O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2010/01/04

A TEIMOSIA VENCEU O MEDO

Filed under: Cri-crítica — trezende @ 08:56

Nunca antes na história deste blog uma estreia foi tão aguardada quanto “Lula, O Filho do Brasil”.
Parêntese: esqueçamos quaisquer mensagens subliminares de um lançamento como esse em ano tão oportuno e nos concentremos em seu objetivo mais prosaico: o da diversão.
Na página oficial do filme há uma frase do diretor de arte Clovis Bueno que auxilia na argumentação contra o longa de Fabio Barreto: “Em cinema, não basta ser verdadeiro – tem que ser convincente”. E “Lula, O Filho do Brasil” não convence.
Sobretudo porque é chato – para usar uma palavra muito simples e até infantil, mas que se aplica perfeitamente aqui.
Barreto parece ter ignorado que mesmo as boas histórias precisam ser bem contadas. Walter Salles, com o mesmo roteiro, teria feito um clássico.
Comentários de quem teve acesso ao filme antes da estreia davam conta de que a história levaria às lágrimas grande parte dos espectadores e causaria uma salva de aplausos ao final da projeção. Observações tão exageradas quanto os elogios à atuação de Glória Pires como Dona Lindu, a mãe de Lula. Glória está somente honesta.
No início o público é avisado de que os investimentos para a realização da obra não vieram de nenhuma lei de incentivo, mas de patrocinadores. Segue-se uma extensa lista, mas os principais são as construtoras Odebrecht, OAS e Camargo Corrêa, a Oi, o Senai, a Grendene, a Souza Cruz, a Volkswagen, a Hyundai e, por motivos óbvios, a AmBev – representada pela Brahma. Até uma graninha do grupo EBX, de Eike Batista, entrou.
Enumerados os financiadores, chegamos ao segundo problema. Além de chato, o filme é mal dirigido. Certos equívocos são imperdoáveis no cinema: atores flagrados olhando para a câmera e barriga de grávida falsa. Ambos os problemas aparecem em “Lula, O Filho do Brasil”.
Quer dizer que Barreto e cia. ganham dinheiro da Odebrecht e apresentam uma barriga de oito meses de gravidez que é um travesseiro gigantesco e torto sobre a pança da atriz? Ora, trata-se de uma cinebiografia sobre o presidente do país, não de uma paródia dos Trapalhões.
Na história – baseada no livro homônimo de Denise Paraná – estão fatos já conhecidos da trajetória de Lula, como a infância miserável no sertão nordestino, a viagem de 13 dias até São Paulo, a relação conturbada com o pai alcoólatra, a morte da primeira esposa e do filho que ela esperava e a perda do mindinho num torno mecânico.
No entanto, mais da metade do filme trata da carreira de Lula como sindicalista. Pronto. A chatice está explicada.
É possível apostar que Lula tenha feito um pedido pessoal – que obviamente jamais será confirmado – para que o enredo enfatizasse com todas as cores sua vida de metalúrgico engajado que chegou a ser preso por militares. Afinal, quanto mais o povão se identificar com ele, melhor.
Para facilitar ainda mais esse reconhecimento, “Lula, O Filho do Brasil” não chega aos dias atuais, de popularidade recorde. Ele se desenrola apenas até a época das vacas magras, a década de 80, e termina com a morte de Dona Lindu – a precursora do slogan “Sou brasileiro, não desisto nunca”.
Outra sutileza: apesar de 70% do filme mostrar Lula às voltas com sindicato, greves e discursos inflamados, o que se ressalta em vários momentos é que seu objetivo não era a arruaça. O envolvimento de Lula se deveu às circunstâncias da vida – a recente viuvez – e à atuação política do irmão Ziza.
Sorry, o objetivo não era tanto mencionar as mensagens subliminares, mas foi inevitável.

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