
Que ninguém compre a ideia de que o Carnaval é a festa da comunidade – estou convicta de que os leitores deste blog não são ingênuos a esse ponto.
Antes fosse o momento em que as popozudas se estapeiam para aparecer melhor na foto. A comemoração do povo é, na verdade, um grande balcão de negócios. Os camarotes das cervejarias poderiam ter seus nomes mudados para “Escritório da Fulana”, “Escritório da Sicrana” – a própria posição deles na avenida favorece o funcionamento como balcão comercial.
Todos amam “a emoção da avenida”, mas a maioria está ali fechando altos negócios.
Primeiro que a maioria das celebridades convidadas recebe cachê. Bons cachês. Os que não ganham nada fazem valer a presença a médio prazo. Um não quer dar entrevista para a emissora tal, o outro não aceita tirar foto com quem não conhece, um terceiro esconde o logotipo do banco na camiseta porque é garoto-propaganda do concorrente e por aí vai. É um ringue de telecatch onde tudo é permitido. Até sambar.
Lula foi alvo de duas tentativas de negócios – se serão bem-sucedidas só saberemos após a festa.
Valeska dos Santos, rainha de bateria da Porto da Pedra e integrante de um conjunto chamado “Gaiola das Popozudas”, tentou ir além da foto da capa. Quis passar a impressão de que é íntima do presidente.
Após se queixar da ausência dele no segundo dia dos desfiles cariocas, aproveitou para falar do funk que compôs para ele – ambos se encontraram em duas ocasiões.
Breve parêntese para um dos trechos: “Senhor presidente, por favor, reconheça, o funk é cultura e não sai da minha cabeça. O senhor é do povo, escute o que ele diz”.
A outra investida foi da atriz Susana Vieira – que aparentemente não precisa, mas nunca se sabe do dia de amanhã, não é mesmo? A atriz revelou que o presidente já lhe passou uma cantada. Diante do espanto da repórter, se explica: “Quer dizer, me cantou, não!”. Ao encontrar Lula numa solenidade em Brasília, ele a abraçou “assim [faz sinal de aperto com os braços] e falou: “Minha atriz favorita! Minha senhora do destino! Levei 30 anos para te conhecer!’”.
Será que Lula tem noção de que era peça de açougue? A imprensa presenciou a retirada de dois bifinhos, mas com certeza outros fregueses passaram pelo estabelecimento.
Houve um extraterrestre perdido no salão que foi na contramão dessa prática – mas infelizmente não admitiu, por vergonha ou recomendação de assessores.
Trata-se de nossa primeira-dama Marisa Letícia, que disse estar lá por causa do amigo e companheiro Neguinho da Beija-Flor.
Dona Marisa foi a única que realmente se divertiu. Bebeu cerveja no copo dos outros, sambou, pulou e foi à avenida quatro vezes.
Por tudo isso, a solitária foliã da Sapucaí é merecedora da chave da Cidade do Samba.