O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2010/07/31

MENOS, BEM MENOS

Arquivado em: Cri-crítica — trezende @ 11:24

“O Bem Amado” foi sucesso na TV nos anos 70. É natural que a sátira política de Dias Gomes – que imortalizou personagens como o prefeito Odorico Paraguaçu, seu fiel escudeiro Dirceu Borboleta e as Irmãs Cajazeiras – ganhasse uma versão cinematográfica.
No entanto, assim como acontece com a maioria das adaptações literárias, irá decepcionar parte do público.
Quem é espectador de cinema nacional já sacou a “fórmula Guel Arraes de cinema”: o cenário é geralmente o Nordeste – o que exige o sotaque da região –, as personagens aceleradas, os diálogos são como pingue-pongue, a trilha sonora de Caetano Veloso e a produção de Paula Lavigne.
Não há nenhuma crítica velada nesta constatação – nada contra um diretor cravar seu estilo. O problema é quando ele se convence de que sua assinatura e uma boa produção são elementos suficientes para o próximo trabalho.
Em “O Bem Amado” é como se Guel relaxasse diante de um texto consagrado e ligasse o piloto automático. E ele não consegue livrar o avião de uma série de turbulências.
A primeira delas são as interpretações – intensas, gritadas e aceleradas. Marco Nanini (Odorico) é um ator brilhante, mas está num tom acima. Tonico Pereira, que interpreta o político adversário, idem. Já Edmilson Barros – que dá vida ao bêbado e puxa-saco Moleza – é a caricatura em pessoa. Abaixo o perdigoto!
Se os três abusassem menos da garganta seriam tão merecedores de elogios quanto Matheus Nachtergaele e José Wilker. Nachtergaele suprime a gagueira do Dirceu Borboleta original, pronuncia – e não grita – seu texto e dá um show. Wilker, por sua vez, precisa dizer muito pouco para que seu Zeca Diabo se destaque.
Depois, na tentativa de contextualizar o momento histórico e fazer um paralelo com o Brasil atual, Guel prepara uma maçaroca ao acrescentar explicações pouco claras sobre Jango, Jânio e Diretas Já. Os documentários são para os documentaristas. Os minidocumentários então, só para os gênios.
Se resta algo que merece crédito é a estreia de “O Bem Amado” em ano eleitoral e um desfecho que acontece em cima do mapa da América Latina que transforma o inscrito “Brasil” em “Sucupira”. Recado dado.

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