O Mundo Gira, A Lusitana Roda…

2008/12/27

É QUEM ME DIZ

Arquivado em: Mentes brilhantes — trezende @ 02:20

 

quirk 

 

oculos1O mundo está cheio de situações e pessoas estranhas. A própria vida é um troço bem esquisito. Ninguém sabe de onde veio, para onde vai ou o que faz por aqui.
Mas um livro recém-lançado no Brasil pode nos ajudar a entender parte desses grandes mistérios da humanidade. Trata-se de “Quirkology” traduzido como “Esquisitologia – A Estranha Psicologia da Vida Cotidiana”, de Richard Wiseman.
Richard é professor da Universidade de Hertfordshire, na Inglaterra, e doutor em Psicologia. Há mais de 20 anos se dedica à ciência do dia-a-dia.
No livro ele aborda temas como a relação entre a data de nascimento e a sua personalidade; apresenta os dez temas que melhor funcionam numa conversa; de que forma o sobrenome influencia a escolha da profissão e como identificar um mentiroso (a dica é, em vez de vê-lo, ouvi-lo. Os melhores sinais são dados pela voz e no modo como ele usa as palavras).
Além disso, Wiseman tenta responder a questões do tipo: Por que políticos incompetentes sempre vencem as eleições? O que leva alguém a estacionar numa vaga para deficientes não sendo deficiente? Qual a piada mais engraçada do mundo?
Para elucidar essas inquietações Wiseman conduziu experimentos nas principais cidades do mundo. Nas ruas, estações de trem, exibições de arte, concertos e até em casas mal-assombradas.
Wiseman não iniciou sua carreira como psicólogo, mas como mágico. Ele começou a se interessar por mágica e ilusionismo aos 8 anos de idade. Na escola, gostava de mostrar truques que considerava inacreditáveis.
Ao se dirigir a uma biblioteca para fazer uma pesquisa sobre xadrez acabou parando, por engano, na seção de livros sobre ilusionismo. Nos dez anos seguintes se dedicaria ao assunto. Virou mágico profissional. A psicologia só entraria em sua vida anos depois.
Wiseman vê muitas semelhaças entre mágicos e psicólogos. Segundo ele, ambos são fascinados pelo funcionamento do mente humana.
O “Laboratório do Riso” é considerado pelo próprio seu melhor experimento. A fim de descobrir qual a piada mais engraçada do mundo, ele reuniu 40 mil sugestões de todo o mundo. Após a avaliação de um milhão e meio de pessoas descobriu-se que a campeã não é a mais engraçada, mas a mais assimilável para pessoas de diferentes países, culturas e línguas.
A piada vencedora foi enviada por um sujeito de Manchester:
“Dois caçadores caminham na floresta quando um deles, subitamente, cai no chão com os olhos revirados. Não parece estar respirando. O outro caçador pega o celular, liga para o serviço de emergência e diz: ‘Meu amigo morreu! O que eu faço?’. Com voz pausada, o atendente explica: ‘Mantenha a calma. A primeira coisa a fazer é ter certeza de que ele está morto. Vem um silêncio. Logo depois, se ouve um tiro. A voz do caçador volta à linha. Ele diz: ‘OK. E agora?’”.
É boa, mas já ouvimos melhores.

Qual o grau de esquisitice dos leitores deste blog? Façam o teste AQUI

P.S.: Ficarei sem acesso à Internet até o dia 1º de janeiro. Aproveito para desejar a todos um 2009 mágico, engraçado e feliz.
Até o dia 02!

2008/12/26

NOITE (IN) FELIZ

Arquivado em: Cri-crítica — trezende @ 01:55

feliznatal2

claquete1A sugestão não é das mais apropriadas, mas pelo menos o título é adequado ao dia. Refiro-me a “Feliz Natal”, filme de estréia do ator Selton Mello na direção.

Apesar de ter sido premiado em festivais de cinema país afora, o filme mal entrou em cartaz e está apenas em duas ou três salas em São Paulo.
Não é preciso grandes elucubrações para entender o motivo. É provável que os espectadores o tenham rejeitado porque “Feliz Natal” é perturbador em todos os aspectos. Pela temática – a solidão e demais desgraças do ser humano –, pelos atores feios e pelos ambientes escuros e sujos, como um ferro-velho, bares da boca do lixo e até um cemitério. Não é o melhor passatempo para se ter em família na data de hoje.

A sensação de repulsa passa bem devagar. Os primeiros 20 minutos são um convite ao sono, mas a história vai fazendo sentido e no final já consideramos promissor o futuro de Selton Mello atrás das câmeras.

O enredo – também escrito por ele – envolve uma família totalmente desestruturada. Os pais são separados há anos, a mãe é viciada em barbitúricos, o pai namora uma jovem, um dos filhos carrega um passado sombrio, não tem onde cair duro e ainda recebe uma ajuda do irmão – o único equilibrado da família. A noite de Natal é o momento dos (des) encontros.

“Feliz Natal” é uma tensão constante. Como as personagens são cercadas de problemas, vive-se a expectativa de que algo não vai terminar bem. Todos são vítimas em potencial. Esse jogo de adivinhação se revela intrigante.

Excetuando-se atores de primeiro time que estavam esquecidos – como Darlene Glória, Lucio Mauro, Emiliano Queiroz e Paulo Guarnieri – falta naturalidade a alguns coadjuvantes, como o que interpreta o cunhado-mala ou mesmo o garoto Bruno, o fio condutor da trama.

Mas “Feliz Natal” é “novidadeiro”, bem filmado, cheio de movimentos de câmera, longos planos-sequência. Muitos devem tê-lo acusado de maneirista, mas num mundo carente de criatividade o que poderia ser defeito torna-se mérito.

Para quem gostaria de assistir a um filme de Natal sem Papai Noel, renas e família sorridente e não se incomoda com a pequenez do ser humano, “Feliz Natal” é uma boa pedida.

FELIZ NATAL A TODOS!

2008/12/25

DESGRAÇA ALHEIA

Arquivado em: Mentes brilhantes — trezende @ 00:56

 

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medoNatal é momento de paz, mas a criança aí em cima não parece estar no clima da festa. Ela ratifica que não são apenas os pais que ficam em pânico nesta época do ano.

O hilário e chocante registro não é novidade – muitos já devem ter recebido imagem parecida através de emails que circulam em nossas caixas postais.
Ela faz parte do livro “Scared of Santa: Scenes of Terror in Toyland” – algo como “Medo do Papai Noel: Cenas de Terror na Terra dos Brinquedos” – que reúne mais de 250 fotos de crianças apavoradas com a presença daquele que para elas é o mau velhinho.
Algumas se esgoelam, outras exibem um olhar de medo, há as que estão com jeito de quem segura o choro e as que fisicamente demonstram-se tensas.

Publicados no site do jornal “Chicago Tribune”, os flagrantes foram responsáveis por 30% das visitas do website no ano de 2006. Foram mais de 850 mil visitas.

De fato, as imagens são ótimas. Há muito tempo não gargalhava sozinha como quando selecionava as fotos para este post.

A idéia partiu do próprio jornal. Entre 2003 e 2006 eles pediram que os leitores enviassem suas fotos prediletas de petizes que se sentiam aterrorizados pelo Papai Noel. Receberam milhares de imagens. As melhores viraram o livro organizado pelas editoras – e mães – Denise Joyce e Nancy Watkins.

Após selecionarem as fotos, elas chegaram a algumas conclusões. Inúteis, porém interessantes: 1) gêmeos do sexo masculino têm mais medo do Papai Noel do que as gêmeas; 2) crianças com roupas “de festa” não têm um olhar mais festivo do que as outras; 3) Papais Noéis mais antigos despertam mais terror.

A idéia do “Chicago Tribune” me inspirou a pensar em fazer algo parecido aqui no Brasil. E aí, alguém tem fotos de crianças desesperadas por causa de palhaços?

Vejam algumas fotos do livro AQUI

FELIZ NATAL A TODOS!

2008/12/24

A LONGA ESTRADA DA VIDA

Arquivado em: Matutando — trezende @ 02:25

 

car-swim

 

binoculosSão Paulo teve ontem seu dia de Santa Catarina. Ruas alagadas, pessoas ilhadas, carros presos em congestionamentos que chegavam a 20 quilômetros e muita chateação para quem não tinha para onde fugir.

Minhas férias me deram o luxo de cancelar os planos para a tarde logo que notei as nuvens negras.

No domingo, entretanto, não tive a mesma sorte. Subestimei o toró e me dei mal. Fiquei refém de um engarrafamento na marginal Pinheiros por cerca de uma hora. Ninguém ia nem pra frente, nem pra trás. Automóveis foram desligados.

Após a inevitável pergunta – quanto tempo isso vai demorar? – vem a certeza de que todo esse concreto às vezes nos sai caro demais. Inicia-se uma busca por algo. Tanto dentro quanto fora do carro.

A experiência não foi das mais divertidas, mas peculiar. Foi como se eu estivesse no Simba Safari apreciando os animais.

Um grupo de amigos passa o recibo de que está acostumado à cena – fruto talvez de viagens ao litoral paulista em véspera de feriados. Dois deles saltam e resolvem dar uma volta. Vão caminhando até desaparecem em meio ao caos.

No carro ao lado uma gordinha não dava a mínima para o problema. Saboreava calmamente o terço final de um pacote de waffles.
Serenidade não era o clima que reinava no automóvel poucos passos atrás. Enquanto o motorista curtia um som e fazia as coreografias que o volante lhe permitia, a mãe mantinha-se imóvel. Pelo semblante e os cabelos amarrados num coque, rezava o terço.

Os habitantes de um jipão com insulfilm escuros sentiam-se em casa. Apesar da dificuldade em enxergá-los, era possível notar o rádio ligado. A que parecia a mãe retira os sapatos e coloca os pés sobre o painel. Poucos minutos depois pula o banco e vai para fazer companhia para os rebentos no banco traseiro.

Mas a melhor cena se desenrolaria no Golf à minha frente. Um casal começa uma discussão. Ouvem-se gritos, o balanço do carro, tapas e torções de braço entre os envolvidos. Os passageiros do ônibus se ouriçam e vem o silêncio. A calmaria dura poucos segundos. Novos agarrões e gritaria. Duas motos da Polícia Militar que passam distraidamente põem fim ao pega. Tristeza para o pessoal da arquibancada móvel que acompanhava o espetáculo.

Além de involuntariamente instituir a paz no Golf, os dois policiais eram o prenúncio de que a largada estava para ser dada. Os dois amigos retornam ziguezagueando em meio aos carros, ouvem-se sons de motores. Lentamente a ordem vai se instalando.

As lições de um dia de chuva: 1) tenha sempre à mão guloseimas, livros e aparelho de MP3;  2) mantenha a calma. Seu carro poderia ter sido levado pela enchente ou você ter sido vítima de um arrastão; 3) se for discutir dentro do carro, cobre ingresso do pessoal do ônibus; 4) não dê comida aos animais.

 

2008/12/23

HO! HO! HO!

Arquivado em: A real do mundo real — trezende @ 03:17

santa

giftEstamos no mês mais aguardado do ano. Sinal de férias, de lucros para o comércio, comilança, troca de presentes, mas também de caos. Para uma minoria, o nascimento do menino Jesus.

Acusado de mercantilista, o Natal é carregado de símbolos irreais para o brasileiro, como neve, um velhinho gordo e com trajes nada apropriados em nosso verão.

As discussões sobre o significado da data são intermináveis.

O caderno de variedades do jornal “Folha de S. Paulo” destaca hoje em sua capa um ensaio do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss. Inédito no Brasil, “O Suplício do Papai Noel” trata desse tema que vem à tona todos os dezembros.

Li a matéria duas vezes. Pouco entendi. Não estou muito certa se é o repórter quem escreve mal e confusamente ou se o livro é mesmo complicado – mas fico com a primeira opção.

Lévi-Strauss diz, entre outras coisas, que em lugar da divisão socioeconômica o que se tem é uma nova separação simbólica. Entre crianças – que recebem os presentes – e adultos – que se esforçam para manter o segredo da não-existência do bom velhinho. Cabe a Papai Noel separar e unir esses dois grupos.
Até aí tudo bem. Depois começa a viagem: o antropólogo fala que as crianças podem significar a morte.
Reli a matéria e perdi a paciência. Cheguei à conclusão de que é mais fácil comprar o livro e tentar compreendê-lo sem intermediários.

Se a resenha não foi útil para clarear a polêmica natalina, pelo menos serviu para que eu conhecesse um livro de Graciliano Ramos em que o assunto é tratado num tom mais apropriado à nossa realidade.
Diz ele, em “Viventes das Alagoas”: “No interior, tudo é diferente. Nem francês de barbas, nem árvore com frutos enrolados em papel de seda, poucas mesas fartas, ausência de piedade”. Para Graciliano, o Natal sertanejo é uma festa profana, uma grande feira que tem muito do Carnaval e dos torneios artísticos.

Bingo! É a melhor interpretação da data que já vi. Não há nada mais carnavalesco do que o nosso Natal. Uma festa movida a suor e lágrimas, em que o pobre tem de sambar para colocar o peru na mesa, em que as pessoas se fantasiam para a noite da ceia.

Lévi-Strauss  só começa a fazer algum sentido quando percebe-se que há mesmo um esforço coletivo para se manter o segredo da não-existência de tudo isso.

 

Leiam a ininteligível matéria da “Folha de S. Paulo” AQUI

2008/12/22

CARA DE CONTEÚDO

Arquivado em: Vox populi — trezende @ 01:30

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oculosO brasileiro lê muito pouco. Em parte pelos altos preços dos livros, em parte por pura falta de interesse. Mas o que é pior: assumir que não lê ou mentir a respeito?

Uma pesquisa realizada na Inglaterra mostra que quase a metade dos homens e um terço das mulheres já mentiram sobre livros na tentativa de impressionar um parceiro em potencial. Uns para parecerem mais românticos, outros mais intelectuais.

Os pesquisadores britânicos acabam de entrevistar 1.543 pessoas. Além de adultos foram ouvidos 864 adolescentes com idades entre 12 e 19 anos. Entre eles, 74% admitiram ter fingido ler algo para impressionar o grupo ou como arma de conquista.

A pesquisa fez parte da programação do “Ano Nacional da Leitura 2008”.

Além da quantidade expressiva de Pinóquios ingleses, vale realçar que gêneros despertam interesse em homens e mulheres.

Uma moça que passa os olhos pelos sites de notícias é a mais atraente para os lordes de lá. Em segundo lugar vêm as que lêem Shakespeare, letras de músicas, livros de culinária, poesia e a biografia de Nelson Mandela, “Longa Caminhada Rumo à Liberdade”.
O que mais impressiona as mulheres é a biografia de Nelson Mandela, seguida por Shakespeare, livros de culinária, poesia, letras de música e sites de notícias.

Com pequenas variações, o perfil entre homens e mulheres inglesas é bem parecido. É entre os adolescentes que o bicho pega. Cerca de 25% gosta que seu alvo amoroso “leia” Facebook ou Myspace.
Se a tendência se confirmar nos próximos anos o Reino Unido é forte candidato a Brasil.

Olhem só quem apareceu ontem a poucos metros do prédio onde moro. Não pude me furtar ao registro:

 

show-madonna-e-lusitana-0961      show-madonna-e-lusitana-0982 

2008/12/21

CARREGARAM NAS TINTAS

Arquivado em: Absurdos nossos de cada dia — trezende @ 01:16

 

grafite

 

rolo A linha que separa o grafite da pichação é muito tênue. Para os mais conservadores é tudo a mesma coisa: sujeira que emporcalha muros e prédios das cidades.

A verdade é que o grafite é considerado uma das formas de “street art”. Diferencia-se da pichação por ser mais complexo. Normalmente é previsto, estudado e pode demorar dias.
Há trabalhos lindos e criativos – como esse aí em cima, em Olinda –, mas há os feitos por grafiteiros sem talento que são praticamente pichações.

A questão é polêmica e esta semana ganhou ainda mais destaque com a libertação de Caroline Pivetta da Motta, a pichadora de 24 anos que ficou mais de 50 dias presa por participar de uma pichação dentro do prédio da Bienal de São Paulo.

Em outubro, Caroline e mais 40 pessoas do grupo de pichadores “Sustos” “expressaram-se” em algumas muretas em um andar da 28ª Bienal de Artes.

A jovem está errada? Sim. Deveria ter sido presa? Não. Alguém precisava ser pego para Cristo. E foi Caroline.

Alguns pontos chamam a atenção no episódio. Por que uma ação tão espetacular da polícia por causa de alguns rabiscos dentro de um prédio que, em tese, serve para dar voz a manifestações? A resposta é simples: porque o local estava tomado pela imprensa, que na ocasião cobria a Bienal do Vazio.

Os policiais poderiam ter aproveitado e prendido o artista plástico Maurício Ianês – que ficou peladinho para a performance “A bondade de estranhos”. Maurício também deveria ter sido algemado. Por atentado ao pudor.

Se pichação é crime ambiental com pena de até um ano de detenção, o de atentado ao pudor pode dar de 6 a 10 anos de cadeia.

E aí me uno ao ministro dos Direitos Humanos, que defendendo Caroline, afirmou que Daniel Dantas ficou no xadrez por muito menos tempo. Não há dúvidas de que há gente perigosa solta por aí.

No fundo, a prisão não passou de uma grande aventura para Caroline. Na saída da penitenciária ela até fez propaganda de seu grupo. Mais eficaz teria sido puni-la com uma multa à la Lei Cidade Limpa.

Em São Paulo, comerciantes que não adequam a fachada de seus estabelecimentos à lei criada por Gilberto Kassab são penalizados com multas a partir de R$ 10 mil. Se persistirem têm de pagar o dobro.
Gostaria de saber se mexessem no bolso da garota ela ia sair da prisão tão sorridente.

 

2008/12/20

DEU ZEBRA

Arquivado em: Cri-crítica — trezende @ 00:01

pijama

claquete Dezembro é um mês sofrível para os amantes do cinema. A programação é dominada por filmes infantis. A questão não é o gênero, mas como já sublinhei outras vezes, a distribuição cada vez maior de cópias dubladas – “Madagascar 2” está aí para não me deixar mentir.
É a época do ano em que se pode esperar um novo filme de Renato Aragão, um de Xuxa e os blockbusters com temas natalinos como “Grinch” (2000) ou “O Expresso Polar” (2004) – uma animação bem diferente com Tom Hanks.
A dica para escapar dessa previsibilidade de fim de ano é “O Menino do Pijama Listrado”, baseado em livro homônimo do irlandês John Boyne.
O filme é a visão de uma criança sobre a Segunda Guerra Mundial. Bruno, o protagonista, é filho do comandante de Auschwitz e acredita que o campo de concentração é na verdade uma fazenda. Além disso, crê que o uniforme que os confinados são obrigados a usar é um reles pijama listrado.
A amizade que Bruno estabelece com um dos prisioneiros – que tem a mesma idade que ele – se dá através da cerca elétrica.
A premissa é maravilhosa, mas pelo menos no cinema não acontece. Talvez o maior azar de “O Menino do Pijama Listrado” é a inevitável comparação com um filme de temática semelhante, “A Vida É Bela”. A idéia de Roberto Benigni de o pai ter de usar a imaginação para fazer o filho acreditar que eles são parte de uma brincadeira ainda é genial.
Não conheço o livro de John Boyne, mas no filme os diálogos entre as duas crianças – que teoricamente seriam a essência da história – são pouco explorados. A visão do garoto sobre a guerra resume-se quase que exclusivamente aos juízos que faz sobre a “fazenda” e o “pijama”.
O filme ganharia em dramaticidade – ou até humor – se tivesse investido mais na verborragia e deixado de lado a observação.
Apesar disso, “O Menino do Pijama Listrado” é uma boa pedida para quem não pode ver Borat dublando um dos lêmures em “Madagascar 2”.

2008/12/18

TERRA DE CEGO

Arquivado em: Era uma vez — trezende @ 19:21

nemo

 

maqescrever Era uma vez um pato. Que não era o mais feio da lagoa, mas o mais metido. Eis que de um dia para o outro e inexplicavelmente surge um peixe-palhaço. De tanto o procurarem, Nemo resolveu largar as telas e levar uma vida num ambiente menos hostil.
Mas nos planos do peixe não estava a convivência com esse problemático vizinho, que se julgava superior por ter servido de inspiração a João Gilberto. E é improvável que o rei do lago fugisse à sua arrogância. Seus pais já carregavam a fama de antipáticos por originarem o termo “dois patinhos na lagoa”. Numa época remota, em que poucos se arriscavam num passeio vespertino, o casal realizava um lindo balé sob a luz da Lua.
O que poucos notavam é que apesar de encarnar o leão naquelas águas, o pato era manco. Por causa do problema, mal saía do lago. Passava o dia inteiro dando rodopios e singrando o espelho d’água. Fazia tantos desenhos que peruanos chegaram a pensar que ele pudesse ter riscado as linhas de Nazca. A suspeita mais o perturbava do que o envaidecia. Sabia que isso jamais seria possível. Ciente de sua limitação, colhia os louros e pensava no amanhã.

A chegada de Nemo representava uma grande ameaça. Por tudo. Por ter sido famoso, por ter se separado dos pais na infância e ter dado a volta por cima, por ter se transformado em herói e principalmente por ser o único capaz de desvendar seu segredo. É necessário esclarecer que o mercúrio utlizado por garimpeiros da região havia deixado os poucos peixes dali com catarata.
Nemo, entretanto, não estava nem aí para os olhares desconfiados que o pato lhe dirigia. O que mais queria era tranquilidade. Perto dos tubarões que já havia enfrentado o pato era apenas um pato. Nemo pouco dizia sobre como chegara até o lago. Mas também haviam desistido de interrogá-lo depois que foram conquistados por sua extrema simpatia. Todos, exceto o pato.

Três dias depois o pato aparece morto. Não conseguindo suportar a pressão, ingerira grande quantidade de folhas de comigo-ninguém-pode.

Nemo lamentou a morte do vizinho e o fato de mal tê-lo conseguido cumprimentá-lo. Fazia dois dias que ensaiava uma apresentação: “Muito prazer, me chamo Juca, vim para cá trazido por uma enchente. Todos me confundem com o Nemo, mas a mancha branca em meu corpo é de nascença. Quer ser meu amigo?”.

  

2008/12/17

TONTEANDO A BARATA

Arquivado em: Mentes brilhantes — trezende @ 09:58

 

chinelo

 

bandaid3A imagem do ano não é a sapatada espetacular em Bush, mas essa aí em cima. A foto é da agência Associated Press e mostra um menino palestino durante um protesto em Gaza contra o presidente norte-americano.

A imagem desperta atenção por um simples motivo. Reparem na alegria do garoto. Vivendo num local de tensão como Gaza, poucas vezes na vida ele deve ter dado uma risadinha tão marota quanto essa.
Graças à pouca idade, talvez não entenda muito bem o que move o conflito entre palestinos e israelenses ou o motivo da interferência americana, mas compreende exatamente o significado do que tem em mãos. Na cultura árabe, uma pessoa alvejada com sapatos está abaixo da sujeira que eles pisam na rua.
Qualquer criança de 9 anos entende, mas Bush prefere dar uma de joão-sem-braço. Declarou que o repórter iraquiano que o atacou só queria aparecer na TV. E conseguiu. O presidente não crê que foi uma reação de raiva contra o sistema.
A afirmação de Bush prova que ele está mesmo ruim da cabeça. Pensa que está na Disneylândia, não em Bagdá.
Não imagino que agência publicitária tenha a conta da sandália Havaianas, mas a imagem do menino palestino é um comercial pronto. “Teste o poder das Havaianas. Compre Havaianas e faça uma criança palestina sorrir”. Essa é apenas uma das inúmeras opções.
O repórter iraquiano Muntazar al Zaidi deveria ser premiado. Não tanto pelo seu ato, mas pela criatividade.
É provável que toda a imprensa tenha passado por uma revista rigorosa antes de adentrar a sala onde ocorria a coletiva. Mesmo sendo uma visita-surpresa, Bush e sua equipe não se arriscariam ao ponto deixarem um homem-bomba no mesmo ambiente que eles.
Sem ferramentas, Muntazar se virou. Deveria receber o prêmio “Mac Gyver de Criatividade”. Dispensou o chiclete e conseguiu fazer de seu sapato uma bomba.

 

2008/12/16

DIA DE LARVA

Arquivado em: Cri-crítica — trezende @ 18:26

show

music1Madonna literalmente debutou no Maracanã no domingo. Fazia exatos 15 anos que ela não pisava no Brasil. E a festa foi bonita – não a trocaria por uma viagem à Disney.
Os bailarinos fizeram as vezes de cadetes; nós, de padrinhos e madrinhas; e Madonna, claro, no papel dela mesma: a de estrela da noite.
O show foi tão inesquecível quanto a valsa das que celebram seus 15 anos.
Além da qualidade da produção e de toda parafernália tecnológica – telões com imagens de fotos e clipes, efeitos de laser, palco que sobe, que desce, trono que aparece e desaparece, carro que entra e que sai, DJ internacional e várias trocas de roupa – Madonna escolheu o repertório a dedo. Agradou fãs antigos – com “Borderline”, “Vogue”, “La Isla Bonita”, “Into the Groove”, “Express Yourself”, “Human Nature” e “Ray of Light” – e os recém-conquistados com “Hung Up”, “Give it 2 Me” e “Four Minutes”.
Mas Madonna despertou a larva adormecida dentro do público com “Like a Prayer”, que transformou o Maracanã numa grande lata de “Mexican Jumping Beans”. Foi lindo assistir ao pula-pula num dos hits mais polêmicos da cantora – estão lembrados daquele videoclipe em que ela beija um santo negro?
A chuva não arredou pé. Em certos momentos apertava e parecia o dilúvio. A bicharada até começou a se juntar aos pares. Não para entrar na Arca de Noé, mas para dividir o guarda-chuva – item teoricamente proibido, assim como máquinas fotográficas.
A chuva estava tão forte que foi necessária a presença de um guarda-costas no palco para segurar a sombrinha para a cantora. Apesar de tentar passar batido, impossível não notá-lo com  a imagem dele estampada nos telões. Cena curiosa.
Não é a primeira vez que tenho a oportunidade de assistir ao vivo ao maior fenômeno da música pop de que se tem notícia.
Estive no show de 1993, no Morumbi, mas tenho poucas lembranças. Estava então com 17 anos e cheguei aos portões do estádio às 8 da manhã. À tarde, sem aviso, Madonna entra no palco para ensaiar. Consegui vê-la de muito perto, já que estava na fila do gargarejo. Impressionou-me o tamanho dela – pequenininha – e sua pele branco-leite. Do show não me recordo muito bem. Era a turnê de “The Girlie Show”.
Desta vez Madonna está “Grudenta e Doce”(“Sticky and Sweet”). A turnê termina no Brasil com os shows de São Paulo. Há quem diga que seja a última da cantora. Alega-se que ela já está com 50 anos e que pensa em ficar mais sossegada. Mera especulação.
Madonna pode até não voltar ao Brasil para uma nova excursão, mas está bem longe da aposentadoria. Parece uma perereca elétrica. Perereca por conta de sua forma física; e elétrica pelo que faz no palco – dança, toca guitarra, se arrisca na “pole dance”, pula corda, luta boxe e ainda canta.
Com tanto para ser comentado, é lamentável destacar o escorregão que ela tomou graças ao palco molhado. Ontem, no jornal “SBT Brasil”, a manchete era algo como “Madonna estréia no Maracanã com tombo”. Nascimento, tem certeza de que essa é mesmo a notícia?
O show terminou antes da meia-noite, mas nós viramos mariposas no momento em que os telões mostraram o “Game Over” (“Fim de Jogo”).  
Abandonamos a latinha e voamos – torcendo para que ela não demore mais 15 anos.

2008/12/15

COMO SE SAFAR DO TESTE DO BAFÔMETRO

Arquivado em: Mentes brilhantes — trezende @ 20:07

licor_merda

sacarolha Se o governo Lula fosse uma bebida, qual seria?

a) “Romanée-Conti”
b) Cachaça
c) Cerveja “Space Barley”, a Cevada do Espaço
d) refrigerante Judá Cola

A resposta: n.d.a.
A bebida-símbolo deste governo é o Licor de Merda – recuso-me a maiores explicações.
O licor é na verdade um vinho licoroso fabricado desde 1974 na região de Cantanhede, Portugal.
No site, o fabricante explica que a bebida surgiu numa época em que Portugal passava por um período conturbado de luta entre esquerda e direita. O licor teria sido criado para homenagear algumas autoridades que governavam o país.
A descrição é de que é um produto de alta qualidade, “cuja fórmula pertenceu no final do século 20 ao frade maluquinho Basku Gosalbes. Extraído a partir de diversas merdas de confiança, está sujeito a criar depósito com a idade. Recomenda-se que seja servido com o cuidado indispensável para não turvar”. Preço: 9,90 euros.
Entre os ingredientes, baunilha, cacau, leite, canela, açúcar e citrinos.
Esse “citrinos” especificado no rótulo é a ginja, fruta agridoce apreciada em Portugal que é uma variedade de cereja.
No site há ainda algumas receitas de drinques que podem ser preparados com o licor, entre eles, o “Caipimerda” e o “Merdoska”.
Tudo relacionado ao licor é sugestivo. Além do nome do rótulo, dos drinques e da descrição do produto, o local de fabricação também nos faz levantar as sobrancelhas: Rua dos Namorados, 39, Cantanhede, Portugal.
Fica aí a sugestão de bebida para a ceia de Natal. Tim-tim.
Dêem uma conferida no site AQUI

P.S.: o show da Madonna? Maravilhoso. Comentários amanhã

2008/12/14

BRANCO TOTAL

Arquivado em: A real do mundo real — trezende @ 16:22

 

É provável que Ana Maria Braga esteja se lamentando até agora de suas declarações a respeito do ex-marido de Susana Vieira, Marcelo Silva. O pensamento-padrão em situações em que a língua ganha vida própria deve estar ecoando em sua mente como um mantra: “não foi à toa que Deus nos fez com dois ouvidos e uma boca”.
Na semana passada, ao defender a atriz, Ana Maria disse que se Marcelo desaparecesse da face da Terra seria algo maravilhoso para todo mundo. Ela tomou as dores da amiga e arranjou sarna pra se coçar.
O pai do defunto promete mover ação civil na Justiça do Rio contra Ana Maria. Ele pedirá indenização por danos morais, calúnia e difamação.
O valor ainda não foi definido, mas sendo a “ré” rica e famosa, podemos esperar alguns milhões.
O pai alega que Marcelo estava tratando a dependência química em cocaína e teve uma recaída após os ataques da apresentadora.
As declarações de Ana Maria podem ter contribuído para o retorno de Marcelo à função aspirador de pó, mas ele já era um garoto-problema. Durante o casamento com Susana já apresentava sinais de mau-caratismo. Até o pastor alemão da atriz notava. Antes de morrer atropelado, mordeu a mão de seu inimigo.
Depois vieram os escândalos de traição, o quebra-quebra no motel, o perdão, a reincidência e a separação. Demorou, mas Susana Vieira percebeu que talvez um outro eletrodoméstico fosse mais útil do que um aspirador de pó.
O pastor alemão está para Marcelo assim como a cegueira está para as mulheres carentes. E as sarnas para Ana Maria Braga.
Esse imbróglio está só começando.

2008/12/13

UM NOVO USO PARA O BISTURI

Arquivado em: Absurdos nossos de cada dia — trezende @ 08:18

 

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cranio Imaginem a seguinte situação: uma paciente repousa silenciosamente em seu quarto após passar por uma cirurgia que lhe retirou o útero. Na sala ao lado, outro aguarda a terceira operação de um câncer de próstata. Um terceiro tenta se acostumar ao primeiro dia sem uma das pernas.
O quadro já é suficientemente dramático, mas eis que ocorre algo para piorar ainda mais a triste atmosfera de tristeza e amargura próprias do ambiente: barulho de apitos, gritaria, rojões. E a surpresa: a algazarra tem como protagonistas estudantes de medicina bêbados.
Os casos dos pacientes citados acima poderiam ser reais, mas a invasão sonora é genuína e aconteceu no Hospital Universitário de Londrina.
Eufóricos com o fim do curso, cerca de 14 estudantes do curso da Universidade Estadual do Estado saíram do bar e resolveram fazer a festa dentro do hospital. As imagens das câmeras do circuito de segurança foram exibidas nos telejornais e chocaram o país.
A colação de grau foi suspensa e, de acordo com o reitor, os estudantes correm o risco de ficar sem diploma.
O mínimo que se pode esperar é a punição eficaz dos culpados. Nem na melhor das ficções há sequência parecida. Além de Anatomia, Parasitologia e Farmacologia, será que Ética e Saúde Mental fazem parte da grade disciplinar do curso de Medicina?
A atitude dos jovens médicos se compara à hipotética e absurda cena de pedreiros e mestres-de-obra depredando um prédio para celebrar o término da construção.
Futuramente, antes de uma consulta, teremos de verificar os antecedentes dos médicos. O questionário-padrão vai ter de incluir questões como: já metralhou pessoas em sala de cinema de shopping? É pedófilo? Esteve na festa em que um calouro morreu afogado na piscina? Invadiu algum hospital em Londrina?
Se ele sair incólume dessas questões, marque o horário. Ele é dos bons.

P.S. 1: Adivinhem? O pessoal do Terra conseguiu salvar as minhas informações. Mal posso me conter de alegria. Graças à amizade de gente que trabalhou comigo na época em que lá estive, é provável que eu banque a filha pródiga. Mas só no início da semana que vem. Hoje estou me preparando para me dirigir ao Maracanã para o show do ano: Madonna.

P.S. 2: para quem não conhece o outro blog: http://tatirez.blog.terra.com.br

2008/12/12

SAL GROSSO URGENTE

Arquivado em: Absurdos nossos de cada dia — trezende @ 09:07

bart-simpson

 

dedo Começo a achar que preciso me benzer a cada dezembro. Nos últimos dois, três anos, o mês – naturalmente deprê por conta do Natal – tem sido de acontecimentos ruins. O que ocorreu ontem só reforça essa idéia.
Ao repetir minha rotina diária de abastecer o blog com novos textos, me deparo com uma mensagem do Terra (toc toc toc) sobre a mudança de sistema que está sendo feita para o WordPress. Era algo do tipo: “Deseja fazer a migração? Nenhuma informação serão (sic) perdidas”. Só pelo erro de português já deveria ter desconfiado de que algo não cheirava bem.
Sim, desejo.
Foi  o que bastou para o blog sumir, escafeder-se, desaparecer num buraco negro. Perdi tudo. A página de edição do Terra (toc toc toc) é um imenso vazio, sem posts, sem os comentários queridos, sem as estatísticas, fotos, links, tudo, tudo, tudo. Um trabalho de quase dois anos virou pó.
Mantive contato com a central de atendimento do Terra (toc toc toc) praticamente durante todo o dia, mas ninguém resolveu nada. Uma das respostas foi o cúmulo: “No momento não temos nenhuma instabilidade em nossos serviços”.
Por fim, pediram que eu aguardasse 72 horas porque o caso teria de ser repassado para o setor de tecnologia. Como sofro da síndrome do “Tudo É Pra Ontem” – após chorar bastante, me descabelar e me lamentar pelos textos que gostaria de ter guardado – resolvi fazer a fila andar.
Está aí o blog novo – muito melhor do que o do Terra (toc toc toc). Não sei usar a maioria das ferramentas, mas já consegui montar algo. Por questões de espaço, o título passa a ser somente “O Mundo Gira, A Lusitana Roda”. Nunca um título foi tão oportuno.
Desconfio ter sido vítima da macumba on-line. Justamente um dia após a indicação do Noblat alguém encomendou um “Apagar blog alheio”.
Enfim, todos os novos leitores que conquistei com a honrosa menção não subiram a serra.
Fica o conselho – jamais tenham um blog Terra (toc toc toc) – e o sincero pedido do Bart Simpson aí de cima.

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