O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2010/08/31

ADVOGADA DO DIABO

Filed under: Matutando — trezende @ 08:53

A editoria de notícias internacionais está pegando fogo. É chileno preso em mina, mexicano demitindo meia Polícia Federal e Paris Hilton detida por porte de drogas pela enésima vez.
Mas é sobre o caso da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento por adultério, que pretendo exercer o papel de advogada do diabo.
Sob os olhos de nossa cultura ocidental, o que se planeja fazer com Sakineh é cruel, horroroso, bárbaro, sádico ou qualquer outro adjetivo que dê conta de tanta covardia.
Mas, independentemente da “culpa” ou da inocência da acusada, ninguém deveria colocar a mão nessa cumbuca.
No mundo inteiro, não há quem não compre as dores de Sakineh. As atrizes Carla Bruni e Isabelle Adjani estão, inclusive, sentindo o peso de declararem solidariedade. No sábado, o jornal estatal do Irã publicou um artigo com o seguinte título: “Prostitutas francesas entram no tema direitos humanos”.
Convenhamos: a ajuda internacional é de grande valia em tragédias como terremotos, tsunamis, furacões ou em atentados desumanos como o do World Trade Center. Mas em questões culturais – por mais bem-intecionados que os envolvidos estejam – ninguém deve meter a colher.
Se o critério é tomar partido sempre que se está diante de um comportamento “errado”, o mundo também deveria se reunir na sala de justiça para defender a mutilação genital feminina realizada em alguns países da África e da Ásia, as afegãs obrigadas a usarem burcas, e até mesmo as brasileiras, que frequentam bailes funk sem calcinha ou desfilam nuas no Carnaval – estas são tão vítimas quanto as outras.
Cada cultura tem suas sentenças e não cabe a ninguém meter o bedelho.
No caso da iraniana, Lula bem que tentou. Ofereceu formalmente asilo para Sakineh, mas o governo iraniano simplesmente respondeu que Lula estava desinformado sobre o caso.
Se não queremos que cantem de galo em nosso terreiro – vide o episódio que envolveu James Cameron e a Usina de Belo Monte – então o melhor é ficarmos bem quietinhos esperando a vontade de cantar no terreiro dos outros passar.
O mesmo serve para o restante do mundo. Carla Bruni, por exemplo, não deve gostar nadinha quando revistas de fofoca insinuam que seu relacionamento com Sarkozy é puro interesse.
De acordo com as leis islâmicas em vigor há mais de 30 anos, assassinato, estupro, adultério, assalto à mão armada, o abandono da fé e o tráfico de drogas são crimes passíveis de pena de morte.
E infelizmente Sakineh sabia disso.

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5 Comentários »

  1. Tati, Concordo plenamente com vc!!! Realmente ela sabia o que estava fazendo…E como dizia meu pai:”Em terra de sapos, de cócoras com eles”…

    Comentário por Dani Vantini — 2010/08/31 @ 10:13

  2. Não concordo com você, Tatiana. O caso da iraniana não é uma questão meramente cultural. É de natureza legal e humana. O problema lá é a impossibilidade de se saber se os direitos básicos da ré foram respeitados. Quando disseram que o Governo Brasileiro estava “desinformado” sobre os fatos, isso se aplica à todo o mundo. Afinal, quase ninguém sabe o que se passa nas entranhas daquele país.

    Não faz muito tempo a Folha publicou um caso ocorrido lá e que dá uma noção de como é “cultural” a aplicação da lei naquela nação. Três rapazes foram acusados de um crime. Dois deles de manterem relações sexuais à força com o terceiro. Os estupradores foram condenados à receber um certo número de chicotadas e depois morte pela forca. O estuprado foi SOMENTE enforcado. Não posso aceitar isso como sendo cultura.

    Quanto à se reunir para dirimir questões gerais, como aquelas que você citou, deveriam mesmo. Absurdos contra os direitos humanos devem ser sempre levados em conta. Até mesmo coisas de foro intimo, como brigas domésticas com violência contra crianças e mulheres, por exemplo.

    O mundo é realmente um lugar cheio de injustiças. Mas muitas vezes a culpa pela prática do mal também recai sobre quem não a pratica, mas que é omisso. Se continuarmos fechando nossos olhos para essas questões pensando que não temos moral suficiente para nos manifestarmos, isso será realmente o fim pra todos. Afinal, fosse imprescindível ter tão elevada moral para poder defender alguém, não o seria também para condenar? Sejam verdadeiras as duas premissas anteriores, no caso de Sakineh, inicialmente condenada à morte por “lapidação”, também deveria valer a regra: “quem não tiver pecados, que atire a primeira pedra”.

    Abraço!

    Comentário por Wesley — 2010/08/31 @ 10:15

  3. Minha endiabrada advogada predileta Tati, realmente, é a famosa “briga de cachorro grande”. Aos nossos olhos, o caso é realmente deprimente, ser apedrejada por causa de uma “simples” trepada? Por outro lado se a moça é maior e vacinada, sabia dos riscos que corria. Eu acho, também, que nos temos dramas mais sérios para gastarmos a tinta da nossa caneta!
    E vida que segue.

    forte abraço

    C@urosa

    Comentário por caurosa — 2010/08/31 @ 16:27

  4. Concordo com a argumentação. Deve ser por motivo parecido que a corrupção não é combatida com vigor no Brasil: é tão comum que já virou característica cultural, e ninguém ousa meter a colher…

    Comentário por Ricardo Rezende — 2010/08/31 @ 19:45

  5. No Brasil não se usa esse costume porque não há pedra que chegue.
    Bjão,
    Adh

    Comentário por Adh2bs — 2010/09/03 @ 15:50


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