O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2010/10/08

FREUD EXPLICA

Filed under: Matutando — trezende @ 09:42

Além dos prêmios Nobel, um dos assuntos mais comentados esta semana no Twitter foi a demissão, pelo “Estadão”, da psicanalista Maria Rita Kehl.
Traduzindo em miúdos, o castigo veio porque ela fez pipi numa área anteriormente demarcada por outro cachorro.
Em sua coluna de sábado, intitulada “Dois Pesos”, Maria Rita militou sem medo de ser feliz. Entre outros elogios ao governo, disse que o Brasil mudou e que “a Bolsa-Família proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos (…). E mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar por menos de um salário mínimo (…), hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições”.
Maria Rita diz que foi demitida por “delito de opinião”, mas o diretor de conteúdo do jornal negou que a saída dela tenha relação com censura.
Segundo ele, não houve demissão, mas o cumprimento de algo que já havia sido pensado. “O projeto original no caderno ‘C2 + Música’ é de ter ali, aos sábados, um espaço em torno da psicanálise. Um divã para os leitores”.
Mas, pelo visto, a coluna servia de divã para a própria psicanalista.
Constatação 1: Maria Rita foi de uma inocência sem fim. Caiu na besteira de fazer uma defesa apaixonada do voto do povão e do Bolsa-Família num jornal que há menos de um mês assumiu em editorial que está com José Serra e não abre.
Como psicanalista, mais do que ninguém, ela deveria saber que alguns pensamentos e opiniões devemos guardar só para os nossos botões – ou para o divã.
Constatação 2: o “Estadão” também foi de uma ingenuidade tocante. Mesmo furioso com o teor petista da coluna, poderia ter deixado a colunista em banho-maria por algumas semanas. Daria menos na cara. Claro que a imprensa tem seus interesses econômicos e políticos – negar isso é tão ineficaz como tentar enxugar gelo – mas a atitude só demonstra como o jornal foi precipitado.
Constatação 3: o “Estadão” sofre de crise de identidade. A demissão de Maria Rita não faz sentido até porque o jornal está sob censura da família Sarney há mais de um ano. Desde que publicou uma reportagem sobre a “Operação Boi Barrica” – que investigou Fernando, filho de Sarney – o “Estadão” está proibido de escrever uma linha que seja sobre o clã. Divã já!
Censura é tudo igual? Não. Algumas são mais iguais que as outras.

A coluna de Maria Rita continua no ar. Confiram AQUI

O post de hoje foi sugestão do leitor Fernando.

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11 Comentários »

  1. Minha querida amiga Tati,pois é, nem tudo são flores no sub-mundo do quarto “podre” poder. Na verdade, polêmicas à parte, eu nunca “gostei” muito do Estadão. Até o apelido cheira pelegismo.

    forte abraço

    C@urosa

    Comentário por caurosa — 2010/10/08 @ 10:02

  2. Tati, agradeço por acatar a sugestão.
    Só achei que você no post “Caça as Bruxas” foi muito severa com o meu presidente, por conta de algumas declarações sobre o papel da imprensa.
    No post de hoje “pegou leve” com o Estadão, usando expressões como “ingenuidade tocante” e “precipitado”, ao demitir a psicanalista. Abraço e bom final de semana para todos nós.

    Comentário por Fernando — 2010/10/08 @ 10:40

  3. É…
    Minha amiga,
    A crise da chamada grande mídia está braba, fazendo com que os donos do Quarto Poder fiquem desorientados.
    A ideologia golpista aliada ao medo de perder capital financeiro especulativo, de ganho fácil, faz com que não consigam viver em um Estado de Direito Democrático.
    Só conseguem viver em regimes de exceção.

    Comentário por Beth Muniz — 2010/10/08 @ 11:14

  4. POis eu achei que o texto está na medida certa.
    O fato ficou claramente exposto e as conclusões por conta de cada um.

    Comentário por picida ribeiro — 2010/10/08 @ 11:23

  5. Lucidíssima Tati:

    Ao entregar seu artigo, Kehl perguntou à editora do Caderno: “Tudo bem? Será que eles não vão pedir a minha cabeça?”.
    A articulista tinha noção do “delito”, segundo a opção política do jornal que a empregava.

    Ao ser indagada se achou que houve censura, foi clara: “A palavra censura não é boa. No meu conceito, censura seria você não pode escrever sobre isso ou aquilo, corta uma linha aqui, outra ali… O que o meu caso demonstrou é que o jornal não permite uma visão diferente da do jornal nas suas páginas.”
    Desejava “Dois pesos” em relação a seus artigos? Pedisse demissão tão logo o jornal definiu sua opção política.

    E o artigo, vamos combinar, é raso. Tomara seja melhor psicanalista. Papo furadíssimo esse de “desqualificação do voto dos pobres”. Queria ler algo dela sobre a declaração da cúpula desqualificando os 20 milhões de votos de Marina como “votos de estudantes chiques”.

    Mas prometo uma incursão pelo seu mais recente livro: “O Tempo e o Cão”. Sympathy for the Devil… Hope you guess his name.

    Beijocas!

    Comentário por Selma Barcellos — 2010/10/08 @ 12:22

  6. Opinião é opinião. Devemos respeitar. Mas temos que prestar atenção que Dona Dilma não é Lula. O receio é a volta do José Dirceu e outros mais. Espero que a presidente pense na sua ação de Governo.

    Comentário por Wilde Portella — 2010/10/08 @ 13:42

  7. Minha análise é simples: se a linha editorial do jornal é uma e a colunista vai para o lado oposto, nada mais justo que seja defenestrada. Será que a Carta Capital publicaria algo favorável ao candidato do PSDB?

    Comentário por Ricardo Rezende — 2010/10/08 @ 16:40

  8. Manda quem pode,obedece quem tem juizo.

    Comentário por Juventino — 2010/10/08 @ 17:20

  9. Considerando a linha político-ideológica do jornal, a demissão não é algo tão inesperado. Mas que a psicanalista tem toda razão ao tratar dessa desqualificação do voto dos pobres, isso tem mesmo. Ou será que os pobres de 1998 e 2002, que votaram em FHC e que, sob Lula, foram alçados acima da linha da pobreza, eram mais “qualificados” que os depauperados de hoje?

    Comentário por Eduardo Magera — 2010/10/08 @ 19:58

  10. Boa, Tati!
    Acho que o episódio explica um pouco o descontentamento generalizado com a mídia, todo mundo se queixando. Se o jornal, independentemente de sua própria opinião (no caso do Estadão finalmente assumida) aceita os colunistas, deve respeitar a opinião assinada deles, ué! Quanto a revista Carta Capital, se me permitem observar, sempre foi bastante crítica em relação ao governo, num tom de imparcialidade que, para ser ameno, vou dizer que não estamos acostumados. Apesar da declarada amizade do dono da revista com o presidente Lula. Outra coisa sintomática foi o evento do 2o. turno. A mídia (inclusive a CC) já estava dando a eleição por encerrada, mas esse caminhão capotou. Antes mesmo do último debate, já se percebia essa tendência nas ruas. Portanto, seria precipitado concluir que a publicação de pesquisas dando a eleição como definida não foi uma espécie de truque? Façam suas apostas.
    Abção,
    Adh
    Em tempo: mesmo tendo votado em D. Dilma, achei altamente positiva a ocorrência do 2o. turno, para refrear e colocar uma justa medida no entusiasmo do governo federal em fazer seu sucessor. Terá aí mais três semanas para provar suas teses.

    Comentário por Adh2bs — 2010/10/08 @ 20:58

  11. Bem, penso que na iniciativa privada vale o que o dono quer. Se a pessoa não se encaixa no perfil pretendido pelo empresário, nada mais justo do que ser demitida. Diferente é se falamos de governo, de serviço público: não existe se encaixar nesses casos, pois o interesse não é de uma pessoa, mas da nação!

    Comentário por Vaninha — 2010/10/10 @ 10:51


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