O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2012/08/04

A PRÁTICA LEVA À PERFEIÇÃO

Filed under: Entrevista — trezende @ 10:40

A corrupção não é uma invenção brasileira, mas nossa história com a maracutaia é tão arraigada que a tomamos como coisa nossa. Desde o santo do santo do pau oco, percorremos um longo caminho até chegarmos a aprimoramentos como Dirceus, Demóstenes e tantos outros.
Mas como e por que a relação brasileira com a corrupção começou?
Nireu Cavalcanti – arquiteto e doutor em História – tem uma explicação simples. A principal causa foi o excesso de fiscalização e punições severas por parte da Coroa Portuguesa na época do Brasil colônia. Mas até a invasão holandesa no Nordeste ajudou a nos contaminarmos com essa doença de que sofremos até hoje.
Alagoano, Nireu é um apaixonado pela história do Rio de Janeiro e autor de alguns livros sobre o assunto.
Durante o ano em que morou em Lisboa para realizar pesquisas para sua próxima obra sobre a cidade, Nireu fuçou diversos arquivos. No processo de trabalho, esbarrou em vários exemplos que provam a existência de casos de corrupção já no Brasil do século 16.
Segundo ele, para manter o controle sobre a colônia à distância, a Coroa precisava fiscalizar. Quem estava aqui, tinha de se virar para burlar tanto controle.
Na conversa com este blog, Nireu ressalta a participação de personagens conhecidos, como o conde holandês Maurício de Nassau e a Marquesa de Santos.
Nireu descobriu documentos que mostram que Nassau – apesar de constantemente associado ao desenvolvimento do Nordeste – apoiava práticas como o suborno e a tortura. Num dos registros, Nassau recomenda a compra de pessoas na aristocracia de Pernambuco, mas que elas deveriam parecer como as maiores inimigas dos holandeses para não levantar suspeitas. Os padres, de preferência.
No caso da Marquesa, há registros de que ela era altamente “subornável”. Consta que ela teria pedidos alguns contos de réis para interceder junto a D. Pedro I e liberar a embarcação de um capitão francês que havia sido capturada no Rio da Prata com mercadorias ilegais.
Ah, o contrabando. Esse sempre existiu. Além do de pedras preciosas, outro comum era o de camisinhas (feitas a partir de tripa de carneiro) e livros pornográficos que eram trazidos especialmente da França.
Durante três séculos – do Descobrimento até a abertura dos portos, em 1808 – a Coroa coibiu a presença de estrangeiros em território brasileiro. Nós só podíamos negociar com sócios da Coroa. Mesmo sendo vendidas aqui, as mercadorias tinham seus impostos pagos em Portugal. Todas as transações eram registradas em relatórios minuciosos.
Pelo menos uma vez ao ano a Coroa Portuguesa mandava para cá um profissional para fazer “residência” que, na verdade, realizava uma devassa sigilosa nas contas públicas e privadas.
Outra prática instituída pelos portugueses é o que Nireu chama de “dedurismo”. Se um cidadão denunciasse irregularidades alheias podia ter suas dívidas com a Coroa perdoadas ou receber até 50% dos bens do denunciado. Até padres entravam na dança.
O caso mais conhecido é o de Joaquim Silvério dos Reis, que diante da possibilidade de ter suas dívidas zeradas com a Coroa, delatou os Inconfidentes.
Talvez precisemos de mais alguns séculos para nos desintoxicarmos de tanta maracutaia. Mas a julgar pelo rumo dos acontecimentos, nós só estamos nos especializando.
A prática leva à perfeição.

About these ads

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

Feed RSS para comentários sobre este post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

O tema Rubric. Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: