigação só cabe/ A quem é credenciado”.
Outro, Mestre Azulão, pôs em versos a morte da menina Isabella: “Lhe apertaram o pescoço/ Asfixiando Isabella/ Julgando que estava morta/ Com faca cortaram a tela/ Naquele horroroso drama/ Pisando em cima da cama/ Lhe atirou pela janela”.
De fato, soaria estranho se mesmo com as mulheres à solta, sem anágua, e com o bicho pegando nos morros cariocas ou no asfalto paulistano, os cordelistas ainda estivessem tratando da morte da bezerra.

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