O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2009/08/22

OLHANDO PARA A LENTE DA VERDADE

Arquivado em: Matutando — trezende @ 09:21

vuitton

cordaDia desses, assistindo a um dos inúmeros programas de auditório que povoam a TV nas tardes de sábado, a comprovação de que o sadismo humano não se restringe à infância – talvez a única fase da vida em que as verdades são ditas sem quaisquer ironias.
O quadro: “Verdadeira Idade” – algo na linha do “Antes e Depois”. A personagem: mulher depressiva que se descuida do visual e da saúde para cuidar da família. A dinâmica: anônimos tentam adivinhar a idade da vítima. O requinte de crueldade: fazê-la passar por uma transformação.
Longe da família, a eleita fica sob os cuidados da produção do programa por um mês. Entram em cena profissionais como cabeleireiro, maquiador, dentista, nutricionista, dermatologista, stylist e até professor de passarela.
Após funilaria e pintura, a escolhida reencontra a família. Entre lágrimas e o esmero para não estragar a chapinha, declara que dali para frente terá uma nova vida. O que a vítima talvez não tenha conhecimento é de que muito em breve tudo voltará a ser um inferno – possivelmente pior até do que era anteriormente.
Batizemos a situação de “parte pelo todo”. Ela é comparável à saída do salão de beleza, quando os cabelos estão idênticos aos dos comerciais de shampoo: esvoaçantes, sedosos e brilhantes. Na primeira lavada se transformam numa bucha orgânica e tomam formas que variam entre capacete, cogumelo e lã de carneiro.
Como retornar à realidade após ter vivido semanas como num conto-de-fadas? Como manter os quilos perdidos no spa ou a pele lisa sem tratamentos como máscaras de cristais e peeling? Feita a recauchutagem, quem vai fazer a manutenção do curto-circuito que irá surgir na parte elétrica?
Daí o espírito sádico do ser humano – a fulana que entrará em pane será a última a saber.
A ideia do quadro não é nova. De tempos em tempos ele ressurge com outro nome, apesar de a proposta ser sempre a de “consertar” a vida de alguém. A ressalva é que esse alguém geralmente é muito humilde e desprovido da noção de “day after”. Sofre de câncer, mas acredita que o álcool-gel dará conta do recado.
Nesse momento, a cruel franqueza infantil é característica perdida num passado muito distante.

O tema Rubric Blog no WordPress.com.