O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2012/06/11

FORÇA DO HÁBITO

Arquivado em: A real do mundo real — trezende @ 08:52

Já passa da hora de a Igreja Católica rever seus conceitos – sob pena de começar a assistir à debandada de seus fiéis.
Um artigo do site “The Daily Beast” mostra dois lados do mesmo hábito: como duas freiras reagem às reprovações do Vaticano.
De um lado, irmã Mary Elena, que em 30 anos poucas vezes saiu do convento em que reside em Roma. Passa boa parte do tempo semi-enclausurada trabalhando nos documentos litúrgicos e rezando sobre o altar da igreja de Santa Cecília.
Mais de 7 mil quilômetros de distância dali, em Scranton, Pensilvânia, irmã Maryalice poderia facilmente ser confundida com uma gerente de banco ou uma corretora de imóveis. Ela mora num apartamento com mais duas colegas, dirige um Prius e pode ser vista às 8 da manhã vestindo um blazer pink e uma saia escura.
“Um olhar mais acurado sobre a vida dessas duas mulheres mostra como o ‘ofício’ de freira se tornou diferente nos 50 anos desde que o segundo Conselho do Vaticano afrouxou as regras para as religiosas. E porque isso gerou críticas entre os homens responsáveis pela formulação dessas regras”.
Segundo o artigo, para muitos não-católicos, o papel da freira tem muito a ver com o que foi mostrado em “A Noviça Rebelde”. Para os católicos, é qualquer coisa entre ensinar o catecismo e rezar para moribundos em hospitais. “Elas são, no fundo, combustível para a fantasia dos outros”.
Em certos lugares da Itália, diz o “The Daily Beast”, freira é um sinal de má sorte. “Quando os homens cruzam com alguma na rua, tocam em algo de ferro ou nos próprios testículos”.
“Mas, na prática, essas religiosas são tão diversas quanto qualquer outro grupo de mulheres. Há milhares de ordens religiosas pelo mundo e cada uma delas tem seu próprio estatuto que governa desde a maneira como vivem até como se vestem ”.
Em Scranton, irmã Maryalice nunca vestiu um hábito. Ela administra um local para crianças e adultos com necessidades especiais e supervisiona 500 funcionários.
Na diocese de Roma, irmã Mary Elena explica que lá elas estão mais acostumadas à política hierárquica. E toca num ponto crucial: “Eu não acho que uma irmã que entre para essa vida não saiba quais são as regras. Nós conhecemos a estrutura no momento em que nos juntamos a ela”.
A “estrutura” inclui o comprometimento com a castidade em nome de Deus. “É parte do trabalho e o mundo secular nunca vai entender completamente. Se você sente o chamado, não pode dar as costas a ele”, diz Mary Elena.
Mary Elena entrou para o convento aos 16 anos, nunca teve um namoro sério e vem de uma família com forte tradição religiosa – há quatro freiras e dois padres entre seus familiares.
Ela conta que desde pequena sempre esteve mais interessada em ir à missa do que ao cinema como os amigos. Ela sentia-se diferente deles, mas nunca solitária, em parte por causa de sua conexão com Deus.
Hoje ela dorme numa pequena sala dentro do convento e seu círculo social restringe-se à comunidade da igreja.
Muitas das irmãs trabalham ou estudam fora do convento, mas Mary Elena prefere não se distrair com o mundo exterior: “Não estou perdendo nada na minha vida”.
Mary Elena é uma representante legítima do modelo tradicional, já irmã Maryalice convive entre pessoas de diversos tipos e origens.
A vontade de Maryalice de seguir a carreira religiosa também veio durante o colegial, época em que morria de curiosidade para saber mais sobre a vida das freiras. Mas ela esperou até o fim da faculdade para entrar num convento. Antes curtiu a vida e teve namorados.
Parte da polêmica envolvendo as freiras americanas veio à tona em abril, quando o Vaticano criticou severamente a maioria das freiras americanas num documento de oito páginas durante a Conferência de Liderança de Mulheres Religiosas (a LCWR).
A LCWR é uma organização das comunidades religiosas femininas composta por 1.500 membros e representa 80% das freiras dos Estados Unidos.
O grupo está sendo criticado por – apesar de direcionar seu trabalho para a pobreza e para a injustiça econômica – manter-se em silêncio sobre temas como o aborto e o casamento gay.
Por conta disso, o Vaticano classificou o grupo como “feministas radicais” que agem “em desacordo com a fé e as práticas da Igreja”.
Nos Estados Unidos – onde o número de freiras caiu de 179.954 para 57.544 no século passado – a controvérsia serviu para fomentar discussões sobre o significado da vida religiosa.
O artigo cita ainda um dado curioso: apesar de o número de freiras ter caído drasticamente nos Estados Unidos, a quantidade de novas “associadas” tem crescido nas ordens religiosas mais conservadoras.
O fato de as novatas religiosas estarem se alinhando às ordens mais radicais não deixa de ser um sinal. Se é um dado positivo ou negativo só o tempo será capaz de dizer.

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