O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2010/02/16

SAMBA DE UMA NOTA SÓ

Filed under: Matutando — trezende @ 09:46

Todo ano nestes cinco dias de folia vivemos um feitiço do tempo. Se por algum problema técnico as emissoras de TV decidissem exibir as imagens do Carnaval de 2009 ou de cinco anos atrás ninguém tomaria tento.
Entra ano, sai ano, entra Gerard Butler, sai Paris Hilton e o enredo se repete. “O maior espetáculo da Terra” toma conta da Marquês de Sapucaí e “a festa não tem hora pra acabar”. No fim da última escola, “já com o sol raiando, até os garis caem no samba”. “E a platéia aplaude”. Todos os repórteres entrevistam o mesmo gari – o tal do Sorriso –, que até já virou garoto-propaganda de uma marca de cerveja.
A questão é que no quesito sorriso o nosso já está amarelo.
Será que o povão não se cansa desta falta de ineditismo e de criatividade? Pelo menos na Páscoa e no Natal temos lançamentos de sabores de ovos de chocolate e de panetone, respectivamente. Nas águas de março, novas regiões são alagadas. No nosso aniversário, muda a quantidade de velas. No Carnaval nenhuma novidade – nem o próprio Momo, que já quis ser magro.
Vira-e-mexe recebemos por email algum gerador de lero-lero, aquele em que inserimos um tema e a quantidade de linhas e ele nos devolve um texto vazio e prolixo, ideal para um discurso político ou palestra.
Com tantos anos de “maior espetáculo da Terra” nas costas qualquer um de nós é capaz de criar um “Gerador de samba-enredo”. A diferença é que não é necessário nem inserir o título, afinal, eles são imutáveis: descobrimento do Brasil, MPB ou algo como “água, fonte da vida”.
Basta jogar “índios”, “caravelas”, “meu amor”, “Carnaval”, “fantasia”, “liberdade”, “Sapucaí” e “lê lê lê”, “uou, uou, uou” e pronto. É só correr para a concentração.
Se alguém responder “sim” a alguma das perguntas abaixo estará pego na mentira. Alguma vez vocês já viram:
Carros alegóricos entrarem na avenida sem dar problema? Mestre-sala e porta-bandeira não receberem nota dez de todos os jurados? Passista que não queira aparecer girando o pandeiro na bunda da parceira? Presidente de escola que não desmaie – antes ou durante o desfile e depois, na apuração? Destaque que não tenha caído do alto do pedestal? Famoso dizer que está muito emocionado e que nunca sentiu algo tão forte na vida? Carnavalesco não fazer segredo sobre o que a escola trará para a avenida? Algum novo casal se beijando para os fotógrafos? Apuradores não anunciarem com suspense as notas da “bateria nota dez”?
Ora, se é “bateria nota dez”, por que tanto mistério? Outro ponto curioso: vocês já repararam que ninguém desfila, todos “vêm”? “Esse ano eu ‘venho’ de príncipe do Egito”, “a Mangueira ‘vem’ com muita energia”.
Haja energia para ultrapassar esses cinco dias.
A única novidade em meio a todo esse circo é que as rainhas e madrinhas de bateria estão cada vez mais popularescas, mais botocadas e com as coxas mais e mais bombadas. Não importa se uma está mais ou menos vestida do que a outra. O principal é surgir com o corpo transformado com a ajuda de anabolizantes e dizer que há três semanas só come clara de ovo e batata.
Tudo muda – até o poder tonificante da clara do ovo – menos o Carnaval.

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6 Comentários »

  1. Minha amiga Tati,mudou sim, e mudou muito…prá pior!Aos poucos vão matando as tradições e a alegria dos carnavais de décadas atrás…

    forte abraço

    caurosa

    Comentário por caurosa — 2010/02/16 @ 13:50

  2. Cara Tati, nesta sua descrição sobre o Carnaval só faltou mesmo o termo “é muita responsabilidade”. Termo este usado por todos, desde o gari (“Sorriso” ou não) até o “carnavalesco” responsável pelo enredo da Escola, não sem antes passar, é claro, pela “madrinha” da Bateria. “É muita emoção…”

    Comentário por Joubert — 2010/02/16 @ 13:53

  3. Onde se leu Escola, no comentário anterior, leia-se “escola”

    Comentário por Joubert — 2010/02/16 @ 13:55

  4. Nossa, isso me lembrou o livro “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”, em que o jornalista Leandro Narloch mostra que o samba como conhecemos hoje pode ter sido fruto de influência fascista.

    Não lembro bem, mas ele diz mais ou menos que houve um estímulo muito grande a cultuar o “exótico”, o “peculiar” o “genuinamente nacional” do Brasil. Então, qualquer tentativa inovação era vista como “falta de brasilidade”, “estrangeirismo”, etc. E essa cultura permaneceu, e ele cita como exemplo a letra de uma música que diz “Tá legal, eu aceito o argumento, mas não me altere o samba tanto assim…”.

    E, realmente, parece que algum dia criaram uma fórmula sobre como fazer samba e carnaval, e isso é “sagrado”, não se pode fugir disso ou você estará sendo “antibrasileiro”.

    Comentário por Felipe "Half Boiled" — 2010/02/16 @ 22:27

  5. Exatamente isso. Comentei sobre os atuais sambas em meu blog em outra ocasião, vou até reeditar…
    Do mais, vale o comentario Caurosa: Mudou sim…pra pior! somado ao comentário do Jobert.

    Comentário por picida ribeiro — 2010/02/17 @ 11:11

  6. Olá…
    Acontece que Carnaval em casa diante da TV é um tédio. Me dei ao trabalho de ver o desfile da Unidos da Tijuca (único que vi inteiro) porque me chamou a atenção por ter quebrado a mesmice (foi a 3a ou 4a escola do 1o dia); brincando, falei pros meus filhos que eles deveriam ganhar (faltavam 8 desfiles ainda). No dia seguinte, assisti metade do desfile da Portela (minha preferida); desisti porque estava intragável… Enfim, ano que vem no carnaval, ou mato ou morro: ou viajo pro mato ou viajo pro morro…
    Bjão,
    Adh

    Comentário por Adh2bs — 2010/02/18 @ 18:05


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