O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2009/05/16

LETRA E MÚSICA

Filed under: Matutando — trezende @ 09:45

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micOs anos 90 foram um deserto para a música brasileira. Entre axés tira-o-pé-do-chão e várias modalidades de dancinha, acrescente-se os grupos de pagode. Tem-se aí o desanimador cenário da época. Bastava acionar qualquer eletrodoméstico para eles surgiram aos montes. Mesmo.
Todos contavam com, no mínimo, uns dez vocalistas – apesar de apenas um deles usar o microfone, de fato. Uniformizados com calça, camiseta agarradinha e óculos de sol presos à testa, sorriam e piscavam sensualmente ao menor sinal de que a câmera estava a se aproximar.
De nada adianta tentarmos nos consolar com a desculpa de que a mídia é a culpada. Infelizmente é disso o que o povo gosta. Fenômenos de venda e público como o grupo Calypso primeiramente fizeram sucesso em seus redutos antes de chegarem ao sudeste. Sem divulgação, foram consagrados entre os seus até “estourarem”. A indústria cultural apenas se encarregou de dar seguimento ao que o povo já havia aprovado.
Quem diria que um dia poderia pensar em absolver os pagodeiros? Após analisar os videoclipes exibidos por um canal de TV a cabo chego à conclusão de que Salgadinho, Netinho e os outros “inho” eram inofensivos – as canções se restringiam a exaltar Inaraí, Ana Tanajura, a barata da vizinha e a nossa cor marrom bombom.
A versão norte-americana para os grupos de pagode são os cantores de black music / hip hop que dominam a programação de clipes. Assim como seus genéricos brasileiros, vêm de origem humilde, acrescentam muito pouco à cultura ou ao pensamento de seus ouvintes e são amparados por um público imenso.
Akon, Lil Wayne, Fat Jone, Young Jeezy têm letras que são praticamente uma confissão à polícia.

“I´m So Paid” (“Eu Ganho Muito Bem”) é uma das mais absurdas. Vejam alguns trechos:
“Fico acordado até o amanhecer
Rodando num carrão
Com janelas abertas, gritando:
Eu ganho muito bem
O malandro nº 1 ganhando grana
Por que quer contar o meu dinheiro?
Sou malandro não preciso disso
(…)
Eu estou de olho na polícia
Rodando a 100Km/h na rodovia 95
Com minha gata recostada, é matar ou morrer
Mandando ver porque somos demais
Tenho um sistema que vai detonar você
Tenho uma parada sinistra sob o meu assento
Tenho um monte de capanga à disposição
(…)
Sou muito bem pago, meu bolso está sempre cheio
Isso foi antes de os impostos abocanharem minha renda
Agora escondo debaixo do colchão
(…)
Wezzy cheio da grana
Uma camiseta branca, com o trabuco por baixo
Como me sinto?
Me sinto invencível
É só eu estalar os dedos que você desaparece
(…)
A gente leva faca no pescoço
Enterramos covardes nos lugares da onde vêm
Transformamos erva em fumaça de revólver
A gente se dá bem quando manda ver
Você vai pro rabecão quando manda ver”.

Alguma semelhança com o pagodeiro Alexandre Pires e o episódio de atropelamento seguido de morte em que se envolveu? Ou com o acerto de contas entre Netinho de Paula e sua ex-mulher que acabou na delegacia?
Pensando melhor, até que eles não são tão inocentes assim. Apenas omitem alguns fatos das músicas.

Hoje é o último dia da promoção “Para o alto e avante!”. Responda: “O que ou quem você mandaria para o espaço?” com alguma justificativa, claro. A sugestão mais original fatura uma camiseta do filme “Viagem ao Centro da Terra”. Respostas para o email tatianarezende@hotmail.com. Se o vencedor residir fora de São Paulo receberá o prêmio pelo correio.

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5 Comentários »

  1. Não creio que o “povo” gosta de coisa ruim. Ele gosta do que lhe é apresentado. E falo isso com uma certa propriedade. Minha filha de 9 anos gosta tanto da Kely ki (apresentada a ela pela mídia) quanto dos poemas musicados do Vinícius de Moraes em “A Arca de Noé” (apresentados a ela por mim). Embora saiba que a semente foi plantada e está sendo regada constantemente, a sensação é de impotência.

    Comentário por Joubert — 2009/05/16 @ 14:14

  2. Eu, nos meus 50 anos, acompanhei de perto o empobrecimento musical, no cenário nacional e os demais que nos chegam.
    nem fico falando muito para nova geração, para não parecer muito careta, papo de “no meu tempo”.
    Mas, “no meu tempo”, com 9 anos de idade, fora Jovem Guarda, na ESCOLA aprendia-se “A Banda” de Chico Buarque, Alegra, Alegra de Caetano Veloso, que a professora escrevia letra na lousa e decifravamos o significado.
    Imagina, com 10 anos torciamos por mpúsicas nos Festivas da Record.
    Disparada, Pra Não dizer que não falei de Flores, que a gente escrevia a letra e passava escondido para os colegas, só porque a ditadura proibia, Internacional, vivi, o auge so ducesso da Musica Italiana por aqui Sergio Endrigo, Rita Pavone. de resto: Beatles, Simon and Garfunkel,Bee Gees, Ray Charles me pegou, quer mais??? Tá bom???
    Depois, MIlton Nascimento, Djavan, Tim Maia,Cazuza, e foi parando…parando… parou!!

    Comentário por picida ribeiro — 2009/05/16 @ 15:31

  3. Minha “pagodeira” Tati, para nós que conhecemos um pouquinho a história do Samba(com S maiúsculo), sabemos que o pagode “mela cueca” não representa o samba na sua essência, como música passageira para sambar,rebolar,cumpriu o seu papel e só.

    Forte abraço

    Caurosa

    Comentário por caurosa — 2009/05/16 @ 19:25

  4. Tivemos sim o nosso auge da música brasileira,americana,italiana francesa,mas parece que todas elas terminaram de uma tal forma assustadora que poucas,mas muito poucas mesmo são as musicas com letra,melodia e um bom acompanhamento.

    Comentário por Juventino — 2009/05/16 @ 20:24

  5. Tati, seu texto me fez lembrar com saudade dos meus tempos de escola. Estudei em uma escola MUNICIPAL de Belo Horizonte que tinha aula de música na 5ª e 6ª séries. Estudei Chico Mineiro, marchinhas de carnaval, a Banda, capítulos inteiros do livro texto sobre música sertaneja (entenda-se: Tonico e Tinoco e outros nomes da música de raiz), MPB, samba, rock, música clássica, instrumental e outras. Minha irmã fazia parte do coral da escola, regido pela professora de música, chamada Hebe. Eu, não era uma aluna destacada, apesar de apreciar música, mas confesso que foi a melhor época dessa escola. Depois que o PT assumiu a prefeitura de BH, o Colégio Municipal Marconi foi “rebaixado” de nível. Certamente, as aulas da Prof. Hebe foram extintas…

    Comentário por Vaninha — 2009/05/22 @ 09:05


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