O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2012/02/29

ESPELHO MEU

Filed under: Mentes brilhantes — trezende @ 09:21

Não importa se homem, mulher, gordo, magro, velho ou novo. Todo mundo quando acorda de manhã sente aquela estranha sensação ao se olhar no espelho. Uns se acham gordos, outros envelhecidos, abatidos, tristes, amassados, barbudos e, claro, despenteados. O saldo nunca é positivo.
Depois da primeira espiada, vem a conferida nos detalhes – seguida de careta – e a abertura dos trabalhos do dia: escovar os dentes, fazer a barba ou a maquiagem, espremer um cravo e dar um tapa na peruca.
Esses rituais diários e obrigatórios diante do espelho são o tema do artista Heikki Leis, que tem 38 anos e mora em Tartu, a segunda maior cidade da Estônia.
Em  “Everyday Reflections”, série de desenhos ultrarrealistas a grafite, ele retrata artistas conhecidos na Estônia, como o cantor e ator Peeter Volkonski; o cartunista e artista gráfico Priit Pärn; o escritor Andrus Kivirähk e a cantora Liisi Koikson.
A série demorou dois anos para ficar pronta. Segundo Heikki, é possível fazer um único desenho num mês se o trabalho for realizado diariamente.
Além de desenhista, Heikki é escultor e fotógrafo – daí o realismo absurdo de seu projeto.
Numa entrevista, quando perguntado sobre o que faz da Estônia ser um bom lugar para a alma do artista, ele responde: “Não sei se há algo no ar daqui que nos predispõe a fazer arte. De certa forma sou influenciado pela escuridão e o frio dos outonos e invernos. Há tempo para ficar em casa e pensar em fazer algo. Durante os verões quentes eu geralmente não tenho vontade de desenhar”.
Ainda bem que Heikki não é baiano.

Confiram os desenhos AQUI

2012/02/28

AMOR A VÁCUO

Filed under: Mentes brilhantes — trezende @ 09:30

Sufocantes, aflitivas, mórbidas, apertadas e incômodas. As imagens acima são tudo isso. E são exatamente o que parecem: casais embalados a vácuo.
Estas e mais 48 integram “Fresh Love” (“Amor Fresco”, literalmente), o mais recente projeto do fotógrafo japonês Hal.
Na série, Hal clicou 50 casais em poses variadas e os embalou a vácuo com “aqueles plásticos usados para cobrir futons no dia a dia”.
“Gosto de capturar o amor como ele realmente é. O maior tema da humanidade é o amor e eu, Photographer Hal, estou desafiando esse tema majestoso!”, diz ele no site.
Nascido em Tóquio, na primeira oportunidade deixou o Japão e viajou por vários países – especialmente para a Índia e Oriente Médio. Foi nesses lugares que seu interesse pela fotografia surgiu.
Os casais foram o meio escolhido para expressar o assunto, o que precisou de uma boa pesquisa para encontrar quem estivesse afim de participar. Foi então que Hal visitou o lado “underground” de Tóquio.
“Quando achava um casal que demonstrava interesse eu começava a negociar. Tenho certeza de que inicialmente muitos devem ter achado minha proposta incomum. Alguns chegaram a me olhar como se eu fosse invisível, mas segui em frente. Os modelos apareceram e incluem músicos, dançarinos, strippers, trabalhadores comuns, gerentes de bares e restaurantes, fotógrafos, executivos e até desempregados.
Houve ocasiões em que a situação ficou complicada, como no dia em que um casal se desentendeu e acabou brigando feio. Teve gente que não apareceu e os que terminaram o relacionamento antes mesmo de o ensaio ser realizado.
Num dos casos tive até de ir a uma prisão para conseguir a autorização para a impressão final. Felizmente tivemos momentos felizes e boas cenas para serem clicadas. Houve uma dupla que se casou logo após as fotos – e tudo começou dentro de uma banheira!”, conta Hal no site.

Vejam as fotos AQUI

2012/02/27

DESPERATE HOUSEWIVES

Filed under: Cri-crítica — trezende @ 09:37

A força de “Histórias Cruzadas” está no fato de ser baseado num caso real. O livro no qual ele inspirou-se (“The Help”) foi rejeitado 60 vezes por várias editoras até ser publicado. Quando finalmente chegou às livrarias, tornou-se um sucesso e permaneceu por semanas na lista dos mais vendidos do “The New York Times”.
Como filme é apenas correto. O diretor Tate Taylor optou por não correr riscos e não se aprofundar em detalhes históricos. Preferiu contar uma história linear narrada em off pela protagonista, expor os dramas das personagens e mostrar que a redenção vem pela superação.
A história se passa no início dos anos 60, no Mississipi, no auge da segregação racial.
Depois de cursar a universidade, Skeeter (Emma Stone) volta para sua cidade natal, Jackson. Mas ao contrário de suas amigas não planeja fisgar um marido e cuidar dos filhos. Pensa em fazer a diferença.
Determinada a tornar-se uma jornalista, ela decide ouvir (e publicar) as histórias das empregadas negras da cidade oprimidas por relações de trabalho preconceituosas e baseadas em leis absurdas.
Certas cenas são tão inimagináveis que parecem ficção. Mais inacreditável ainda é pensar que aconteceram há menos de 50 anos.
Uma situação que o filme faz questão de sublinhar é que negros não podiam usar os mesmos banheiros que os brancos.
Havia até uma lei que orientava a conduta dos não-brancos e outras minorias no Mississipi. Quatro artigos são lidos por Skeeter:
“I – Nenhuma pessoa deve exigir que mulheres brancas sejam tratadas em enfermarias ou quartos onde homens negros estejam internados; II – Livros não devem ser trocados entre brancos e negros. Devem continuar sendo usados pela raça que os usou primeiro; III – Nenhuma barbearia negra deve ser usada por mulheres ou homens brancos; IV – Qualquer pessoa imprimindo, publicando ou circulando material escrito incitando a aceitação pública de igualdade social entre brancos e negros está sujeita à prisão”.
Felizmente as discussões sobre a questão racial evoluíram em muito pouco tempo.
“Histórias Cruzadas” é um filme feminino, mas não exclusivamente para mulheres.
As personagens têm personalidades completamente diferentes, mas que têm como ponto comum a força de vontade – tanto para o bem quanto para o mal.
Há as empregadas sofredoras que cuidam dos filhos das patroas (Viola Davis e Octavia Spencer); as jovens ricas e hipócritas da sociedade conservadora; a garota que apesar de pertencer a este grupo não é fútil como as amigas (Emma Stone); e a maluquete perua (Jessica Chastain).
Deixem que falem de Viola Davis, porque “Histórias Cruzadas” é de sua coadjuvante: Octavia Spencer. Ótima. Mereceu o Oscar.

E para começar o ano, nada como encerrar o post com uma frase dita pela guru de Skeeter, Constantine: “Todos os dias, quando acorda de manhã, você tem que tomar decisões. Tem que se perguntar: ‘Vou acreditar em todas as coisas ruins que os tolos vão dizer sobre mim hoje?’ (…) Você tem que fazer algo grande da sua vida. Espere e veja”.

2012/02/26

O MAR MORTO COLOMBIANO

Filed under: Diário de bordo — trezende @ 11:00

Um passeio pouco divulgado – e inesperado – é o vulcão “El Totumo”.
Localizado a cerca de uma hora de Cartagena, na estrada que leva a Barranquilla – terra de Shakira –, o “El Totumo” é um vulcão bem diferente dos padrões. Ele não expele lavas, não está na ativa, não fecha o espaço aéreo como seu vizinho chileno e tampouco é preciso escalá-lo. O “El Totumo” é recheado de lama.
Ele tem entre 15 e 20 metros de altura e lama acinzentada até à tampa. São 2.300 metros de profundidade, mas mesmo que se queira afundar, a densidade não permite. É o Mar Morto dos vulcões.
O “El Totumo” é quase um spa natural (e bota natural nisso). Acredita-se que sua lama tenha poderes terapêuticos.
O topo é alcançado através de uma escada improvisada com corrimão de tronco de árvore.
A chegada lá em cima é um choque. Da parte de baixo não é possível ter noção do que se passa na boca, portanto, deparar-se com cerca de 20 pessoas mergulhadas na lama é surpreendente. Uma experiência para ser vivida em grupo.
Há “atendentes” em todas as etapas da visita. Assim que os turistas entram na lama surgem colombianos para lhe fazerem massagens. Enlameados e sem condições para fotografarem o “mergulho”, outro “atendente” fica com todas as máquinas fotográficas de quem está no banho e registra tudo.
Depois que saem da lama os turistas são encaminhados a um lago que fica a poucos metros do vulcão. Lá algumas “atendentes” tiram a sujeira do corpo dos turistas. Algumas tiram, inclusive, as roupas deles.
O “day spa” sai por cerca de 5 mil pesos (R$ 5).
Quem quiser prolongar os efeitos mágicos dos minerais do “El Totumo” pode comprar garrafas pet com alguns litros da lama. Elas custam mil pesos (R$ 1) e são vendidas no pé do vulcão.
O nome “totumo” é por causa de um fruto homônimo não-comestível bastante comum na região. Reza a lenda que o vulcão costumava expelir fogo, lavas e cinzas. Ele só se transformou num reservatório de lama graças a um padre, que acreditava que o comportamento do “El Totumo” era obra do diabo. Para expulsá-lo dali, o padre jogou água benta e o que era fogo virou lama.
Lenda ou maldição, vale a visita.

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A expedição cartagenera se encerra por aqui. Amanhã voltaremos com a nossa programação normal.

2012/02/25

E A NOITE CAI

Filed under: Diário de bordo — trezende @ 10:49

Em Cartagena, cada passo é um flash. Além de fotogênica, é cinematográfica. A cidade já serviu de cenário para filmes como “Queimada”, com Marlon Brando, e “O Amor nos Tempos do Cólera”, e há mais de 50 anos tornou-se sede do mais antigo festival latinoamericano de cinema: o “Festival Internacional de Cinema de Cartagena”.
Nem precisaria tanto. Turista que é turista tira foto até do chão se encontrar um paralelepípedo diferente. Aliás, na cidade histórica não há nenhum problema em clicar o piso se for o caso – limpíssimo – mas na parte moderna não é uma boa ideia. O lixo se acumula pelas esquinas e as calçadas malfeitas completam a armadilha para os turistas.
Mais fácil andar na rua e ouvir as buzinas dos táxis e dos miniônibus – que chegam a parar para entrarmos.
Mesmo com tanto assédio e insistência, os colombianos são simpáticos e educados no trato pessoal. Cumprem horários, não tentam levar vantagem sobre os preços e (parecem) amar o Brasil.
Apenas uma colombiana não tem cara de bons agouros: a Maria Mulata, um pássaro preto como um corvo que veio nos navios espanhóis e aclimatou-se muito bem em Cartagena.
Não há outro pássaro na cidade. Dizem que é uma praga: come os filhotes dos outros pássaros e rouba até comida. O pássaro é tão famoso que ganhou um monumento numa das praças.
Se Cartagena é boa durante o dia, imaginem à noite.
Dois dos programas imperdíveis na cidade são realizados à noite. Eles soam bobos e infantis, mas são os melhores: o passeio de carruagem pela cidade “amuralhada” e o tour chamado de “Rumba en Chiva”.
O da carruagem dura cerca de 40 minutos e percorre as “calles” com os pontos turísticos mais procurados, como o Palácio da Inquisição, a Torre do Relógio, os hotéis cinco estrelas, as igrejas, algumas praças e baluartes, a primeira casa de Simon Bolívar, a de Gabriel García Marquez e as “La Bóvedas”. Vale muito a pena.
Já o “Rumba en Chiva” é divertidíssimo. Quem for a Cartagena não pode deixar de fazê-lo.
Trata-se de uma espécie de city tour noturno pela cidade moderna feito num ônibus-jardineira aberto com nomes curiosos como “La Consentida”, “La Siempre Fiel” ou “La Cariñosa”.
Há vários bancos – que vão enchendo conforme a “chiva” para nos hotéis para recolher passageiros. A bordo, além dos turistas, um trio que toca rumba ao vivo.
A animação é garantida porque a bebida é liberada na “chiva” durante todo o trajeto. Cuba libre para todos os companheiros.
Além da rumba e da “cachaça”, a alegria fica mais turbinada com as maracas vendidas pelos ambulantes quando a “chiva” para nos hotéis.
Há um pit stop nas “Las Bóvedas” – para um lanchinho com direito a arepas recheadas. O ponto final não poderia ser outro: na boate.

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Amanhã o último capítulo

2012/02/24

SANGUE NOS OLHOS

Filed under: Diário de bordo — trezende @ 10:17

Fundada pelo espanhol Pedro de Heredia em 1533, durante os séculos 16 e 17 Cartagena tornou-se alvo de constantes ataques de piratas ingleses e franceses que iam em busca principalmente das pedras preciosas dos cartageneros. Por esse motivo os espanhóis financiaram a construção dos muros e dos fortes que hoje são a principal atração turística de Cartagena.
Quando as obras ficaram prontas, a cidade foi considerada “impenetrável” – o que não a impediu de ser atacada diversas vezes.
O forte mais famoso é chamado de “Castillo San Felipe de Barajas”, que começou a ser construído no século 16 e até hoje continua bem preservado.
A localização é privilegiada: bem no alto da colina de San Lázaro. Dentro, um complexo de túneis, labirintos, galerias subterrâneas e depósitos de pólvora. Dá até para brincar de esconde-esconde.
Para andar nos túneis é mais fácil fazê-lo à la Corcunda de Notre Dame – os espanhóis eram pequenos e construíram as passagens bem baixas para atrapalhar os ingleses.
Nas galerias, há os chamados “nichos de morte”, locais onde os espanhóis se escondiam com suas baionetas. Quando um inglês passava, bang.
Na parte externa, há rampas, guaritas e canhões com rodinhas. Os canhões eram deslocados sempre que era necessário confundir o inimigo. Como os espanhóis que vigiavam o forte eram em pouco número, mudar a artilharia de lugar era uma estratégia para se fingirem de muitos e intimidarem os piratas.
Lá do alto vemos também a estátua em homenagem a Blas de Lezo, personagem que tem uma história interessante e pouco conhecida.
O marinheiro espanhol participou de diversas batalhas durante o século 18: perdeu a perna esquerda numa guerra contra os franceses; o olho esquerdo durante a batalha de Toulon; e depois o antebraço direito em outra batalha, perto da costa de Barcelona.
Apesar de seus inúmeros atos heróicos, entre os cartageneros Don Blas é tratado menos como herói e mais como piada. Chamam-no de “Meio-Homem”.
Mais afastado do “Castillo San Felipe de Barajas” e da cidade “amuralhada”, outro ponto turístico merece uma visita: o convento de “La Popa”.
Construído a 156 metros acima do nível do mar, o convento é o ponto mais alto da cidade. Além da vista panorâmica, o mais bonito de “La Popa” é o jardim interno, todo florido.

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Amanhã o quarto capítulo

2012/02/23

TRÁS-OS-MUROS

Filed under: Diário de bordo — trezende @ 09:13

Seria um clichezão definir Cartagena como “múltipla”.
Na verdade, ela é apenas tripla: a histórica (“amuralhada”), a moderna (bairro de Bocagrande) e a popular.
As três partes são absolutamente diferentes e, por conta disso, o turista pode retornar de uma viagem a Cartagena com uma visão distorcida ou incompleta. Um retrato fiel depende tanto da área em que se hospeda quanto do roteiro programado.
Em primeiro lugar, se o objetivo for praia e mar azul-turquesa, o melhor é esquecer Cartagena. Ainda que a água seja límpida, as praias urbanas que margeiam grande parte de Bocagrande não são bonitas para os nossos padrões – muito menos para os padrões caribenhos. A areia acinzentada e batida é pouco convidativa a um mergulho.
Os cartageneros, no entanto, não se afetam e armam suas barraquinhas de lona à beira-mar. Enquanto tomam uma “Club Colombia” ou uma “Águila” – as duas cervejas mais comuns por lá – ouvem ritmos locais num volume bem alto, enterram-se na areia e recebem massagens em tendas espalhadas pela praia. Enfim, farofa-fá-fá.
A melhor opção para não frustar quem não dispensa uma tostada na areia é uma viagem até uma das 27 ilhas do Rosário ou Baru.
Os barcos que levam às ilhas gastam cerca de uma hora e meia para alcançar o legítimo mar caribenho. O retorno, à tarde, é cheio de fortes emoções com o mar mais agitado. É nessa hora que as capas de chuva que repousavam na ida começam a fazer sentido.
Cartagena é mais indicada para quem gosta de voltar no tempo e viajar na História.
A entrada principal da cidade histórica é pela Torre do Relógio – linda ao anoitecer.
Cercada por 11 quilômetros de muralhas – agradavelmente percorridas entre muitas paradas nas “calles” para registros fotográficos – a cidade de dentro dos muros é aconchegante, misteriosa e fotogênica.
O colorido é garantido pelo tom vibrante usado nas portas e balcões das casas e pelas flores coloridíssimas que enfeitam paredes e sacadas.
Não por acaso em 1984 a cidade colonial foi declarada Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco.
A tranquilidade das “calles” ladeadas por simpáticos restaurantes contrasta com a agitação da Praça Santo Domingo, que além de bares e restaurantes hospeda a “Figura Reclinada 92”, escultura que representa uma gordinha nua deitada. A peça foi doada pelo próprio autor, o pintor colombiano Fernando Botero.
Outro famoso citado por ali é o também colombiano Gabriel García Marquez. Mesmo sem morar em Cartagena há muitos anos, Gabo ainda mantém uma casa na cidade. O imóvel localiza-se bem de frente para a muralha, na esquina da Calle del Curato.
Na hora da pausa para o descanso, a dica é a limonada de coco no bar e restaurante ao ar livre do deslumbrante Hotel Charleston Santa Teresa. Mas se o dinheiro andar curto, a saída é tomar um “helado” por apenas mil pesos (R$ 1).
No quesito compras, dois extremos: as esmeraldas que lotam as vitrines das joalherias ou as quinquilharias nas “Las Bóvedas”.
Localizada ao lado do forte de Santa Catalina, trata-se de um conjunto de 23 arcos que servem como lojas de artesanato. Durante a era colonial, as “La Bóvedas” abrigavam a munição utilizada contra os invasores e no período das guerras civis do século 19 serviram como prisão.

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Amanhã mais um capítulo cartagenero

2012/02/22

A CONTA CHEGOU

Filed under: Diário de bordo — trezende @ 10:08

Táxis sem taxímetro, ônibus velhos que param em qualquer lugar, motoristas que adoram uma buzina, calor de derreter a moleira e ambulantes insistentes. Poderia ser um caos. Mas não é.
No meio da aparente babel, Cartagena ainda é um lugar calmo para seus mais de 1 milhão de habitantes.
E longe. Depois de seis horas de voo São Paulo-Bogotá, o turista encara outro trecho aéreo de uma hora e meia até Cartagena, a quinta maior cidade da Colômbia.
Neste primeiro post, o assunto é o que resultou em dois quilos extras na balança: os comes e bebes. Haja esteira para começar o ano.
Cartagena é banhada pelo mar do Caribe, portanto, a base da alimentação são os peixes. Mas tal nossas ruas de comércio popular, em cada esquina encontramos ambulantes vendendo comida. Em vez do nosso abacaxi no gelo ou das linguiças aceboladas na chapa – que causam em nós o mesmo efeito-feitiço dos desenhos do Pica-Pau –, em Cartagena a comida de rua compõe-se de dois ingredientes opostos: frutas e frituras.
Cartagena pode ser considerada a Meca das frutas, vendidas pelas Carmen Miranda de lá, as “palenqueras”.
Geralmente de ascendência africana e idosas, elas circulam pela cidade velha com roupas semelhantes às das nossas baianas – porém coloridíssimas – e equilibram uma bacia de frutas na cabeça.
O nome “palenquera” é porque elas vêm de uma região próxima a Cartagena chamada San Basilio de Palenque.
Como qualquer outra personagem de cidade turística, as “palenqueras” cobram alguns pesos em troca de uma fotografia. Se perceberem um turista esperto tentando clicá-las sem prévio acerto de contas, elas escondem o rosto em represália.
Além das “palenqueras”, há diversos carrinhos de ambulantes com uma boa oferta de frutas picadinhas (como manga verde e melancia) servidas no copinho. Eles também vendem frutas inteiras, como “uchuva” (physalis), abacate, tamarindo, papaia, “guanabaña” (graviola), limão e banana.
Apesar de não ser tão facilmente encontrada na rua, a banana é utilizada no preparo da guloseima-símbolo da cozinha cartagenera: o “patacón”, que nada mais é do que banana verde amassada e frita e que pode ser recheado ou não. A propaganda do “patacón” é fabulosa, mas o sabor decepciona.
Delicioso mesmo é outro acompanhamento da maioria dos pratos: o arroz de coco. Meio adocicado, ele sozinho já é uma refeição.
Os cartageneros também adoram suco de frutas. Para nós, o mais exótico é o suco de lulo, cuja fruta tem aparência de tomate e o gosto lembra o de um kiwi mais azedinho.
Enquanto o mate gelado das praias cariocas sai dos tambores metálicos, em Cartagena os sucos são vendidos num carrinho de mão equipado com um reservatório que parece um aquário. O suco – de laranja, tamarindo e limão – mistura-se ao gelo enquanto o ambulante pilota o carrinho. O difícil é descobrir se é suco com gelo ou gelo com suco.
Entre as frituras, destacam-se as arepas (à base de farinha de milho e que podem ser com ou sem recheio), as empanadas e os “deditos” (espécie de canudo sabor queijo).
Falando assim parece até que não é possível comer normalmente num restaurante. Pero los hay. Os mais conhecidos são o “La Vitrola”, o “Café del Mar”, o “La Casa de Socorro” e o “1621” (dentro do Hotel Santa Clara).
Para coroar tudo isso, os doces, que são vendidos numa área chamada “Portal dos Doces”.
O portal das delícias – que está de frente para a entrada principal da “cidade amuralhada” ou “cidade velha” – abriga diversas ambulantes que vendem doces com nomes bem sugestivos, como “Alegria” e “Diabolin”.
Depois de tanta comilança, a conta chegou. O jeito é dar uma de “palenquera”. Mas em cima da esteira.

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Amanhã mais um capítulo da saga por Cartagena

2012/02/13

O MAGO NÃO É SOPA

Filed under: A real do mundo real — trezende @ 10:17

Pode-se gostar ou não da produção literária de Paulo Coelho, mas quando ele se mete em alguma polêmica seu posicionamento merece ser reconhecido. Os tempos loucos não afetaram sua lucidez.
Há cerca de quatro anos, durante um jantar com personalidades do mundo todo no Kongress Hotel, na Suíça, ele reagiu a um comentário feito pelo regente da Filarmônica de Boston, Benjamin Zander.
Na ocasião, o regente disse que depois de um concerto no Brasil mulheres levantaram a roupa e mostraram tudo. E concluiu: “Você sabe como são as mulheres brasileiras quando querem demonstrar alegria…’”.
Eis que Paulo Coelho se levanta no meio da platéia – que gargalhava – e grita: “Eu sou brasileiro, estou ofendido com o seu comentário”.
A atitude do Mago rendeu até um post neste blog.
A polêmica da vez é o projeto de lei antipirataria que tramita no Congresso Americano: o Sopa (“ Stop Online Piracy Act”).
Num texto publicado em seu blog, o Mago deixa bem claro de que lado está: “Piratas do mundo, uni-vos e pirateai tudo que já escrevi!”. A opinião do escritor foi tema de um artigo no jornal “The Guardian” há duas semanas.
Segundo o escritor, a lei – se aprovada – vai afetar todo o planeta.
“Os bons tempos, quando cada ideia tinha um dono, se foram para sempre. Primeiro, porque tudo que todo mundo faz é nada mais que reciclar os mesmos quatro temas: uma história de amor entre duaas pessoas, um triângulo amoroso, a luta pelo poder e a história de uma jornada. Segundo, porque todos os autores querem que se leia o que eles escrevem, seja num jornal, blog, panfleto ou muro. Quanto mais ouvimos uma música na rádio, mais queremos comprar o CD. É a mesma coisa com a literatura.
Quanto mais as pessoas ‘pirateiam’ um livro, melhor. Se eles gostam do começo, eles comprarão o livro inteiro no dia seguinte, porque não existe nada mais cansativo do que ler longos trechos de texto na tela do computador”, escreve o Mago em seu blog.
Os cri-críticos podem argumentar que Paulo Coelho se manifesta desta forma porque já ganhou dinheiro suficiente graças aos milhões de livros que já vendeu.
Claro. Há muito tempo o escritor não tira seu sustento da comercialização de suas obras. Uma palestra vale mais do que milhões de exemplares vendidos.
Louvável é ele tornar pública sua opinião.
É isso aí, Mago, chega de hipocrisia. Agora só falta cumprir a promessa de fazer chover.

P.S.: Nos próximos dias estarei em Cartagena.
Bom Carnaval pra todo mundo. Novos posts a partir de 22/02. Até!

2012/02/12

RECEITA DE SUCESSO

Filed under: Folheando — trezende @ 08:58

A comida está fortemente ligada a muitos aspectos de nossa vida. Comemos para festejar, para relembrar e até para matar a fome. Os cineastas sabem disso e, às vezes, há pratos que mereceriam destaque nos créditos porque são importantes para a história. Alguns viram inclusive o título do filme, como “American Pie”.
Há referências clássicas, como o macarrão de “A Dama e o Vagabundo” e o sanduíche turbinado que Harry e Sally devoram na Kat’z Delicatessen, em Nova York.
Inúmeras vezes os cineastas nos deixam com água na boca. Quem não saiu da sessão de “My Blueberry Nights” com vontade de saborear um bom pedaço de torta com sorvete?
Pensando nessa categoria de cinéfilo – o esfomeado – a escritora Becky Thorn coletou diversas receitas marcantes de filmes e lançou “Movie Dinners: Reel Recipes from Your Favourite Films” (no Brasil traduzido para “Jantares de Cinema: Receitas de Seus Filmes Favoritos”).
O livro demorou cerca de um ano e meio para ser escrito porque todas as receitas foram testadas. Nele, Becky revela as receitas de 70 filmes (e também as de alguns programas de TV) e dá suas dicas.
Algumas são mais óbvias e não poderiam ficar de fora, como os pratos de “Tomates Verdes Fritos”, “American Pie”, “Ratatouille” e “A Festa de Babette”.
Outras já precisaram de mais pesquisa, como a “french toast” de “Kramer vs Kramer”, o hambúrguer de “Pulp Fiction” e o strudel de maçã de “A Noviça Rebelde”.
Os favoritos de Becky são o macarrão com espaguete de “Os Bons Companheiros”, o “boeuf bourguignon” de “Julie e Julia”, o drinque à base de hortelã de “E o Vento Levou” e o fígado com favas de “O Silêncio dos Inocentes”.
“Quando você pergunta às pessoas sobre comida e cinema, esse é um prato que vem sempre no topo da lista. Apesar de ter conotações sinistras, é uma refeição deliciosa”, diz ela, que adora fígado.
Sobre os sanduíches “afrodisíacos” de “Harry & Sally”, Becky conta que Meg Ryan comia um de peito de peru e salada e Billy Crystal, um de pastrami no pão de centeio.
“É provavelmente minha cena favorita porque foi uma das primeiras que eu vi e me fez começar a pensar na relação entre comida e cinema”.
Becky Thorn tem 45 anos, é professora primária, mãe de duas filhas e mora em Surrey (sul da Inglaterra).
Ela conta que as filhas – de 15 e 13 anos – foram resistentes na hora de experimentar o coelho ensopado de “Atração Fatal”. Já ela, teve cuidado ao provar o coquetel de vodca, gim, suco de mariscos e Tic Tac hortelã de “O Guia do Mochileiro das Galáxias”.
Pois eu confesso que jamais experimentaria aquele banquete de “Indiana Jones e o Templo da Perdição”.

2012/02/11

ESTILO RONALDINHO

Filed under: Mentes brilhantes — trezende @ 09:16

“Ficar careca preocupa mais os homens do que ir à falência ou a solteirice”.
É o que diz uma reportagem do “The Daily Mail”.
Mas acaba de surgir uma solução que vai fazê-los economizar dinheiro e dor de cabeça – a tatuagem capilar.
A cabeleireira das celebridades britânicas, Adee Phelan, abriu uma clínica na cidade de Manchester especializada na técnica, chamada de MHT (“micro hair technique”) ou pigmentação do couro cabeludo. Algo na linha “pontilhismo”.
O tratamento custa cerca de 2 mil libras (quase R$ 5.500) e não transforma ninguém em Sansão (talvez por isso o riso contido do Trio Ternura aí em cima), mas a aparência é bem natural.
Coitados, esses já devem ter passado por poucas e boas.
São incontáveis os constrangimentos na vida de um careca que não se aceita.
Quando o telhado ainda não está totalmente descoberto muitos recorrem às pílulas de finasterida. Depois que o destelhamento já está num grau mais avançado, há os que usam peruca (e creem que ninguém percebe); os que pagam pelo implante (um processo dolorido e caríssimo); os que fazem uma espécie de “interlace” (aquele estilo Eike Batista) e os que chutam o pau da barraca recorrendo a sprays mágicos.
Sempre me lembro de um comercial à la “Polishop” que mostrava um careca tendo sua cabeça “pichada” por um desses sprays. Brilhava como sapato recém-engraxado. A grande questão era imaginar aquele mais novo detentor de cabelo sob uma chuva de verão. Além de escorrer, a tinta poderia manchar a roupa do sujeito.
Na ânsia de descobrir o nome do produto, recorri ao Youtube e encontrei uma picaretagem ainda maior: o “Toppik”, que segundo a garota-propaganda é “pra você que tá com rarefação no seu couro cabeludo”.
No comercial, um “especialista” explica: “Na verdade esse produto ele é cabelo. O ‘Toppik’ é queratina em pó tratada eletrostaticamente”.
Daí vem o constrangimento. O “especialista” salpica uma espécie de talco (ou canela em pó, como preferirem) na cabeça de um coitado cujo “grau de calvície é do tipo 6 pro tipo 7”.
Se passar um vento, já era.
Seja bem-vinda, tatuagem capilar.

2012/02/10

DAMA DE FERRO

Filed under: Cri-crítica — trezende @ 09:04

Ela entrou para a História e já passava da hora de ganhar uma versão cinematográfica.
Cercado de expectativas, chega aos cinemas “A Dama de Ferro”, que narra a trajetória da primeira e até agora única mulher a ocupar o posto de primeira-ministra da Inglaterra.
A direção é de Phyllida Lloyd, já havia trabalhado com Meryl Streep em “Mamma Mia!”.
Por se tratar de uma biografia – gênero menos passível de erro do que a ficção pura – tão importante quanto cuidar para não resvalar nos clichês é a escolha do biografado.
E o que não falta é história e polêmica na vida de Margareth Thatcher.
No filme ela é retratada como uma mulher autoritária – que manda afundar um navio argentino com a mesma naturalidade com que escolhe seus brincos –, uma obstinada pelo trabalho e por seus ideais políticos. Tanto, que a família é deixada em segundo plano – alguns jornais noticiaram, inclusive, que os filhos da ex-primeira-ministra teriam ficado horrorizados com o roteiro.
Filha de um quitandeiro – que também era prefeito da cidade em que viviam, Grantham –, ela ganha uma bolsa para estudar em Oxford e vai crescendo gradualmente até se tornar a mulher mais poderosa do mundo durante 11 anos.
A história se passa nos dias atuais, mas não é linear, e apresenta uma Margareth Thatcher debilitada mentalmente. Durante as idas e vindas no tempo, ela relembra momentos importantes de sua vida pessoal – como o nascimento de seus filhos gêmeos – e da carreira política, como o atentado do qual foi vítima em 1984, os protestos decorrentes de suas medidas impopulares, a Guerra das Malvinas e sua demissão.
Se não há grandes arapucas para uma cinebiografia – a não ser as críticas negativas de pessoas que conviveram com Thatcher –, uma interpretação mediana da protagonista poderia colocar tudo a perder. Portanto, merece destaque a atuação brilhante de Meryl Streep. Meryl está com o diabo no corpo. Essa versão da dama de ferro merece o boneco de ouro.
Além da semelhança física – alcançada graças ao impecável trabalho da equipe de maquiagem, que também concorre ao Oscar –, Meryl personifica com precisão detalhes como o corpo curvado, o passo miudinho e os muxoxos de uma senhora de mais de 80 anos cuja memória já dá sinais de falha.
Uma das cenas mais marcantes é quando Margareth afirma que as pessoas hoje só querem saber de sentimentos. Segundo ela, ninguém tem mais pensamento e ideias.
“Cuidado com seus pensamentos porque eles podem se tornar palavras. Cuidado com suas palavras porque elas podem se tornar ações. Cuidado com suas ações porque elas podem virar hábitos. Cuidado com seus hábitos porque eles podem se tornar seu caráter. E cuidado com seu caráter, porque ele pode se transformar em seu destino. Nós nos tornamos o que pensamos”, diz ela.
Difícil dizer se a Margareth Thatcher original pensava exatamente desta forma, mas de acordo com algumas reportagens, os realizadores do filme basearam-se no livro de memórias escrito por ela – e já publicado –, em declarações de políticos da década de 80 e em várias imagens de TV e discursos feitos por ela.
Mesmo sem ser procurada como fonte de informações, a família da ex-primeira-ministra recebeu o convite para assistir ao filme antes de ele chegar aos cinemas, mas recusou a proposta.
O veredicto? Ame-a ou deixe-a.
Não percam.

2012/02/09

CAFÉ COM ARTE

Filed under: Mentes brilhantes — trezende @ 08:59

Ela não quer nem saber se café faz bem ou mal à saúde.
A artista plástica americana Karen Eland passa bem longe desta discussão. Para ela, a bebida – mais do que ser sua preferida – é um instrumento de trabalho. Karen pinta com café.
Karen tem obras de sua autoria, mas o destaque são as recriações de quadros clássicos.
Além de usar o café como tinta, a artista ainda coloca uma xícara da bebida em algum ponto da cena. Foi assim com a “Monalisa” (que o jornal “Daily Mail” chamou de “Mocha Lisa”); a “Moça com Brinco de Pérola” (à direita); “O Pensador”; “American Gothic” (o casal à esquerda), o autorretrato de Van Gogh e “A Criação de Adão” (o afresco de Michelangelo que enfeita o teto da Capela Sistina).
Em seu site, Karen explica que “capturar a profundidade dessas obras clássicas só é possível através de um lento e sofisticado processo de construção de camadas de espresso”.
Ela utiliza apenas café espresso, diretamente saído da máquina. Às vezes é necessário que ela deixe a xícara descansando por alguns dias para obter os tons mais escuros.
Karen tem 38 anos e diz que realmente ama café, mas que restringe seu consumo diário a duas xícaras senão pode tremer muito.
Depois que começou a colorir com café ela se tornou barista e chegou a trabalhar em algumas cafeterias.
“Tudo começou em 1998, quando eu estava sentada num coffee shop em Tulsa, Oklahoma, terminando uma aquarela. Fiquei olhando o marrom lindo de um espresso que saía da máquina e pensando no quanto café mancha as coisas. Talvez eu pudesse pintar com ele. Mencionei com a barista, que disse que eu deveria tentar”, conta Karen.
Hoje ela já tem mais de 90 obras.
Além do café, Karen também faz obras com cerveja. Justin Bieber, Lady Gaga, David Beckham e Barack Obama foram alguns dos homenageados. No ano passado, numa feira de cerveja em San Diego, uma de suas pinturas foi vendida por 15.500 dólares.
Infelizmente Karen ainda não conhece Lula e Zeca Pagodinho.

Vejam as pinturas AQUI

2012/02/08

COM “A” MAIÚSCULO

Filed under: Cri-crítica — trezende @ 10:07

Se alguém disser que “O Artista” é um filme como nunca antes se viu na história deste país – e dos outros – estará mentindo. Ele vai de encontro a tudo o que se tem feito no cinema atual. Nada de 3D, grandes explosões ou cachês milionários para os astros. Trata-se de um filme mudo e em preto e branco. E aí está o pulo do gato: usar o velho de forma totalmente original.
O diretor Michel Hazanavicius contou recentemente numa entrevista que depois que recebeu o sinal verde para fazer o filme, o roteiro lhe veio em um mês.
Esse é o melhor indício de que a inspiração viraria obra-prima. O trabalho recebeu só dez indicações ao Oscar: melhor filme, direção, ator (Jean Dujardin), atriz coadjuvante (Bérénice Bejo), roteiro original, edição, direção de arte, fotografia, figurino e trilha sonora.
“O Artista” está aí para provar que se existe um boa história ela não precisa nem ser falada.
O filme é de uma sensibilidade absurda e narra o drama vivido por um famoso ator de cinema mudo após a introdução do cinema falado.
Mesmo sem contar com nomes de peso (exceto John Goodman, o eterno Fred Flinstone), o elenco foi escolhido com destreza. Bérénice Bejo, mulher do diretor, é uma atriz expressiva e carismática. Na mosca também foi a escalação de Jean Dujardin para o papel do protagonista, perfeito para interpretar George Valentin, um galã do início dos anos 30.
Misto de drama, comédia e suspense, o filme tem cenas célebres e lindas. Reparem na que se passa nas escadarias do estúdio Kinograph; no uísque sendo derramado sobre a mesa; na sensibilidade da sequência de Bérénice “vestida” ao paletó do amado; e principalmente no espetáculo de sapateado protagonizado pela dupla.
Quem assiste à leveza de Jean Dujardin e Bérénice Bejo não imagina que eles ensaiaram por cinco meses, diariamente.
Certos detalhes são a azeitoninha da empada, como a solução encontrada para mostrar o tédio e o ódio da esposa de George Valentin. Sempre que vê uma foto do marido, faz bigodinhos, chifrinhos e pinta os dentes dele a caneta.
Talvez o maior inimigo da esposa de George Valentin seja Uggie, um cão da raça “jack russell”.
Uggie mereceria concorrer ao Oscar de melhor ator coadjuvante. Ele é uma paixão, um fofo e mais competente que vários atores humanos. Além disso, Uggie tem uma participação decisiva na história.
A má notícia é que, segundo seus treinadores, Uggie está saindo de cena. A aposentadoria forçada acontece porque Uggie sofre de um raro distúrbio neurológico que já custou milhares de dólares em remédios e consultas a veterinários. Sua última aparição será na cerimônia do Oscar, dia 26 de fevereiro.
“O  Artista” é um filme de artistas mesmo. Imperdível.

A previsão de estreia é na próxima sexta-feira

2012/02/07

O AMOR É AZULZIM

Filed under: Diário de bordo — trezende @ 11:08

Ele já ficou famoso internacionalmente, mas como nossos melhores artistas, foi preciso primeiramente fazer sucesso lá fora para ser reconhecido por aqui. E olha que tem muita gente que nunca ouviu falar do Instituto de Arte Contemporânea Inhotim, em Brumadinho.
Alcançar Inhotim é quase uma expedição. Localizado a 60 quilômetros de Belo Horizonte, o acesso se dá a partir de uma estradinha que tem de ser compartilhada com inúmeros caminhões de minério. Mas o sacrifício compensa.
Inhotim vale pelo conjunto da obra e não pode ser reduzido apenas a uma galeria de arte ao ar livre com trabalhos de artistas plásticos de diversas partes do mundo. É também um parque e um jardim botânico maravilhosos. Um complexo de lagos azuis e um centro gastronômico com um restaurante delicioso (o Tamboril). Uma tranquilidade estudada nos mínimos detalhes. Um oásis no meio do nada. Lindo, bem cuidado, organizado e atencioso.
Cerca de 800 funcionários cuidam para que nada saia do script.
O Inhotim é ideia do empresário Bernardo Paz, que a partir dos anos 80 começou a reunir obras de arte contemporânea em sua propriedade particular. Foi só em 2006 que o instituto abriu as portas ao público.
Bernardo ainda é um dos maiores financiadores, mas o Inhotim conta com a ajuda de inúmeros patrocinadores e em 2008 foi reconhecido pelo governo mineiro como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP).
O nome Inhotim não foi dado por causa de nenhuma origem indígena. Reza a lenda que naquela região residia um inglês chamado Timothy, mais conhecido como “Tim”. Para facilitar, os moradores se encarregaram de traduzir para o mineirês e ele virou simplesmente o “Nhô Tim”.
A casa habitada por Nhô Tim e por outros mineiros sobrevive até hoje. Reformada, atualmente é uma obra da artista Rivane Neuenschwander.
Cada galeria é dedicada a um artista. Algumas são impressionantes, como a do fotógrafo Miguel Rio Branco – que mais parece um navio gigantesco atracado no meio da mata – e a de Adriana Varejão, com três andares e um belíssimo espelho d’água na entrada.
Fora toda a magnitude das galerias, há várias obras espalhadas pelos jardins, como a de Paul McCarthy (isso mesmo, um genérico do ex-Beatle) e homens-elástico de Edgard de Souza.
Até o que parecem ser inocentes bancos de madeira são trabalho do designer Hugo França.
Uma das “obras de jardim” mais interessantes é a do inglês Simon Starling, que virou um veleiro de ponta-cabeça. A embarcação fica lá em cima, sustentada pelo mastro preso ao chão.
A obra seria apenas um barco de ponta-cabeça não fosse o excelente trabalho dos guias do Inhotim, que nos explicam que “The Mahogany Pavillion” é uma espécie de protesto do artista. Ele usa um veleiro que é produzido na Escócia, mas com o mogno da América do Sul. Traz o veleiro de volta ao seu lugar de origem e o expõe invertido, transformando-o numa estrutura arquitetônica cuja forma faz referência a uma árvore, estágio anterior da madeira.
De forma muito interessante, ele faz o repatriamento da madeira que nos foi “roubada” e ainda a transforma em obra de arte.
Graças a Inhotim cheguei à conclusão de que qualquer um de nós pode ser um artista contemporâneo. Não é preciso ter nascido necessariamente com um dom. Basta criar algo absurdo e sem sentido – na visão dos outros, claro. O segredo está em encontrar uma explicação convincente e inteligente para o que inventamos. Definitivamente trata-se da arte de conceituar.
O passeio entre jardins e galerias é agradabilíssimo. Quem se cansa com facilidade conta com uma ótima opção: carrinhos de golfe realizam o transporte até as galerias mais afastadas (cerca de 1 km de distância da recepção). O serviço custa R$ 10.
A caminhada é o momento ideal para conhecer plantas com denominações como “coração apertado”, cuja folha tem quase o formato de um coração, mas com uma parte rasgada – “como o peito dos apaixonados”, explica a guia.
A surpresa é que o projeto paisagístico não é de Burle Marx. A marca do famoso paisagista está presente nos jardins através de sua influência como amigo pessoal de Bernardo Paz. Ainda que o projeto não seja dele, algumas características “marxianas” podem ser observadas, como a preferência pelo uso de “maciços” (plantas de várias espécies reunidas).
Inhotim é um lugar mágico. A água dos lagos – habitada por peixes gigantescos, gansos e outras aves – é de um azul magnífico. A questão é que ela é tão natural quanto nota de três reais. Como a região é cercada por montanhas ricas em minério – devidamente exploradas –, as águas são alaranjadas de tão barrentas.
Para transformar o laranja em azul, o Inhotim tem à disposição uma equipe à la David Copperfield que opera a mágica do corante Lagoa Azul. Sério.
Biodegradável, o corante é jogado nas águas dos lagos cerca de uma vez por semana. O resultado é o lago “azulzim”.
Gal Costa tinha razão: o amor é “azulzim”.

Vejam algumas fotos AQUI

2012/02/02

SAUDADES DO TONY

Filed under: Folheando — trezende @ 09:24

Apesar de serem vendidos como saudáveis, os cereais foram perdendo esse status ao longo do tempo. Atualmente são toneladas de açúcar, ingredientes artificiais e grãos refinados todos juntos numa caixinha bem linda.
Eu sou do tempo em que o Sucrilhos reinava absoluto. Não só nas prateleiras, mas na mesa da minha casa. Todos os dias, após o jantar, tomava uma quantidade generosa de leite com Sucrilhos como sobremesa.
A nostalgia não é tanto pelo Sucrilhos, mas da época em que açúcar não causava estragos à minha silhueta. Minto. Tenho saudades das caixinhas, que traziam brincadeiras (prontamente “brincadas”) na contracapa.
Quem é ou já foi fã de cereais vai adorar “The Great American Cereal Book: How Breakfast Got Its Crunch” (“O Grande Livro Americano do Cereal: Como o Café da Manhã Ficou Crocante”), de Marty Gitlin e Topher Ellis.
A dupla gastou 15 anos de pesquisas para contar detalhadamente a história dos cereais – de 1863 a 2010 – por meio de textos e imagens raras. Há fotos das 400 variedades já comercializadas por diversas marcas: General Mills, Kellogg’s, Nabisco, Nestlé, Post, Quaker e Ralston.
Marty Gitlin é fã de cereais desde os 8 anos, “quando a sociedade associava cereais matinais com diversão”. Hoje a guerra de milhares de crianças americanas é contra a balança, diz ele.
O livro é dividido em seis capítulos. O primeiro fala sobre os pioneiros – Dr. James Caleb Jackson, o criador do primeiro cereal, “Granula” – e de John Harvey Kellogg, inventor dos cereais em flocos.
Entre as curiosidades, no segundo capítulo está a história de C.W. Post, que sofreu com as críticas de fundamentalistas religiosos depois que deu o nome de “profeta Elijah” ao seu produto.
No capítulo que compreende o período de 1949 a 1970 o livro menciona a introdução do açúcar para atrair o interesse das crianças. Já entre 1971 e 1980 descreve o momento em que os americanos começaram a seguir uma dieta pouco saudável.
Na última parte (de 1981 a 2010), a dupla fala a condição do cereal hoje e cita nomes que não são familiares para nós, brasileiros. Eles dedicam mais de cem páginas aos cereais “Batman”, da Ralston; “ET”, da General Mills; e “Incrível Hulk”, da Post.
Quem não pode se dar ao luxo de saborear um Sucrilhos, se contenta em admirar as caixinhas.

P.S.: nos próximos dias estarei em Belo Horizonte. Novos posts a partir de 07/02. Até!

2012/02/01

OS CHURROS DO TARZÃ

Filed under: Folheando — trezende @ 09:55

Quem quer ficar lindo e magro precisa aprender a fazer dieta como os gays.
Todas as dicas estão no recém-lançado “Gay Men Don’t Get Fat” (“Homens Gays Não Engordam”), de Simon Doonan.
Simon tem 59 anos e é diretor criativo da “Barneys”, uma das mais sofisticadas lojas de departamento de Nova York. Ele também é autor de vários livros e colunista de estilo do site “Slate” e do jornal “The New York Observer”.
No livro – claramente inspirado no best-seller “Mulheres Francesas Não Engordam” – ele explica o que constitui a “comida gay” e por que, de uma maneira geral, o homem hetero ganha peso com mais facilidade do que o gay.
Segundo Simon, os alimentos podem ser divididos em duas, e não quatro categorias: gay ou hetero. O segredo está em misturar os dois tipos.
A comida do gay é mais leve, tem menos carboidratos e gordura. A escolha dos ingredientes é feita de modo consciente antes de ser levada ao prato.
Numa entrevista ao “The New York Times”, comentando a comida escolhida pelo repórter, ele diz: “As batatas do gay são assadas, as do hetero, fritas”.
“Os gays não ficam em forma só porque comem comida gay. Eu não vivo à base de macarons e alface”.
Segundo ele, macarons – aqueles bolinhos que lembram um bem-casado – são o mais recente delírio gastronômico dos gays. “Não acredito que um hetero entre numa loja de macarons. Se você quer arruinar a carreira de um político, publique uma foto dele num lugar desses”.
Simon admite que no livro faz generalizações sobre os heterossexuais mas, segundo ele, “as generalizações são a chave para tudo e elas geralmente têm nuggets de verdade”.
A alimentação clássica de um hetero é pesada, cheia de proteína e gordura.
As dicas para quem quer perder peso “à la gay” são: comer salada com molho bem leve, carne com pouca gordura ou sushi, e escolher frutas na sobremesa. Para beliscar, frutas secas. Mas ele alerta: “Tenham cuidado com os damascos porque eles realmente causam gases”.
Comida mexicana? A mais recente cozinha hetero. Sushi? O oposto. Comida japonesa é a mais gay do planeta.
E amêndoas? “Uma ou duas. Não a mão cheia. Sabe quando ganhamos aquele mix de castanhas no avião? Se estou sentado ao lado de um hetero ele basicamente leva a latinha à boca”, explica Simon ao repórter do “The New York Times”.
Quanto à sobremesa, churro é tão hetero quanto o Tarzã.

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