O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2012/01/31

A NEVE LHE CAI BEM

Arquivado em: Cri-crítica — trezende @ 08:59

O filme: “Millennium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres”, novo trabalho do diretor David Fincher (“A Rede Social” e “O Curioso Caso de Benjamin Button”).
Trata-se da segunda adaptação de um dos livros da trilogia homônima do autor sueco Stieg Larsson. A primeira, realizada na terra natal do escritor, foi há cerca de três anos.
Se Zagallo assistisse à abertura do filme a definiria como “extranha”: um bailado entre piche e cabos elétricos que apesar de “cool” e da trilha sonora moderninha não tem relação direta com a história.
Nela, Mikael (Daniel Craig, o atual 007) é um jornalista contratado por uma família cheia de segredos para escrever a biografia de seu patriarca, Henrik. No processo, Mikael esbarra na morte de uma das sobrinhas e investiga a ligação do desaparecimento da menina com uma série de assassinatos envolvendo mulheres nas redondezas da cidade de Hedestad, Suécia.
Junto com a hacker Lisbeth (Rooney Mara) ele busca por pistas do serial killer.
A surpresa: Daniel Craig é um reles coadjuvante, porque o filme é de Rooney Mara.
A atriz não tem um rosto conhecido, mas quem assistiu “A Rede Social” se lembrará dela. Rooney aparece na cena inicial como a namorada que dá um fora no futuro criador do Facebook.
Indicada ao Oscar de melhor atriz, Rooney está irreconhecível, uma verdadeira camaleoa (ou uma verdadeira atriz?). Pode ser introvertida, violenta, misteriosa e passar do trash ao glamour com muita segurança. Convence, mas os especialistas dizem que ela não levará o boneco.
O problema: “Millennium” é um filme denso, um pouco confuso e que talvez se leve a sério demais. Lá pelas tantas, depois que a dupla já reuniu uma série de provas, entrevistou várias testemunhas e ainda não chegou a nenhuma conclusão, começamos a consulta ao relógio a cada cinco minutos. A resolução do mistério se prolonga além da conta e o resultado são quase três horas de projeção.
O interessante é que apesar de Hollywood, David Fincher engana muito bem de europeu e consegue dar um tom de humor até nas situações de suspense. Um quê assim de “Fargo”.
A neve lhe caiu muito bem, mr. Fincher.

2012/01/30

A VINGANÇA DOS CÃES

Arquivado em: A real do mundo real — trezende @ 10:10

Dois sentimentos se misturam todas as vezes em que entramos na fila “estilo matadouro” de um fast food qualquer.
Primeiro, ao escolhermos o sanduíche, ignoramos completamente a existência de gorduras, carboidratos e o entupimento das artérias.
É como se, ao optarmos pelo prato trash, já tivéssemos conscientemente assumido todos os riscos da decisão – tão hipnotizados que ficamos pelas imagens dos lanches.
Subir os olhos para os painéis fotográficos que exibem batatas-fritas crocantes, alfaces torradinhas e hambúrgueres suculentos é o mesmo que olhar para o céu.
Um cão tiraria o sarro dizendo que estamos diante da nossa televisão de cachorro.
Pedido feito, o segundo sentimento: perceber que fomos enganados. Geralmente o sanduíche que chega à bandeja nunca é o mesmo da foto.
Dizem que é na desgraça que o ser humano se iguala. Talvez por esse motivo a simpatia pelo blog “Alphaila”, que se dedica, entre outros temas, a comparar os sanduíches dos anúncios e os da vida real.
O autor, Dario D. – designer das áreas de animação e games – explica que “alphaila” é “uma espécie de prima da palavra ‘perfeição’. É a busca pela perfeição humana em todos os aspectos, reinventando a maneira como você age, o mundo à sua volta e tudo o mais. Se a perfeição pode ou não ser alcançada não é o ponto… O ponto é que ela pode ser buscada”.
Desde o ano passado Dario tem se dedicado a comprar sanduíches e tacos de lanchonetes famosas. Ele leva o material para o estúdio fotográfico que tem em casa, reproduz a iluminação e o lanche do anúncio, fotografa e compara.
Dario leva em consideração duas regras: ele só se importa com o tamanho (“certamente não preciso que o alface venha arrumado como a coroa do Cesar”). Além disso, ele tenta reproduzir o perfil mais atraente do sanduíche, idêntico ao anúncio.
“Não é preciso dizer que os resultados do meu projeto foram pouco surpreendentes”, diz ele.
O caso mais absurdo é esse aí em cima, do Big N’Tasty, do Mc Donalds.

Visitem o site AQUI

2012/01/29

VARIAÇÕES SOBRE O MESMO TEMA

Arquivado em: Mentes brilhantes — trezende @ 10:59

Toda semana, aos buscar assuntos para este blog, encontro pelo menos um trabalho de artista dando uma nova interpretação às princesas dos contos de fada e personagens femininas da Disney.
Pois o tema me venceu pelo cansaço – não tanto pela originalidade – e até ganhou este post hoje. Entre fotografia, manipulação digital e pinturas, são mais de dez trabalhos sobre as personagens.
Uma das primeiras a explorar a imagem das princesas foi a fotógrafa canadense Dina Goldstein, que há cerca de três anos criou a série “Fallen Princesses”, que retrata com modelos reais como seria o cotidiano das princesas depois do “e viveram felizes para sempre”.
Branca de Neve tem um marido folgado e três filhos; Bela vira refém das cirurgias estéticas; Chapeuzinho Vermelho engorda por causa dos quitutes da avó; e Rapunzel aparece numa cama de hospital – aparentemente com câncer – e por isso tem de usar peruca.
Entre os pesquisados, é o trabalho mais interessante.
Depois de Dina veio a leva de “releituras”.
O ilustrador americano Jeffrey Scott Campbell criou uma versão sexy em forma de quadrinhos colocando Alice, Branca de Neve, Pequena Sereia, Bela Adormecida e outras como personagens de HQ. A ideia deu tão certo que Jeffrey lançou “Fairy Tale Fantasies” em versão calendário 2012.
A finlandesa Jirka Väätäinen – estudante de Design Gráfico numa universidade inglesa – optou por uma versão mais realista. Unindo foto, ilustração e manipulação de imagens, ela criou pinturas realistas. É como se as próprias princesas estivessem posando para ela.
Já o ilustrador Dante Tyler pensou em algo mais comercial e transformou as princesas em musas fashion. Cada uma delas aparece magra, mas cheia de curvas, em capas fictícias da revista “Vogue”. Bem original.
Interessante também é o trabalho da artista ucraniana Viktoria, de apenas 17 anos. Ela criou uma série de princesas “hipsters” (as que ilustram este post).
Mais ou menos na linha moderninha é a série de desenhos de Timothy John Shumate, que encheu as princesas de tatuagens.
Eu já partiria para algo mais brasileiro: colocaria Branca de Neve ou Bela Adormecida grávidas de quadrigêmeos ou cantando Michel Teló.

2012/01/28

FREAK LE BOOM BOOM

Arquivado em: Mentes brilhantes — trezende @ 10:35

Impressão digital ou reconhecimento da íris são tecnologias ultrapassadas na área de segurança. O futuro passa pela bunda.
É o que creem os safadinhos cientistas japoneses.
Eles criaram uma chapa com sensores de pressão capaz de identificar com precisão o traseiro de alguém. Quando colocada no banco de um motorista, por exemplo, impediria que outros dirigissem o carro.
A chapa é equipada com 360 sensores que coletam dados de 39 características necessárias para o reconhecimento de uma pessoa, como os padrões de pressão e as dimensões das nádegas. Esses sensores se comunicam com um laptop permitindo que o computador crie um mapa completo a respeito da pessoa que está sentada. Enfim, o que o aparelho faz é um mapa astral da bunda.
Koshimizu, professor-associado do Instituto Avançado de Tecnologia Industrial, de Tóquio, conta que seu aparelho é 98% preciso e muito menos complicado do que a biometria convencional, já que requer apenas que a pessoa se sente.
Mesmo afirmando que a peça é “98%” precisa, ainda existem alguns obstáculos para que a tecnologia chegue ao mercado. Segundo o professor, o reconhecimento fica comprometido quando são usadas roupas diferentes. “Os sensores leem sinais distintos a partir de um par de calças ou de jeans”, explica ele.
Infelizmente a tecnologia japonesa não encontraria mercado no Brasil. Se o aparelho é tão sensível a ponto de realizar leituras diferentes a partir de uma calça de sarja ou de um jeans, como ele reagiria diante de um emagrecimento repentino ou de uma flacidez? Quais seriam os dados coletados sob os traseiros siliconados de Valeska Popozuda e Gretchen?
E outra: sentada sobre a chapa com sensores, Mulher Melancia causaria prejuízos à empresa.
Definitivamente esse know-how não pertence aos japoneses.

2012/01/27

MINHA TERRA TEM BOBEIRAS

Arquivado em: Matutando — trezende @ 09:08

A primeira vez que li sobre Luiza fiquei com uma estranha sensação de ter perdido a piada.
Afastei-me poucos dias da Internet e, quando retorno, a frase “Menos Luiza, que está no Canadá”, bomba no Twitter.
Depois de correr os olhos para a direita e notar o assunto nos “trending topics”, começo a busca por pistas.
Inicialmente pensei que se tratasse de uma piadinha baseada na declaração de algum entrevistado do programa “Chegadas e Partidas”, no GNT, mas graças ao Google fiquei ainda mais embasbacada.
Luiza é uma estudante paraibana de 17 anos que estava fazendo um intercâmbio no Canadá havia seis meses. Seu pai – colunista social em João Pessoa – estreou recentemente a propaganda de um empreendimento imobiliário em que diz a frase rodeado por porta-retratos da filha. E só.
Montar a equação foi simples: roteirista publicitário brega + pai sem noção = “celebridade” + grana do bolso do proprietário do empreendimento imobiliário.
Valeu pela criação do bordão – que realmente surge a partir das situações mais bobas.
No episódio, choca o comportamento surreal da mídia, que se encarregou de transformar em circo o que era só um hit da Internet.
Luiza foi personagem de uma matéria com mais de cinco minutos no “Bom Dia Brasil” e de outros três no “Jornal Hoje”. Foi aplaudida na redação da TV Globo. Luiza esteve na “São Paulo Fashion Week” (o repórter de um programa de fofocas que a abordou perguntou tudo o que pode: se está namorando, se aceitaria um convite para posar nua… Só faltou querer saber o que ela comeu no almoço).
A “Folha de S. Paulo” informa que Luiza estará no domingo no programa de Eliana, no SBT.
Para falar sobre o quê? Sobre o frio do Canadá? Ou sobre como é um programa de intercâmbio?
No mesmo SBT, Carlos Nascimento foi o único a empregar o bordão de forma crítica: “Luiza já voltou do Canadá, e nós já fomos mais inteligentes”.
Luiza não tem sobrenome. É simplesmente Luiza que estava no Canadá ou Luiza que voltou do Canadá. Luiza não falou nada, não fez nada e (diz que) não está entendendo nada.
Por conta do sucesso, a estudante retornou da viagem antes do previsto e desde então tem se dedicado a conceder entrevistas declarando-se assustada.
Ora, nem tanto. Ela tem recebido inúmeros convites para estrelar novos comerciais e já está cobrando R$ 15 mil para dar “presença vip” (aparecer num evento, posar para fotos e dar tchau).
Na Internet, o povo já está em outra. Resta saber por mais quanto tempo jornais e revistas falarão sobre a estudante. Talvez só quando Luiza for pra Portugal e perder o lugar.

2012/01/26

DIA DE PRINCESA

Arquivado em: Diário de bordo — trezende @ 10:02

Mesmo que tentemos fugir da maldição de termos surgido como nação por meios tortos, a História está aí para nos lembrar dos detalhes.
A Ilha Fiscal, famosa por ter sediado o último baile do Império, inicialmente tinha outro nome: Ilha dos Ratos. Muito mais apropriado à nossa sina com as ratazanas.
A festa, realizada em homenagem aos oficiais do navio chileno Almirante Cochrane, aconteceu apenas seis dias antes de a República virar realidade.
Há controvérsias quanto ao número de convidados. A guia local fala em 2 mil, mas o site da “Riotur”, em mais do que o dobro disso: 5 mil.
Um quadro que retrata a esbórnia e as “nuvens negras” da República se aproximando está exposto na sala de estar do castelo. A pintura original, de Francisco Figueiredo, está no Museu Histórico Nacional.
Todos os móveis e objetos que repousam no térreo do “Castelinho” – como o lugar informalmente é chamado – são réplicas dos originais. Assim como no dia do baile, os móveis ficaram escondidos no porão.
A sala principal e a sala de jantar anexa impressionam pela pompa: muito cristal, muita madeira, muito brilho, muito ouro. Are baba. O baile deve ter sido realmente de arromba. Tudo devidamente importado.
Em outras duas salas há uma pequena exposição sobre o vestuário e alguns objetos pessoais dos convidados. O convite original do baile também está numa das vitrines.
Os outros espaços do castelo – com goteiras e infiltrações – resumem-se em promover as ações da Marinha em território nacional e na Antártica.
Hoje o acesso à ilha pode ser feito de escuna ou de micro-ônibus – ambos a partir do Complexo Cultural da Marinha. Mas durante 41 anos o trânsito entre o continente e a ilha era realizado apenas pela baía de Guanabara. A ponte é uma construção de 1930.
Os mais afortunados podem brincar de Monarquia, Império ou República no local, já que a ilha é alugada até para festa de debutantes. Pagou, levou.

Vejam fotos AQUI

2012/01/25

BATALHA NAVAL

Arquivado em: Diário de bordo — trezende @ 10:08

O Espaço Cultural da Marinha localiza-se na região central do Rio, próximo à igreja da Candelária, ao Centro Cultural Banco do Brasil e ao lado de um lugar horroroso: sujo, cheio de mendigos e pombas e com forte cheiro de urina. A sensação é mais ou menos como perambular pela área do Minhocão, em São Paulo.
Mas vale a pena atravessar o mini-inferno para conhecer as nossas origens “inzoneiras” – dessa área militar partem os passeios de escuna à Ilha Fiscal e à baía de Guanabara.
É necessário chegar cedo, porque apesar de os ingressos serem pagos, a procura é muito grande.
Quem não quiser desembolsar nada, pode circular livremente pelo complexo e estrear novas experiências. Como entrar num submarino, por exemplo.
Atracado ao cais do Espaço Cultural está o S22 Riachuelo, aberto à visitação.
O S22 nunca participou de guerras importantes. Talvez seu maior serviço à nação esteja sendo cumprido de 15 anos para cá, após a aposentadoria, já que empresta suas dependências aos turistas e à curiosidade infantil.
Vencido o desafio inicial – descer a estreita escadinha que leva ao interior da embarcação –, passamos a imaginar o desespero dos tripulantes do Kursk que acabaram morrendo sufocados e também a valorizar o trabalho do marinheiro, função que deveria ser muito bem remunerada só pelo risco a que estão expostos.
O S22 tem cerca de 90 metros de extensão e capacidade para 74 homens. Se vazio já é claustrofóbico e quente, com 74 passageiros é missão para camicazes.
Melhor se distrair com o dia-a-dia desses heróis conhecendo a minicozinha – com direito a Ricardão preparando feijoada –, os minibanheiros, a minissala de comando e os “minidormitórios”. As camas, instaladas nas laterais da embarcação, são tão apertadas que os tripulantes deveriam ter de aprender certas técnicas com as chinesinhas elásticas do Circo Imperial da China só para se deitarem.
De volta à superfície e ao impiedoso sol carioca, uma circulada ao redor da “Galeota Imperial”.
Além de servir para os deslocamentos da nossa família real e de inúmeras personalidades históricas, foi a bordo dela que D. João VI saiu do Brasil pela última vez rumo a Portugal.
A viagem derradeira da galeota aconteceu em 1920, quando transportou a família real belga.
Enquanto os figurões iam confortavelmente instalados num camarote de veludo, milhares de serviçais suavam para manipular 30 longos remos.
É… talvez trabalhar no S22 não fosse tão ruim assim.

Vejam algumas fotos AQUI

2012/01/24

BABEL OU BABILÔNIA?

Arquivado em: Diário de bordo — trezende @ 10:04

Ele já foi palco para carnavais do passado, já recebeu grandes nomes da música internacional e por muito pouco não virou um favelão antes de completar 100 anos.
Graças a uma reforma que durou quase três anos, pode servir de abrigo para Barack Obama sem nenhum constrangimento.
Sim, o Teatro Municipal do Rio está um brinco e merece uma visita.
O projeto arquitetônico foi inspirado no da Ópera de Paris e todo o material usado na construção foi importado da Europa: mármores, ônix, bronze, cristais, espelhos, mosaicos, vitrais… Enfim, parece que Eliseu Visconti – o principal decorador do teatro – foi a uma Leroy Merlin do início do século 20 e comprou um pouquinho de cada item que estava na liquidação. Até uma águia ele botou no carrinho. Enquanto a mulher reclamava que nada combinava com nada, Visconti dizia: “Chegando em casa a gente vê o que faz com isso”.
“O estilo é eclético”, justificam os guias.
Ficou bonito mas, sem bairrismos, a sala de espetáculos do Teatro Municipal de São Paulo é mais incrementada – e ela também acaba de ser reformada.
Se a sala principal não chega a tirar o fôlego, as balaustradas dos pavimentos superiores e os vitrais são impressionantes, belos e imponentes.
Mas é na bat-caverna que repousa o maior tesouro do Municipal. A surpresa-mor é o Salão Assyrio, cuja decoração destoa completamente dos outros espaços da casa. Ele é todo revestido de cerâmica esmaltada inspirada na antiga Babilônia. O teto, baixo, é sustentado por cabeças de touro em estilo persa que fazem as vezes de coluna.
O Assyrio já funcionou como restaurante, mas hoje serve café. O lugar também é uma espécie de sala de espera forçada para os atrasadinhos, que podem assistir ao primeiro ato do espetáculo em televisores instalados no local até o momento de serem liberados para entrarem.
É um lugar meio sombrio, mas lindíssimo. Funciona como máquina do tempo: saímos de lá querendo dar um passeio pelos jardins suspensos da Babilônia, mas o que encontramos é a Cinelândia. Nua e crua.

Confiram fotos AQUI

2012/01/23

SE JESUS CHAMOU, EU NÃO OUVI

Arquivado em: Diário de bordo — trezende @ 09:01

Como em toda cidade turística, há o Rio de Janeiro do cartão-postal e a versão realidade, aquela em que os bueiros explodem e os meninos de rua confiscam até o refrigerante de um turista distraído.
Esse Rio de Janeiro inédito para uma boa porção de visitantes é o nosso tema de hoje.
Inédito porque raros são os dispostos a deixar de lado a praia, a magnífica paisagem da Lagoa ou a badalação noturna do Leblon para conhecer um lugar quente, abafado, com música alta e comida para cabra macho. Assim é o Centro Municipal Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas ou Feira de São Cristovão, para os íntimos.
Um destino pouco aconchegante e bonito, mas indispensável para quem quer conhecer a autêntica cultura popular nordestina em pleno sudeste ou saborear o lendário Guaraná Jesus sem precisar ir ao Maranhão.
A feira é frequentada basicamente pelo povo da terrinha e é uma mistura de praça de alimentação a céu semiaberto, mercado e centro cultural localizado no longínquo bairro de São Cristóvão. Turistas mesmo, poucos. Cearenses, cariocas, maranhenses, paulistanos, curitibanos ou gringos, todos pagam R$ 3 para adentrar essa Disneylândia nordestina.
Lá vê-se e vende-se de tudo: CDs, roupas, cortes de carne, guloseimas e objetos comestíveis não-identificados, entre eles, peixes secos e salgados arrumados no arame ou peixes que boiam em conservas para lá de suspeitas em latas abertas.
É também o cenário perfeito para dar gafes ao mirar um bolo alto (e aparentemente pouco macio): “Não é bolo, é pão de Recife”, diz a vendedora.
Mas nem tudo na feira é “Jesus me chama”. Há tentações como o bolo de rolo, castanhas dos tipos mais variados, rapaduras, uma ou outra tapioca, queijo coalho, manteiga de garrafa e imensos queijos furadinhos. Nem a informação dos especialistas de que queijo furadinho é indício de contaminação por bactérias é capaz de impedir a água de brotar da nossa boca.
Tão ou mais difícil do que descobrir o que são certas guloseimas e ingredientes é entender por que lá todos gostam de música alta. Muito alta. Ensurdecedora.
Cada barraca funciona como um mundo à parte e tem seu próprio sistema de som. Ganha quem colocar o som mais alto e atrair mais dançarinos.
A sensação de passear entre as vielas de barracas é a mesma de mudar o dial de uma rádio FM popular.
Há pouquíssimo artesanato, mas a música tem espaço garantido. Além de um grande palco para shows de cantores e bandas de forró, existem pequenos núcleos para apresentações de repentistas e bandas menores.
A literatura de cordel – uma das características mais marcantes da tradição cultural nordestina – só não passa batida graças à presença de Mestre Azulão.
Aos 83 anos, ele fica em pé ao lado de uma espécie de carrinho de pipoca que expõe seus livrinhos como num varal. Vez ou outra joga conversa fora ou declama alguns de seus cordéis para quem se interessar.
A obra do Mestre acolhe assuntos sérios e populares, como mostram os títulos “O Poder que a Bunda Tem”, “Terror nas Torres Gêmeas”, “As Grandes Aventuras de Armando e Rosa ou Coco Verde e Melancia” e “CPI, Mensalão e Ratos Brasileiros”.
Pequenino, tem orgulho de dizer que já fez inúmeras viagens internacionais, subiu “lá em cima, no último andar das Torres Gêmeas” e deu aulas de Literatura Brasileira na Sorbonne.
Outro cenário perfeito para mais uma gafe. Logo na chegada:
- “O Mestre Azulão é vivo ainda?
 - “Ué, sou eu”.
Depois dessa, o jeito é refrescar a cuca do Sol de 36º com um Guaraná Jesus bem geladinho. Apesar da cor da lata, a bebida tem aparência de guaraná comum, mas com gostinho de chiclete.

Vejam algumas fotos AQUI

2012/01/13

THRILLER

Arquivado em: Matutando — trezende @ 09:03

É inacreditável e inexplicável a intervenção da prefeitura e do governo paulista na Cracolândia. Bate até uma ponta de inveja da ocupação realizada nos morros cariocas.
No dia em que os oficiais paulistas chegaram para detetizar a região, a cena foi idêntica ao clássico clipe de Michael Jackson. Era gente esfarrapada saindo de bueiro, cabelo desgrenhado, mãos queimadas… Todos eles desfilando encolhidos, com as pernas bambas e seguindo uma coreografia de zumbis.
Por que agir assim tão atabalhoadamente? Não estamos nem às vésperas da Fórmula 1 e nem da Parada Gay – épocas em que a prefeitura dá uma maquiada na cidade para receber turistas.
Resposta: eleições municipais. Começou a campanha.
Os desdobramentos têm sido desastrosos. Pouquíssimos viciados procuraram tratamento, outros poucos foram atendidos e muitos retornarão ao vício assim que os tiras virarem as costas.
Vários dependentes foram presos e 16 mil pedras de crack foram apreendidas – segundo a polícia, o suficiente para o consumo em apenas um dia na região. Ou seja, nada.
De positivo mesmo, apenas as 70 toneladas de lixo recolhidas das ruas.
A polícia já avisou que a ocupação é como o Carnaval na Bahia (“não tem hora pra acabar”). Ora, por que não implantam então o esquema de UPPs, como a prefeitura fará no Rio de Janeiro? É a melhor opção para usuários e traficantes – que saberão exatamente onde está instalado o perigo e farão suas negociações bem longe dali.
Resultados, por enquanto, só micos. Surgiu até um ajudante de pedreiro dizendo ser um integrante do Katinguelê (oi?). Com a decisão do governo de vetar bombas e balas de borracha, ninguém pode se vingar.
A palhaçada não termina por aí. Está marcado para este sábado um churrascão de gente diferenciada. A ideia é protestar contra a ação da polícia.
O que o churrascão de Higienópolis tinha de autêntico, irônico e bem-humorado, esse tem de oportunista. É realmente uma pena o sentido do churrascão ter se perdido assim. A operação na Cracolândia não tem graça nenhuma.
Antes restritos a uma região, agora os dependentes se espalham por todos os bairros. Vivemos a “cracolandização da cidade”. Quem diria que um dia sentiríamos saudades da “katinguelização” de São Paulo.

P.S.: Nos próximos dias estarei no Rio. Novos posts a partir de 23/01. Até!

2012/01/12

MA CHE?

Arquivado em: Cri-crítica — trezende @ 09:00

Certos atores já estão tão marcados por personagens que os aprisionaram durante a carreira que se torna complicado para o espectador apagar essas referências. Mesmo os consagrados. Este é o caso de Robert De Niro em “As Idades do Amor” (ou “Manual do Amor 3”, como diz o título original).
Ao lado de Monica Bellucci, De Niro participa da terceira e última história do filme, dividido nos capítulos “Juventude”, “Maturidade” e “Além”.
O ator já emprestou seu rosto sério e mafioso para a franquia “Entrando Numa Fria”, mas desta vez, mesmo se esforçando num striptease, é difícil ele nos convencer de que é um professor de História que se apaixona pela filha do vizinho (Bellucci). Totalmente inverossímel.
Os capítulos são narrados por um cupido-motorista (Emanuele Propizio) que dirige o “Táxi do Amor” e flecha os distraídos.
Além do improvável romance entre De Niro e a estrela italiana, há a história de um advogado prestes a se casar e a de um âncora de TV que começa a ser perseguido por uma maluca. As histórias mal se cruzam.
O filme não chega a ser uma fria. É apenas chocho. Os personagens são riquíssimos e cada capítulo renderia um longa separadamente. Daí a sensação de coisa arrastada.
“As Idades do Amor” foi o vencedor da 7ª Semana Pirelli de Cinema Italiano – organizada pela Câmara Ítalo-Brasileira de Comércio, Indústria e Agricultura – e recebeu o apoio de R$ 40 mil reais para seu lançamento e distribuição no Brasil.
A série é um sucesso de bilheteria na Itália – “Manual do Amor 2” é a segunda maior estreia da história do cinema italiano –, mas apenas o primeiro título estreou por aqui.
Dirigido por Giovanni Veronesi, o mesmo dos anteriores, o filme tem estreia prevista para março.

2012/01/11

AIR FASHION WEEK

Arquivado em: Mentes brilhantes — trezende @ 10:02

As semanas de Moda do Rio e de São Paulo estão aí.
A dica para o holandês Cliff Muskiet é que ele organize seu próprio desfile. Material para isso não lhe falta. Cliff tem uma coleção com 1.068 uniformes de 420 companhias aéreas de todo o mundo – de “Adria Airways” (Eslovênia) a “Zoom Airlines” (Reino Unido).
Desde a infância Cliff é fascinado pelo mundo da aviação. Ele colecionava tudo o que levasse o nome ou o logotipo da companhia aérea, como pôsteres, cartões postais, adesivos, tabela com horários de voos, instruções de segurança e maquetes.
Em 1980 ele ganhou o primeiro uniforme da mãe de um de seus amigos. Ficou tão animado que logo quis ter outros. “Em 1982 soube que duas companhias que operavam voos fretados trocariam seus uniformes. Entrei em contato e fui convidado a ir buscar uma coleção fora de linha”, conta ele no site.
Entre 1982 e 1993 não se esforçou muito para conseguir novos itens. “Algo do qual eu me arrependo muito porque hoje eu teria muitos, muitos mais”.
A maioria dos uniformes foi obtida a partir de 1993. O fato de ter sido comissário de bordo da KLM facilitou a formação da coleção porque sempre visitava companhias locais para conseguir novidades.
Percorri todos os modelos da coleção de Cliff.
A maioria segue o padrão que conhecemos: calça social, saia na altura dos joelhos, camisa branca, tailleur, lenço no pescoço, sapato preto, boina ou quepe.
O que torna tudo interessante são os detalhes: a variedade dos broches, o bom gosto na escolha das estampas, a criatividade na amarração dos lenços, a combinação de cores e o design dos quepes.
Por motivos óbvios, as peças mais variadas e de bom gosto são as das grandes companhias, como  “Air France”, “Iberia” (lindas), “American Airlines”, “United Airlines” e “Air Canada”, com peças que vão dos anos 50 e 60 até hoje.
O destaque é uma coleção da “American Airlines” usada em voos para o Havaí entre 1982 e 2001. Em vez das peças-padrão, quimonos estampados.
Há também os coloridos – “Ghana Airways” (Gana), “Hawaiian Airlines” (Havaí), “Malaysia Airlines” (Malásia) – e o chique (“Kuwait Airways”).
Outros são bem inusitados, como os da “Kenya Airways” (vão servir ou sair pra caçar?); os da “Welcome Air”, da Áustria (que mais parece a vitrine das lojas “Criatiff”), os da “Hapag-Lloyd Express”, Alemanha (vão trabalhar na Fórmula 1?); os da “Gulf Air, do Bahrein (perfeitos para Jeannie, É Um Gênio) e os da “Braniff International”, EUA (totalmente surreais, têm até capacete).
O Brasil está representado por “Gol” (realmente horríveis), “Ocean Air”, “Tam”, “Varig” e “Vasp”.

P.S.: Acima, parte das coleções da “Tap” (Portugal) e da “TWA” (EUA).

Visitem o site AQUI

2012/01/10

HAPPY FEET

Arquivado em: Mentes brilhantes — trezende @ 08:44

A ideia não é nova, mas não menos interessante.
A cada viagem, o casal Tom e Verity Robinson registra imagens de seus pés na frente de pontos turísticos famosos – como as Maravilhas do Mundo Antigo, festivais e destinos exóticos. Até pelo Brasil eles já passaram.
Em seis anos eles clicaram seus “happy feet” em cenários de mais de 31 países, o que resultou na série “Feet First”, com cerca de 90 fotos.
Tudo começou em 2005, quando eles relaxavam numa praia em Brighton e Tom tirou uma foto dos pés da dupla. “Verity e eu estávamos namorando havia apenas seis meses, mas já tinha uma sensação de que ficaríamos juntos por muito tempo”.
O casal não registra seus pés apenas em destinos famosos. Há desde um piquenique em Londres até um por do sol em Portugal.
Os destaques da série são fotos ao longo do rio Maekok, na Tailândia; aos pés de uma pedra vulcânica na Guatemala; um passeio de barco pelas ilhas Whitsunday, na Austrália; uma aventura num 4×4 pela Bolívia; e uma pausa para um descanso durante a subida dos Andes e a chegada a Machu Picchu.
Tom conta que na Nicaragua a segurança não é tão levada a sério. “Pudemos andar sobre uma paisagem derretida e chegamos bem próximo da lava – até o limite que a nossa própria sanidade nos permitiu. Já estávamos quase indo embora quando os calçados de algumas pessoas começaram a derreter. Aí decidimos assar uns marshmallows que um garoto de 12 anos nos vendeu. Prendemos num graveto e o apontamos para a pedra, mas infelizmente eles pegaram fogo e caíram”.
Desde março do ano passado eles contam com uma novidade: a participação dos pezinhos da filha Matilda, cuja estreia foi através do registro do teste de gravidez.
Tom diz daqui a 30 anos será maravilhoso olhar a série e relembrar todos os lugares percorridos. “Reparar que algumas modas vão e vêm e que aqueles pezinhos foram se tornando cada vez maiores”.

2012/01/06

ENIGMA INSOLÚVEL

Arquivado em: Mentes brilhantes — trezende @ 10:04

O ano praticamente nem começou, mas já temos uma forte candidata à manchete do ano: “Stephen Hawking: O homem que entende o Universo acha que as mulheres são um mistério”.
Não é piada do “Sensacionalista”.
A reportagem, do site “The Huffington Post”, é sobre uma entrevista exclusiva do físico à revista “New Scientist” por conta da comemoração de seus 70 anos.
“Este é o cara que luta contra sua doença motora desde os 21 anos e cuja expectativa de vida era de apenas alguns anos. Ele está completando 70 este mês”, diz a matéria.
Capaz de formular complexas teorias, já escreveu livros, dá palestras e consegue se comunicar através da movimentação das bochechas. Enfim, Stephen Hawking é a superação personificada.
Em seu best seller – “Uma Breve História do Tempo”, que vendeu mais de 9 milhões de exemplares – ele explica conceitos avançados como cosmologia, o Big Bang, os buracos negros e os cones de luz.
Segundo ele, nós não somos nada além de uma raça de macacos mais evoluída que vive num planeta pequeno, mas entendemos o Universo. “Isso nos torna especiais”.
“Meu objetivo é simples. É o completo entendimento do Universo, por que ele é do jeito que é e por que tudo existe”. Muito simples, mr. Hawking.
Quando perguntado “No que você mais pensa durante seu dia?”. A resposta foi: “Em mulheres. Elas são um completo mistério”.
A dúvida que fica é: se nem o homem que entende o Universo nos entende, devemos nos envaidecer ou sentar e chorar?

P.S.: nos próximos dias estarei no Rio. Novos posts a partir de 10/01. Até!

2012/01/05

DELÍRIOS CIENTÍFICOS

Arquivado em: Matutando — trezende @ 10:03

Nesta semana, no Reino Unido, foi registrado um caso de gêmeos que nasceram com cinco anos de diferença.
A chamada para a notícia, descrita mais ou menos com essas palavras, desperta a atenção logo de cara. Como é que pode? Cinco anos para nascer? Certos bebês passam alguns minutos da hora do parto e já vêm ao mundo como os Smurfs: azuis. Mas cinco anos?
Durante a leitura, no entanto, a descoberta de que o peixe não é bem o que havia sido vendido. O mistério explica-se da seguinte forma:
Em 2005, os pais dos meninos realizaram um tratamento de fertilidade. Foram criados cinco embriões e dois deles foram implantados. Um vingou e resultou no nascimento do garoto que tem hoje 5 anos. Os três embriões restantes foram congelados. No ano passado o casal decidiu ter outro filho e novamente a Ciência entrou em ação. Aí sim nasce o “gêmeo”.
Cientificamente as crianças – formadas a partir do mesmo lote de embriões – podem até ser consideradas gêmeas, mas daí a usar o mesmo termo para nós, leigos, é quase um abuso. Gêmeos uma ova (sem trocadilho).
Então, toda a fantasia criada em torno de uma mulher grávida durante cinco anos vai por água abaixo. Já filmaram a história de um bebê que nasce velho (“O Curioso Caso de Benjamin Button”), mas um incubado na barriga da mãe por meia década seria uma história e tanto. Uma comédia nonsense, obviamente. Depois de um filme tão “profundo” quanto o de Brad Pitt e Cate Blanchett, um argumento como esse não pode ser levado a sério.
A sinopse: dois bebês que dividem a mesma salmoura se desentendem por razões espaciais e um deles resolve jogar tudo para o alto: nasce. O outro permanece embebido na salmoura, pega gosto pela coisa (com trocadilho) e decide ficar incubado naturalmente. Alimenta-se de forma racionada para não adquirir peso e incomodar a hospedeira. Ali vive solitariamente durante cinco longos anos. Com medo de nascer anão, entrega-se ao mundo.
Daí o roteiro se desenvolve – sempre com foco na personalidade desse ser, egoísta e com baixa autoestima. Já adulto, ele se torna um chef de sucesso.
O título: Minha vida em banho-maria.
Será que Hollywood se interessaria pela minha história?

2012/01/04

MIGALHA DE MUSEU

Arquivado em: Mentes brilhantes — trezende @ 09:38

Em novembro do ano passado um dente molar de John Lennon – cariado – foi vendido por mais de R$ 54 mil. O comprador, um dentista, tinha planos de exibir o dente do astro em seu consultório.
Há dois anos também foram leiloados objetos pessoais de Winston Churchill: uma ponte móvel com apenas seis dentes postiços, um cinzeiro e alguns charutos. A prótese dentária foi arrematada por R$ 46 mil.
Na categoria comida, um pedaço de “french toast” (rabanada) mordido por Justin Timberlake e acompanhado de syrup (espécie de “Karo”) e um garfinho de plástico foram vendidos no eBay por $1,025.
Nos Estados Unidos, um chiclete mascado por Britney Spears e uma garrafa com um pouquinho de cerveja deixada por Kurt Cobain também encontraram compradores.
“O apetite por conhecer mais sobre a vida dos famosos – sem importar a banalidade dos detalhes – é um dos grandes fenômenos culturais do século 21”, diz o site da BBC, que dedicou uma longa reportagem ao “Museum of Celebrity Leftovers” (“Museu das Sobras de Comida das Celebridades”, ao pé da letra).
Há oito anos o café – localizado em Kingsand, sudoeste da Inglaterra – tem levado adiante a experiência de explorar essa obsessão mostrando restos de comida de figuras públicas.
“O crescimento de leilões online com grande quantidade de compradores e vendedores tem alimentado esse mercado – apesar de esses itens causarem problemas aos colecionadores amadores por serem perecíveis”, informa a matéria.
O museu é ideia de Michael e Francesca Bennett. A coleção do casal começou a ser formada há oito anos, após a passagem do fotógrafo de Moda David Bailey pelo estabelecimento.
Logo que ele entrou, o casal quis comemorar a visita de um jeito diferente. Em vez de tirarem uma foto, eles decidiram juntar o resto da comida – as migalhas de um sanduíche, no caso – e colocá-lo numa caixa transparente.
Hoje o museu tem uma seleção de migalhas em vários estágios de decomposição e recebe milhares de visitantes – pessoalmente e online – de várias partes do mundo.
Segundo Michael, “é um instantâneo das celebridades da primeira década do século 21 inglês”.
O acervo é bem variado e, apesar de poucos famosos serem nossos conhecidos, na Inglaterra é um sucesso. Até Charles e Camilla já conheceram o local.
Há “restos comestíveis” do cineasta e produtor Michael Winner, de Peter Doherty (o músico drogado mais conhecido por ter namorado Kate Moss), do jornalista Jan Leeming, do moço do tempo Craig Rich e de Eddie Marsan, um dos atores de “Missão Impossível 3”, que deixou um pedaço de “Cornetto” no museu.
Adoraria inaugurar um museu desse tipo por aqui. Quem tiver migalhas do panetone do Arruda ou da tapioca do Orlando Silva pode entrar em contato comigo.
Uma coisa é certa: com a proliferação das celebridades instantâneas, nunca faltará material ao museu de Michael e Francesca. Nem ao meu.

Confiram o site do museu AQUI

2012/01/03

AQUELE FIO DE CABELO COMPRIDO

Arquivado em: A real do mundo real — trezende @ 10:01

A coletânea de abobrinhas que temos de engolir no período de festas é absurda.
Diante da falta de assunto, não resta outra opção aos jornalistas a não ser requentarmos temas que lemos e assistimos todos os anos: confusão na 25 de Março, simpatias para a hora da virada, dicas para curar a ressaca, a dieta ideal para começar o ano desintoxicado, o réveillon dos famosos e o clássico dia da troca de presentes que não serviram.
No meio dessa falta ineditismo, um artigo chama a atenção: Jesus era um nome comum na Galiléia do início dos tempos (“Yeshua”, originalmente). Mas e a marca registrada do filho de Deus, o cabelo? O visual hippie era típico na época?
Não. É o que revela o site “Slate”. É improvável que o penteado que Jesus exibe em todas as representações religiosas tenha a ver com seu corte real.
Segundo o site, a imagem de clássica – barba e cabeleira comprida e levemente encaracolada – começou a ser formada no século 6. Os primeiros cristãos representavam o cabelo de Jesus de diversas formas – longo, curto, liso, encaracolado, com barba ou barbeado. Há inclusive uma imagem de Cristo careca no British Museum.
“Provavelmente os artistas não pensavam em criar uma imagem histórica. O Novo Testamento não oferece uma descrição física de Jesus, então os artistas baseavam-se em retratos deles mesmos e em diversas ideias sobre como um deus deveria ser. Alguns filósofos, como Santo Agostinho, apreciavam as formas em que Jesus encarnado era retratado. É fácil pintar um homem, dizia ele, mas difícil pintar um deus”.
Há duas explicações possíveis para o surgimento desse Jesus Cristo superstar. Alguns creem que as representações foram baseadas na iconografia dos deuses romanos. Então ele era comparado à segunda geração de divindades pagãs, como Apolo e Baco, não tinha barba e era jovem.
Mas à medida em que ele começou a ser encarado como o “rei dos reis”, sentado no trono dos céus, sua imagem passou a se assemelhar mais à dos patriarcas do Olimpo. Netuno e Júpiter eram maduros, usavam barba e cabelos longos.
Outra explicação é oferecida pelo historiador Herbert Kessler. Segundo ele, os deuses pagãos que eram associados à água, como Netuno, geralmente tinham cabelos compridos que se fundiam à água. Jesus também tinha relação com a água: andou sobre ela, transformou-a em vinho e nas pinturas antigas é mostrado sobre os quatro rios do paraíso. Os primeiros cristãos talvez tenham relacionado esse estilo aos deuses da água.
Há também sugestões de que os primeiros retratistas confundiram Jesus de Nazaré com a ordem religiosa dos nazireus. Segundo a Bíblia, a característica mais comum entre eles era o cabelo comprido e a abstinência do consumo de vinho ou qualquer outro alimento à base de uva.
Segundo o site “Slate”, “essa explicação é inconsistente, já que diversas imagens de Jesus com o cabelo curto sobreviveram à antiguidade”.
Jassa, agora é com você.

2012/01/02

FOI DADA A LARGADA

Arquivado em: Matutando — trezende @ 09:30

Todo Natal é a mesma coisa. Enquanto as propagandas de TV falam no “espírito do Natal”, o povo se mata no supermercado por um cacho de uva Itália ou um peru em promoção. No trânsito, em vez de juntar os polegares para fazer a pomba da paz, o pessoal desenrola o dedo médio. Tudo assim bem natalino.
Réveillon também. Sempre paira uma ansiedade no ar. Natural. O que será igual? O que será diferente? Minha vida vai ser melhor? Que pepinos terei pela frente? E a overdose de notícias por conta do fim do mundo, marcado para 21/12/2012?
Nesta época, a maioria faz milhares de promessas, usa uma peça de roupa para atrair dinheiro, outra para garantir amor, come lentilha, romã e até pedra, se alguém disser que dá sorte. Na falta disso, serve um filé miau nas imediações de Copacabana.
Por que as pessoas têm essa necessidade do ritual da virada, de fazer planos que provavelmente nunca serão cumpridos, de consultar os búzios, de colocar calcinha vermelha, de pular sete ondas, enfim, de taparem o sol com a peneira?
Até quem, teoricamente, não precisaria. Os crentes, por exemplo – aí incluídos, sem distinção, católicos, judeus, umbandistas, budistas, evangélicos e até corinthianos. Eles tendem a fundamentar tudo sob o ponto de vista de sua fé. De uma demissão a um terremoto no Japão, as explicações podem variar na forma – “Deus quis assim”; “Que carma, hein?” ou “Isso aí é a fúria de Deus” –, mas a essência permanece. Uma ótima maneira de justificar o injustificável.
Mesmo eles, seguros do poder divino ou de sua própria fé, usam um look pai-de-santo e comem até pedra, se preciso for.
Assistir às pessoas que acamparam em Copacabana para aguardar a festa do “maior réveillon do mundo” torna esse mistério ainda mais intrigante.
Houve quem chegasse quatro dias antes para, literalmente, garantir um lugar ao sol. Na mala, frango assado, farofa, bolo, torta de frango – e eu que pensava que sopa na garrafa térmica era lenda.
Uma das personagens, uma tiazinha, repousava sobre uma canga que estampava a bandeira do Brasil e usava uns óculos em que o zero do 2012 fazia as vezes de aro. Minha senhora, vá pra casa antes que o fim do mundo chegue antes da meia-noite.
Esses acampantes são apenas uma amostra da quantidade de pessoas que acreditam que a contagem regressiva é feita para dar as boas-vindas não a um novo ano, mas a um anjo ou à fada do dente capazes de realizarem uma magia. Nesse átimo de segundo elas sofrerão algum tipo de mutação e se transformarão em outros seres, mais magros, mais tolerantes, mais ricos, mais saudáveis, mais felizes.
O incompreensível é que o componente realidade surge poucas horas depois desse momento mágico, já na volta para casa. Trânsito engarrafado, toneladas de lixo, mendigos mendigando, pessoas estressadas por um táxi, por um ônibus.
O choque entre o sonho e a realidade não as incomoda – e talvez aí resida o problema.
Pelo contrário, tudo isso parece fazer bem a elas. Elas ainda têm esperança.
Nada contra. Afinal, “elas podiam tá matando, podiam tá roubando”, mas estão apenas brincando de faz-de-conta…
Feliz 2012, gente!

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