O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2009/12/06

SUSPIRO DOBRADO

Filed under: Cri-crítica — trezende @ 08:26

“Um filme precisa ser concluído, ainda que às cegas”. É com esta frase que termina “Abraços Partidos”, o mais recente trabalho de Pedro Almodóvar.
O filme não é o melhor da carreira do cineasta, mas Almodóvar, mesmo quando é ruim, é bom.
Classificá-lo como ruim seria exagero. Na verdade, ele já esteve mais inspirado.
Fãs poderiam defendê-lo com a explicação de que “Abraços Partidos” foi surgindo durante uma crise de enxaqueca do cineasta, que concluiu que a dor não afeta a imaginação.
Numa entrevista ao jornal “El País”, ele declarou: “Sinto que é a primeira vez em que faço uma declaração tão expressa de amor pelo cinema – não com uma sequência em concreto, mas com um filme inteiro”.
Sendo assim, para ficar em dois exemplos, Audrey Hepburn ganha uma versão espanhola na pele de Penélope Cruz e a cena da queda numa escadaria lembra a de Scarlett O´Hara em “E O Vento Levou…”.
Qualquer tentativa de explicar o enredo resvalaria para a superficialidade. É uma missão de Sísifo resumir numa sinopse situações saídas da cabeça de Almodóvar. Neste caso é uma tarefa ainda mais árdua porque “Abraços Partidos” é um filme dentro de outro. Grossíssimo modo, fala de um cineasta, sua atriz principal e um marido ciumento.
Definido como homenagem ao cinema – o que dá um tom sério demais a “Abraços Partidos” –, o filme mantém as marcas registradas de Almodóvar: muito exagero, muitas cores, muitas personagens passionais, muita maquiagem borrada e uma história tão dramática quanto um novelão mexicano.
Mas o que distingue “Abraços Partidos” de uma “Maria do Bairro”? A direção precisa, a perspicácia inteligente dos diálogos e a interpretação dos atores. Almodóvar é capaz de transformar a reles conversa entre duas pessoas comuns numa discussão sobre vida, morte, relacionamentos, escolhas, vitórias e derrotas. Tudo muito leve e engraçado, mas há quem ache que são nas brincadeiras que se dizem as verdades.
Além das características que indicam o “copyright” do espanhol, outro traço não poderia ficar de fora: o elenco feminino, que sofre poucas variações entre um trabalho e outro. Apesar da ausência de Carmen Maura, há a participação da atriz mais feia do cinema – quiçá do mundo: Rossy de Palma.
Atores de nacionalidades variadas sempre expressam o desejo de rodar um filme com Almodóvar. Isso porque tudo o que um artista sonha são diálogos bem construídos que lhes propiciem atrair as atenções sem ter de dividir espaço com efeitos pirotécnicos de blockbusters como “2012”.
O que “Abraços Partidos” prova é que um bom ator não precisa mais do que meia dúzia de frases para mostrar seu talento. Este é o caso de Carmen Machi – um deslumbre nas poucas cenas como Chon – e de Lola Dueñas, a especialista em leitura labial que já trabalhou com Almodóvar em “Volver”.
Assistam – agora não mais às cegas.

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