O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2010/09/02

FEIJOADA DA FORTUNA

Filed under: Diário de bordo — trezende @ 08:54

Uma frase sempre me intrigou durante a propaganda política de Geraldo Alckmin. Ao louvar o “Bom Prato”, uma das realizações de seu governo, ele diz: “Comida de qualidade, barata, por R$ 1”.
Ora, quem já passou pelo centro de São Paulo sabe que por esse preço não é possível comprar nem um churrasco-grego (R$ 2, Ki-Suco grátis).
Portanto, como estamos em época de decidir o nosso voto, resolvi conferir a veracidade da informação do tucano. Nesta quarta-feira tive meu dia de candidata em campanha almoçando com “populares” na unidade “Bom Prato” do Jabaquara.
O projeto é uma iniciativa conjunta do governo do Estado e de entidades assistenciais sem fins lucrativos e conta com 32 unidades em São Paulo, sendo 17 apenas na capital.
Ontem – seguindo a tradição da maioria dos botecos e restaurantes paulistanos –, foi dia de feijoada no “Bom Prato”. A iguaria acompanhava arroz, salada de couve e repolho, farofa e um pãozinho. Para refrescar a garganta com a umidade quase zerada em São Paulo, suco de limão. De sobremesa, em vez de picolé de chuchu, uma laranja.
E não é que lembra a comida da mama? Geraldo tinha razão.
A refeição tem em média 1.600 calorias e o preparo é monitorado por uma nutricionista. Tudo na mais perfeita higiene. Os funcionários encarregados de servirem os pratos usam toquinhas, máscaras, luvas e roupas brancas.
Mas o mais surpreendente da experiência – além de encontrar um feijão gostoso e bem temperado – é dar ouvidos aos comentários de quem aguarda na fila por uma senha.
Nestes minutos de fragilidade estomacal saem ótimas pérolas. Há desde a preocupação de um com a higiene (“eu como até mosca, mas cabelo não dá. E quando você começa a puxar e vem aquele fio bem longo?”) até a revolta de um velhinho boca-suja que promete: “Se hoje ela colocar só uns pedacinhos de carne, vou mandar ela enfiar o osso no c…”.
Entre aposentados, garis, tiazinhas ranzinzas, senhores com um “jeito Testemunha de Jeová de ser”, funcionários de estabelecimentos da região e alguns moradores de rua, uma senhora que desce pela porta da frente de um ônibus é quem transforma minha feijoada de R$ 1 na feijoada da fortuna.
Negra, gordinha, olhos vivos, com duas canequinhas amarradas ao pescoço, um pé num chinelo e outro envolto numa gaze, duas sacolas cheias de apetrechos e portando um turbante verde-e-amarelo enrolado na cabeça e outros acessórios da mesma cor espalhados pelo corpo, lá vem dona Marivone.
Mal se instala numa cadeira – “enfrento a fila numa boa, mas não aguento ficar em pé por muito tempo” – ouve um resmungo de um senhor porque havia se sentado na frente dele. E, arrastando-se para trás: “Pronto. Se seu problema é esse, já tá resolvido”.
Em seguida, na primeira piadinha sobre seu traje patriótico, ela lança: “não, não tem jogo do Brasil, meu filho. Mas você sabe que na semana que vem comemoramos a independência da nossa pátria? Vá aprender o Hino Nacional, ler e estudar um pouco e depois a gente conversa. Não tô falando? Essa quarta-feira promete”.
Frequentadora assídua de diversas unidades do “Bom Prato” na capital, dona Marivone nos informa que a ideia de servir comida a preços populares foi importada do governo de Anthony Garotinho por um já agonizante Mario Covas. Um presentão para o seu pupilo Alckmin.
Dona Marivone é capaz de transcorrer sobre a qualidade da comida ou sobre os rumos da política com a mesma naturalidade com que analisa o comportamento dos padres-pop como Marcelo (“ele é secular, não fez voto de pobreza, pode ter o que bem entender”) e Fábio de Melo (“se ele é da Congregação do Sagrado Coração de Jesus e fez voto de pobreza, como ele explica para o superior dele ficar circulando com um Audi por aí?”).
O tempo escasso e a própria movimentação do ambiente não permitiram uma investigação mais detalhada da vida de nossa personagem. Que reviravolta teria acontecido na vida dessa mulher a ponto de ter de comer por R$ 1? Seu problema na perna seria decorrente do quê? Viveria na rua? Passaria por dificuldades?
De concreto, apenas que é moradora da região de Campos Elísios, é “autônoma” (vende perfumes) e trabalhou na “parte burocrática” da Santa Casa por 14 anos.
Perto das 11 da manhã, quando a fila começa a andar, ela se levanta, suspira e dá seu veredicto: “Mas não vai ter jeito, vamos ter que comer a Dilma”. E eu a corrijo: “Comer não, vamos ter de engoli-la”.
Sábia, essa dona Marivone.

Confiram algumas fotos AQUI

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21 Comentários »

  1. Texto tão bem escrito que poderia jurar que estava presente nas cenas.
    Pessoas especiais e interessantes a gente pode conhecer em todo e qualquer lugar, principalmente em SP, onde costumo dizer, que até para ser “duro” tem que ser profissional de primeira, senão não passa.
    Bom saber das condições da comida do tal “Bom Prato”, ao menos cumpre se o prometido.

    Comentário por picida ribeiro — 2010/09/02 @ 11:36

  2. O “Raul” chega antes de eu engolir a Dilma. A ciência não tem explicação para o fenômeno. Chama o Guiness.

    Beijocas!

    Comentário por Selma Barcellos — 2010/09/02 @ 13:05

  3. Os Tucanos podem até aparelharem a máquina pública, mas pelo menos fazem as coisas funcionarem!
    Quanto a Dilma, só tenho uma coisa a dizer sobre o eleitorado dela:
    “Perdoai-os Senhor! Eles não sabem em quem estão votando”… (parafraseando Ele)

    Comentário por Ricardo Rezende — 2010/09/02 @ 21:50

  4. Ano político o caldo engrossa e a farinha melhora.

    Comentário por Juventino — 2010/09/02 @ 23:20

  5. Ai, Tati (suspiro).
    Parabéns pela coragem e pela isenção! Fiz algo parecido mas nem de longe tão “perigoso”: li as biografias (mornas) dos principais candidatos na Wikipédia, tenho entrado nos sites dos partidos para tentar entender os programas de governo e no do TSE para conferir as fichas, etc. No entanto é mais indigesto.
    A propósito, agradeço o perdão concedido pelo Ricardo Rezende acima, corrigindo apenas (pelo menos no meu caso) que sei muito bem o que estou fazendo.
    Abção,
    Adh

    Comentário por Adh2bs — 2010/09/03 @ 15:59

  6. Nossa muito legal! Que história. Meu sonho é viver de um jornalismo assim, de boas histórias, mesmo que por vezes tristes. Uma dica que vai nesse rumo: @caminhopiratini projeto de 2 jornalistas da Zero Hora que estão percorrendo o RS.
    Bjs!

    Comentário por Letícia Costa — 2010/09/03 @ 17:35

  7. Caro Adh2bs, bom que num regime democrático podemos concordar e discordar um do outro, inclusive fazendo críticas à classe política sem medo da repressão.
    Meu medo não é tanto da Dilma, mas da ala radical do PT que vai ficar ainda mais presente num eventual novo governo, com José Dirceu e companhia.
    Temo que o Brasil se torne mais parecido com regimes como de Hugo Chávez, Evo Morales ou Rafael Correa, cerceando a liberdade de expressão, loteando cargos no governo, inchando a máquina pública, estimulando programas sociais assistencialistas etc.
    Bem, tomara que eu esteja errado e que o panorama não seja assim tão ruim, pois ao que tudo indica ela será a próxima presidente do país. Boa sorte para todos nós.

    Comentário por Ricardo Rezende — 2010/09/03 @ 20:33

  8. ONGs? Blé.

    Comentário por Otto Romero — 2010/09/08 @ 02:50

  9. Duas coisas a dizer: fiquei com vontade comer feijoada agora, às 03:23; e qualquer coisa que tivéssemos que engolir esse ano seria indigesto!

    Comentário por bob — 2010/09/08 @ 03:25

  10. Parabéns pelo texto! Gostei realmente da forma que escreveu! Já comi diversas vezes no Bom Prato e realmente não deixa a desejar! A comida é sim de qualidade e a preço popular (Apenas R$1,00).
    Abraços!

    Comentário por Rodrigo — 2010/09/08 @ 07:28

  11. Ótimo texto. Parabéns!

    Comentário por Mêlanie — 2010/09/08 @ 10:37

  12. Ual! Que post fantástico! Mas por que não envia este link para nossa rede social?

    http://migre.me/1aSCq

    Comentário por Ana Luana — 2010/09/08 @ 11:41

  13. Hoje eu estava lendo algumas coisas sobre a nossa “futura” presidente, onde o Brasil vai parar? Acho que vamos passar pelo menos 4 anos chorando por causa de 1 dia, que será o dia das eleições.
    Bom, mais vim mesmo falar do Bom Prato, antes eu tinha um certo receio de comer la, mais um dia eu fui, e não é que é verdade… A comida é muito boa, eu recomendo.

    Comentário por Rafael — 2010/09/08 @ 11:51

  14. Em Campina Grande, na Paraíba, temos restaurantes que funcionam da mesma forma; também temos algumas cozinhas comunitárias. A comida aqui também não deixa a desejar: O cardápio é bem variado e também possuímos uma nutricionista para “ficar de olho” na alimentação. Tudo muito limpo e organizado, com um bom atendimento.
    Seria bom que mais governos e prefeituras tivessem a mesma iniciativa.

    Ótima reportagem.

    Comentário por Leandro — 2010/09/08 @ 13:51

  15. Estou aqui SÓ PRA ELOGIAR O EXCELENTE TEXTO!

    Comentário por JANICE — 2010/09/08 @ 14:43

  16. Excelente texto de fato bem escrito, porém só faltou um pouco mais de pesquisa e ver um “programa” aqui do DF que segue o mesmo segmento porém com nome de restaurante popular se não me engano. Este programa foi criado pelo governador Joaquim Roriz , que governou o DF por 4 mandatos, a comida servida a R$1,00 com os mesmos pratos que você citou. Excelente programa com certeza mas lendo tanto comentários como o próprio post percebi que , me digam se estiver errado, por conta destas açoes classificam governos elitistas de Garotinho e geraldo alckimin como grandes governos e criticam o governo lula que fez por este país derrubado por um tucano. Bem Alckimin não conheço então não tenho nada a comentar sobre mas Joaquim Roriz fez um péssimo governo aqui no DF, grandes obras como o restaurante popular a biblioteca nacional, porém roubou e roubou muito mas do que fez destruiu a cidade incentivando moradias irregulares. Bem com toda essa reviravolta e esse enorme comentario só queria mesmo dizer é que analise melhor os canditatos antes de olhar algumas obras que pelo cargo de governo ele era obrigado a realizar e considera-lo o melhor e subjulgar outros por opnião popular.

    Comentário por Calvin — 2010/09/08 @ 15:29

  17. Adorei o post!

    Comentário por Lu — 2010/09/08 @ 15:53

  18. Eu como todos os dias no restaurante da UFSC a R$1,50, temos direito a suco livre, sobremesa, e comida de muita qualidade

    Comentário por João Ricardo — 2010/09/08 @ 16:54

  19. Na verdade, calvin, se voce pesquisar bem, vai descobrir que o restaurante popular foi criado pelo ex-prefeito de Belo Horizonte, Sergio Ferrara, no início da década de 80.

    Comentário por Gustavo Ferrara — 2010/09/08 @ 17:23

  20. Perfeito, ótimo e que delicia entrar em um blog e ver algo tão coerente e funcional.
    Duvivou, pesquisou e comprovou.
    Fora uma crônica meio entrevista muito boa.
    Parabéns!

    Comentário por Joao Laion — 2010/09/08 @ 19:28

  21. Ótimo post, muito bem escrito, parabéns. :D

    Comentário por Patrick — 2010/09/08 @ 20:51


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