O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2011/10/06

O DIA EM QUE PERDI O JUÍZO

Filed under: Diário de bordo — trezende @ 08:17

Faz muito tempo que perdi o juízo. Há mais de uma década.
Foi mais ou menos por aí que tirei o primeiro dente do siso. A experiência se revelou traumática num dezembro de muito calor nas mãos de um dentista tão delicado quanto um homem das cavernas.
Algumas semanas atrás, um segundo dente do siso teimou em inchar e causar incômodo. Estremecida, recebi o diagnóstico de que precisaria entrar na faca novamente. Não havia saída. Era marcar a extração ou sofrer mensalmente com o problema.
Corta para o consultório.
Depois de bochechar um Listerine, ganhar um guardanapo com as bordas enfeitadinhas e me vestirem com uma touca como a da avó da Chapeuzinho, estava pronta para abrir os trabalhos do dia.
A animação cedeu lugar à apreensão quando o dentista – com um semblante tão tranquilo como quem se concentra para arrancar o siso alheio – pergunta se eu já havia me preparado para ficar de repouso.
Dito isso, começou a encapar todos os fios dos motorzinhos que ele tinha à disposição. Não satisfeito, encapou também aquela escavadeira com faróis que ele usa para iluminar a nossa boca. Pensei: a coisa vai ser punk. Vai até jorrar sangue! Senti-me anêmica por antecipação.
Logo em seguida, o momento de maior tensão: ele me cobriu com uma espécie de lençol de necrotério cuja única abertura era o buraco que deixava minha boca à mostra. Fiquei parecendo um vulcão – naquela condição, prestes a entrar em erupção. E a ajudante: “Deixe suas mãos sobre a barriga”.
Gente, é só um siso, não um transplante.
Depois que ele jogou aquele lençol, eu joguei a toalha. E comecei a esperar o pior. Achei que ele ia furar um poço. Fui buscar força na coragem dos mineiros chilenos. Eles, assim como eu, não eram capazes de enxergar nada e tinham de confiar apenas na experiência de terceiros.
Por breves instantes imaginei que iam extrair meus rins. Tive medo de acordar numa banheira cheia de gelo, com um dreno lateral, desfalecida e sem a cápsula Fênix para me tirar dali.
Enquanto pensava no tráfico de órgãos, no mineiro maratonista e no vulcão islandês cujo nome não sei nem pronunciar, escuto: “Curva ou reta?”, perguntou a assistente. Ele: “Curva”.
Será que eles se referiam ao formato da broca? À condição da raiz do meu dente? Ou ao acidente que ocorrera naquela manhã na rodovia Anchieta? Sim, o caminhão derrapou numa curva ou numa reta?, queria saber a ajudante.
Afinal, eram eles ou eu quem estava perdendo o juízo?
Graças a um esbarrão, o buraco do lençol de necrotério moveu-se de leve e pude conferir rapidamente o que se passava: com uma pinça com uma gaze na ponta ele espalhou um líquido marrom de cheiro tolerável ao redor da minha boca, queixo e região do nariz.
Os faróis da escavadeira me serviram de espelho e pude conferir o o que eu já suspeitava: que eu estava parecendo um buldogue disfarçado de vulcão.
Fiz graça para mim mesma latindo mentalmente. Apesar de tentar disfarçar, mantinha-me preocupada com o acidente que aconteceria em alguns minutos. Alguém ali ia sair ferido – e não ia atrapalhar em nada o trânsito paulistano.
Novo esbarrão, o lençol de necrotério volta para a posição de onde nunca deveria ter saído e meus olhos não puderam mais acompanhar as obras. Tive de me contentar com o ronco dos motores.
Mal invoquei o padroeiro dos mineiros e o patrono dos pilotos de britadeira, o dentista me avisa: “Já saiu, Tatiana”.
Mas assim, tão rápido? Que anticlímax. Fisicamente, podia até estar fantasiada para ser despachada para o céu, mas meu preparo psicológico era de quem estava disposta a chegar ao centro da Terra.
Na verdade, bem lá no fundo, suspirei aliviada e pus os olhos no tesouro que acabara de ser garimpado.
“Quer que eu embrulhe?”, perguntou o dentista.
Pra viagem, por favor.

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10 Comentários »

  1. Tatiana
    Do titulo ao ponto final: BRILHANTE!!!
    Nunca, antes na história desse pais alguem descreveu essa experiencia com tanta competencia.rs
    Adoreeeiii!!

    Comentário por picida ribeiro — 2011/10/06 @ 09:36

  2. Demais, não, Picidinha? Também amei o relato.

    E a gente ali, pronta para ter a boca implodida, e eles perguntando se desejamos sabor framboesa ou limão para a pré-anestesia? Lá em SM rolou até um “deseja assistir a desenho animado, musical…?”

    Beijocas!

    Comentário por Selma Barcellos — 2011/10/06 @ 10:24

  3. Sofri tanto o dia que perdi meu juízo!!! E olha que foram três vezes.
    Tive este azar, enquanto uns perdem somente uma vez.
    Minha boca parece a boca do Sílvio Santos… tem muuuuuuuuitos dentes… rsrsrsrsr
    Adorei passear pelo seu cantinho e ler esta tua narrativa.
    Abraços

    Comentário por Malu — 2011/10/06 @ 11:38

  4. Noooossa!
    Eu tirei os 4 de uma vez..Você descreveu mto bem a situação,eu pelo menos tbm fiquei mto tensa!
    :*

    Comentário por Limitando Blog — 2011/10/06 @ 15:00

  5. Pelo fato de se acomodar naquela almofadada cadeira ja da arrepio.

    Comentário por Juventino — 2011/10/06 @ 16:05

  6. PARABENS! VOCÊ JÁ PODE SER ROTEIRISTA DE FILME DE TERROR.

    MAURO ANDRADE.

    Comentário por mauro andrade — 2011/10/06 @ 17:06

  7. O pior incômodo deve ter sido o bochecho de Listerine, não?

    Comentário por Ricardo Rezende — 2011/10/06 @ 21:20

  8. Tati!! AMEI! A melhor descrição de todos os tempos de uma extração de siso! Fiquei tensa enquanto lia e AMEI a maneira como você colocou o final: “Mas assim, tão rápido? Que anticlímax.” Bjão.

    Comentário por Vaninha — 2011/10/10 @ 10:25

  9. Eu pude me ver quando li seu relato…
    comigo foi tudo (quase) igual, pq sofri mais um pouco com um dente que estava incluso…
    mas eu ri bastante lendo pq eu me imaginei quando estive na mesma situação..
    beijos…

    Comentário por camilacdias — 2011/10/12 @ 22:51

  10. Nossa tirei meus 4 de uma só vez e não fiz todo esse drama…sabe porque ?? meu dentista foi tão bonzinho que receitou um calmante antes de fazer a cirurgia rsrsrsrs
    não senti absolutamente nada nem antes nem durante e dpois tanto é que no dia seguinte apresentei trabalho na faculdade ;) sem inchaço sem nada

    Comentário por silmara — 2011/10/13 @ 17:14


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